Eraserhead

David Lynch é o cara. Se Romário trabalhasse no cinema, concordaria com esta afirmação. O sujeito é responsável por um cinema tão refinado que fica difícil achar defeitos. Fotografia, enquadramento, trilha, roteiro, enredo, desenvolvimento de personagem, cenário, tudo é feito com muita paciência e muita perfeição. Analisando a sua filmografia, podemos perceber a trajetória quase impecável de David Lynch, passando por biografias como Homem Elefante (1980) e Uma História Real (1999), suspenses como Veludo Azul (1986), além de filmes misturando realismo e onirismo em um desenvolvimento não-linear, como Cidade dos Sonhos (2001) e Lost Highways (1997).

David Lynch expandiu-se tanto na sétima arte que resolveu se arriscar em séries…e deu certo! Twin Peaks (1990) é considerada ainda hoje como um grande marco das séries de televisão, sendo aclamada como um verdadeiro Cult e responsável por um dos finais de temporadas mais chocantes que um seriado poderia ter. Além disso, ele ainda realiza projetos musicais, que podem ser encontrados em http://davidlynch.com/, inclusive, com concursos culturais como o “David Lynch Music Competition”, aonde os competidores gravam clipes para as músicas dele, como estes:

Mesmo tendo uma variabilidade de interpretações, enredos e cenários, os filmes de David Lynch casualmente contam com algumas peculiaridades, ao qual levaram a alcunha de “universo lynchiano”. As misturas de realismo com passagens oníricas sem necessariamente deixar claro qual é qual, personagens excessivamente bizarros quase beirando a caricatura, cenários aonde se destacam o surrealismo do ambiente, poucos diálogos e um grande apego a fotografia (principalmente no contraste de cores) e livre interpretação dos temas pelos espectadores. Poucos filmes do diretor terminam com uma mensagem ao qual todos os espectadores entenderão da mesma forma. E, uma das suas grandes marcas é justamente isso. Cada pessoa que vê, interpreta de um jeito. Dentre todos os filmes de Lynch, um deles – o primeiro longa – merece destaque: Eraserhead (1977). Imagine o tal “universo lynchiano” elevado a décima potência… é Eraserhead. O filme retrata a história de Henry Spencer (Jack Nance), morador de um distrito industrial e que tem um relacionamento com Mary X (Charlotte Stewart), ao qual engravida e dá a luz a um filho bizarro-mutante. Ambos tentam sobreviver ao caos da vida no distrito barulhento, no pequeno apartamento de Henry, tentando criar a criança estranha da melhor maneira possível.

Por um pequeno resumo, o filme já não parece uma obra convencional. Adjunto ao resumo, se analisarmos que, além disso, o personagem principal tem diálogos com seu aquecedor de quarto, que os pais de Mary X possuem um estranho hábito com galinhas vivas e que Henry sonha com uma bizarra produção em massa de lápis com a sua cabeça, a coisa chega em um ponto de maluquice inimaginável. Detalhe: tudo isso gravado em preto e branco. No site IMDB, certa vez tive a oportunidade de ler um comentário dizendo algo como “pergunte a seis pessoas sobre este filme e todas as seis terão respostas diferentes uma das outras”. Pura verdade.

O filme pode ser divido em duas partes. A primeira, aonde conhecemos Henry Spencer e seu apartamento, discorremos sobre sua função social e nos localizamos no distrito industrial. Conhecemos também Mary X, sua família e tomamos conhecimento sobre a gravidez. Na segunda parte, vemos a relação Henry e Mary, a estranha criança e os sonhos mais estranhos ainda de Henry, que acabam influenciando no seu cotidiano e, inclusive, dão nome ao filme. Não bastasse a bizarrice do roteiro, sendo uma obra (e talvez a melhor que explique o termo) do “universo lynchiano”, observamos toda a perfeição técnica do cineasta. A começar sobre Henry, sua vida e trabalho, assim como o distrito industrial. Isto tudo é mostrado de maneira singela, quase subjetiva, com poucos detalhes: o apartamento desordenado, os efeitos de áudio remetendo ao maquinário pesado, a pequena casa suburbana aonde Mary X mora. Consegue-se reparar todo o universo aonde o personagem está inserido no detalhismo da construção técnica – som, fotografia, cenário – sem necessariamente ser dito nada sobre o tema, apenas na compreensão dos elementos da obra. A família de Mary X, por sua vez, é o retrato do que Lynch consegue criar de melhor: personagens estranhos. Seja pai, seja mãe, seja avó, todos as pessoas da “família X” são profundamente surreais. Não se comunicam entre si, não interagem e, além disso, parecem plasticamente falsos, como manequins vivos.

Na segunda parte, percebe-se o aprofundamento ao “universo lynchiano” através da mistura entre o real e onírico. No desenrolar das cenas, não conseguimos discernir o que se trata de sonho e o que efetivamente acontece de verdade. Em uma das passagens mais marcantes do filme, temos o “talvez” sonho/diálogo de Henry com o seu aquecedor de quarto, aonde o mesmo “conversa” com uma mulher – aparentemente musa – que canta a música “In heaven everything is fine”. Da mesma forma, é na segunda parte que conseguimos perceber o quão minúsculo é o apartamento de Henry, claustrofóbico, constituindo ainda mais o cenário surreal do filme. E, além de tudo, somos apresentados ao personagem mais bizarro criado pelo cinema: o bebê. O bebê é a representação máxima do grotesco, do poder de Lynch em criar personagens estranhos; uma criatura esteticamente feia, tão errada e macabra que faria inveja a imagem de Alien (1979) mas que por outro lado mantém uma sensação de insegurança/indefesa, como o bebê de Pet Sematary (1989). 

Além disso, o bebê toma papel importante na constituição do roteiro, visto que ele passa a influenciar nas atitudes de pai e mãe, exercendo um poder assustador nos dois.

Não bastasse, como dito anteriormente, o filme foi todo gravado em preto e branco, dando uma certa estética noir a obra. Uma experiência única do cinema. Tão única que seria injusto classifica-lo como “horror” ou “thriller“. Para podermos abranger tudo, teríamos que criar uma classificação para este filme em específico.

Cabe a cada um que assiti-lo tentar “sentir” a obra e poder avaliar qual sensação e noção o filme passa. De fato, este é o grande mérito de Lynch: um filme, diferentes filmes.

Vale a pena assistir!  

   

Curiosidades: 

  • Devido ao baixo orçamento, na época, o filme foi gravado em 6 anos. Jack Lance (o Henry) permaneceu com o penteado por todo o período.
  • Lynch se recusa a comentar sobre este filme em público, avaliando que qualquer comentário pode interferir na interpretação da obra para os espectadores.
Até a próxima sessão!
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