Halloween, de John Carpenter

Este é um caso de filme mal compreendido. Isto porque Halloween é um dos melhores filmes de terror já produzido, mas ninguém percebe.

Frequentemente, ao falarmos de filmes de terror, criamos conscientemente (ou inconscientemente) uma subcategoria destes filmes, enquadrada como “terror adolescente“. Este filmes, por sua vez, como aquelas famosas comédias universitárias a la American Pie, retratam uma realidade dos jovens americanos, com o intuito de agradar um público-alvo de idade parecida ao dos personagens do filme. Justamente por essa ideia, levando em conta a pouca credibilidade do público-alvo, filmes deste subgênero frequentemente discorrem sobre uma série de clichês e situações pouco convincentes, com atores baratos/novatos em obras com uma qualidade duvidosa, seja no roteiro ou na execução. Em suma, o fato de um filme ficar enquadrado como “terror adolescente” é quase como depreciar. Alguns casos até acabam virando clássicos com o passar dos anos, como Sexta-Feira 13, principalmente por vilões marcantes, mas a priori, continuam sendo produções duvidosas.

E isto aconteceu com Halloween (1978), que acabou entrando nesta subcategoria injustamente. Embora o filme retrate uma realidade teen americana, é muito mais que isso. Em todos os seus conceitos, é um filme muito superior a qualquer um do subgênero, sendo um dos melhores thrillers já produzidos. Halloween é a prova de que pode-se retratar uma realidade adolescente, sim, mas não se utilizando da mesma situação “formulaica” para isso.

Podemos notar suas diferenças em vários quesitos. Primeiramente pela escolha dos atores e, neste caso, da atriz principal, Jamie Lee Curtis (conhecida como Scream Queen). Esta é sua primeira participação no cinema e, mesmo assim, muito competente. Sobre o papel de babá perseguida por Michael Myers, Jamie convence na atuação, principalmente como uma vítima descolada do contexto adolescente-convencional (sendo uma personagem muito tímida), sobre o cruel olhar de um assassino stalker* que retorna para cidade.

Desde o começo do filme entendemos as aflições da moça, que mesmo no colegial,  por se comportar de maneira diferente, vive uma realidade diferente das suas colegas. Sua ótima atuação nos faz sentir os problemas que vive e viveu e que, no decorrer do filme, se intensificarão por um motivo: o retorno do assassino. Este assassino, por sua vez, o grande destaque do filme.

Michael Myers é um dos melhores psicopatas já criados pelo cinema. Johh Carpenter criou a estrutura perfeita para a idealização do personagem. O primeiro ponto está no seu histórico; quando associamos vilões de terror, ainda mais os famosos, frequentemente adicionamos aos indivíduos a mesma fórmula, com um passado sofrido, uma vida conturbada, para tentar de algum modo “humanizar” o sujeito; como no caso do já anteriormente citado Sexta-Feira 13, aonde Jason Vorhees é uma vítima de colegas cruéis. Mas Michael Myers, por sua vez, não passa por isso.

Michael mata porque gosta do hábito, porque é frio, psicopata, assassino da pior espécie; e isto fica claro na cena inicial (acima), com o assassinato de sua irmã, ainda criança. Diferenciando o personagem desde sua concepção, com um passado relativamente normal, ainda temos o seu modo de ação, que é cruel em demasia. Novamente, ao analisarmos vilões de filmes de terror, recorremos a sujeitos desajeitados e agindo de forma brusca, em situações pouco convenientes que nos fazem pensar “qualquer um escaparia disso, só neste filme que ninguém pensa o óbvio“. Mas Michael Myers é diferente…ele não é bruto nem desorganizado; Myers prima pelo oportunismo (não a toa fica preso 15 anos), fica na espera do momento ideal…e isto é um dos pontos mais positivos ao filme: no decorrer da trama observamos Michael, por muitas vezes, apenas complementando o seu sadismo pela observação das vítimas, sem necessariamente ataca-las de forma tosca, esperando o momento ideal.

Por último mas não menos importante, temos a assombrosa máscara que ele utiliza, marcando-o ainda mais. Uma das caras mais assustadoras do cinema, a face sem expressão, os olhos sem profundidade, o rosto branca que não sorri dão ao personagem – já maníaco – um ar ainda mais bizarro.

Aliando a boa atuação de Jamie Lee Curtis a um assassino visceral e calculista, ainda temos uma trilha muito bem composta (feita pelo próprio Carpenter), com uma música de terror que faz jus ao nome do filme:

Esta trilha ajuda ainda mais a criar a atmosfera do assassino Myers e a situação claustrofóbica ao qual vive a babá. Em grande parte do filme Myers aparece no detalhe da cena, fora do enquadramento ou ao fundo do ambiente, mas podemos saber de sua presença apenas pela trilha tocada, servindo como “apoio” a criação dos personagens e da situação. O roteiro, talvez, seja o grande “ponto fraco” do filme, recorrendo a uma história deveras simplista, mas que na soma dos fatores, pouco influencia: o assassino retorna aos locais do crime que cometeu (quando criança) na noite de Halloween, em busca de continuar seu feito. Clichê, não? Se dependêssemos do roteiro, com certeza veríamos uma obra muito fraca. Mas Carpenter sabe administrar sabiamente o desenvolvimento da história, fazendo que este “pequeno” ponto negativo seja suprimido pelos seus pontos positivos e, no fim, passe despercebido.

Sem dúvidas, Halloween é um filme injustiçado. Alguns até o dignificam, enquadrando como o filme “pai” do gênero de serial-killers indestrutíveis que vieram depois. Mas, de fato, além de “pai” do gênero, a obra de Carpenter é muito superior aos seus “filhos”, que no geral acabam por apresentar pouca novidade, repetindo constantemente o filme de 1978 e apenas mudando detalhes que contribuem para a piora das obras. O próprio Remake de Rob Zombie de Halloween acaba por contar com os clichês de sempre, “humanizando” Michael Myers e transformando uma obra genial em uma grande vingança nonsense familiar. Damos os créditos, então, a Carpenter, que soube criar em um universo “lugar comum” de adolescentes americanos uma grande obra do terror, utilizando sabiamente os elementos que assim tinha.

*Stalker – Um termo inglês que faz referência a indivíduos que tem um estranho hábito de invadir a privacidade de outras pessoas, muitas vezes sem as mesmas saberem disto. http://pt.wikipedia.org/wiki/Stalking

Boa Tarde e até a próxima sessão!

Fontes que contribuíram para o post: www.imdb.comwww.youtube.com, www.medob.com, www.ocuriosomundodocinema.com, www.bocadoinferno.com

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