Trilogia O Senhor dos Anéis

Gosto muito do trabalho de J.R.R. Tolkien. Sou fã declarado do cara. Na teoria, a argumentação de Tolkien é muito simples: um emaranhado de contos/tradições nórdicos e bretões na mesma história, colocados de maneira que se faça sentido e representem a mesma linha cronológica. Na prática, é muito mais profundo que isso.

Tolkien não apenas jogou um bando de contos ali, não foi um “reaproveitador” ou qualquer coisa do tipo, Tolkien fez disso o seu próprio universo*. Embora suas histórias se baseiem inteiramente sobre uma mitologia já conhecida, a sua interpretação foi tão profunda, rica e detalhista, que há quem a chame de “mitologia Tolkien”. E é neste universo que seus fãs, como eu, fazem a festa. Como exemplo, não estaríamos falando apenas de Frodo na sua missão para destruir o Anel, mas sim em tudo aquilo que cercou sua jornada, com terrenos, condados, personagens secundários, espécies etc.

Neste ponto, dá para se ter ideia da quantidade de materiais gerados através da obra de Tolkien. Temos, por exemplo, a banda Blind Guardian, recorrente em fazer músicas inspiradas na mitologia de Tolkien:

Ainda sobre estes artistas, há o pintor John Howe (sugiro olhar o site, no final do texto), outro sujeito que se utiliza da mitologia de Tolkien para recriar seu universo:

Tolkien foi tão influente que, além de garantir o futuro pé de meia de muita gente que se inspira em sua obra atualmente, como os carinhas aí em cima, também serviu de apoio para gente que já tinha sucesso e uma boa fortuna. Não a toa, o mago branco, Saruman, aparece na contracapa do álbum de uma das bandas mais influentes de todos os tempos, o Led Zeppelin.

Para alguns, talvez surpresa, mas para aqueles que conhecem a história da banda afundo é informação garantida que, sim, Led Zeppelin “bebeu na fonte” de Senhor dos Anéis também! Não só na contracapa do álbum, como aí em cima, mas com referências diretas em algumas músicas, como o caso de Misty Mountain Hop (Montanha Nebulosa). Resumidamente, o que quis demonstrar é que, embora pareça e talvez até tenha ficado estigmatizado como “coisa de criança” ou “coisa de nerd”, Senhor dos Anéis é um grande ícone da cultura mundial, servindo para a formação de muitas formas de arte ao redor do mundo.

E foi por isso que, em 1999, o diretor Peter Jackson resolveu fazer a sua versão para o cinema. Dividido em três partes, como o livro, Peter Jackson foi bem fiel a obra original. Tirando algumas pequenas mudanças, que irritaram os fãs, mas não o público em geral**, o filme foi um sucesso de bilheterias, totalizando 17 Oscars, juntando todos os prêmios da trilogia. Mais tarde, o diretor ainda resolveu lançar o DVD com a versão de diretor, com uma hora a mais de cenas em cada filme, o que acarretou mais sucesso à trilogia. Um projeto ousado e interessante. 

É interessante notar a disposição de Peter Jackson com a produção, principalmente nos detalhes. A escolha dos atores, por exemplo, priorizou figuras que, até o momento de produção do filme, não fossem tão famosas como galãs no mundo do cinema. É por isso que temos um Passolargo interpretado por Viggo Mortensen, um Legolas interpretado por Orlando Bloom (que, na época, não era conhecido), assim como os atores ingleses para a interpretação dos Hobbits. Tirando Frodo e Arwen, interpretados por Elijah Wood e Liv Tyler, os outros atores, embora bons, não eram figuras frequentes em grandes produções. Não só isso, para dar mas credibilidade ao realismo do projeto, Jackson contratou uma equipe de projetistas que produziu TODO (sim, isso mesmo) material dos personagens a mão. Roupas foram costuradas à moda antiga, armaduras foram feitas artesanalmente etc., justamente para dar uma cara mais medieval a coisa, sem produção em massa e cada peça com uma característica única. Imagine agora, ao rever a cena de batalha no Abismo de Helm (As Duas Torres), com cerca de mil figurantes que, cada um tinha uma armadura FEITA A MÃO. Que trabalheira, eim?

Não só no detalhismo em figurinos e cenários, há também um grande esforço de interpretação dos atores, dando vida aos personagens. Gandalf, interpretado por Ian McKellen, está tão convincente que é difícil separar o ator do personagem, assim como Frodo, por Elijah Wood e Sam, por Sean Astin. Em alguns casos a interpretação do ator foi tão bem elaborada que, mesmo com as condições adversas o papel não ficou fajuto; é o caso de John Rhys-Davies, o anão Gimli, que na vida real possuí cerca de 1,80m de altura, fez um personagem com cerca de 1m no filme, mas mesmo assim em nenhum momento sequer aparenta ser um dos mais altos do elenco. Sim, foram usados muitos truques para disfarças a altura do ator, mas mesmo assim, grande parte do mérito está na interpretação do mesmo, que soube agir como uma criatura miúda e vivenciou o personagem de maneira muito profunda. Outro ponto alto, neste quesito, é a interpretação de Gollum, por Andy Serkis; embora em nenhum momento você veja de fato o rosto do sujeito, sua forma de pensar e agir como o personagem dão um grau de realismo a Gollum que o mesmo parece ser uma criatura viva, não um grande efeito de computador. O papel ficou tão denso que até a expressão facial do personagem se assemelha a do ator. Gollum vive.

Andy Serkis ou Gollum? O que você acha?
Da esquerda para direita: Théoden, Aragorn, Legolas e Gimli. Diferentes, não?

Um grande mérito do filme, que eu como fã considero muito importante, são as transcrições em texto da própria obra para a tela. Peter Jackson, em vários momentos, utilizou as próprias falas do livro nos personagens do filme. É o caso daquele discurso de Gandlaf à Frodo, dentro das minas de Moria, sobre o fato do indivíduo não escolher a época em que nasce, mas saber fazer o melhor para o mundo dentro do meio em que está. Ou da fala de Saruman ao criar o seu exército de Uruk-Hais.

Todo este detalhismo, seja de figurino, seja da interpretação dos atores, ou das próprias transcrições do próprio livro, constrói o filme como o verdadeiro “universo de Tolkien”, de forma que realmente se acredite que ele exista. Em vários momentos da obra o telespectador efetivamente acredita de que tudo aquilo foi gravado, de alguma maneira, em um universo-paralelo, na própria Terra Média, mas não em um estúdio com atores e figurantes. Um fato curioso sobe o cenário é sua locação. Quando eu vi os filmes, a primeira coisa que pensei foi “é óbvio que gravaram o filme na Europa, esta mitologia combina com a região“, mas não, todos os três foram gravados exclusivamente na Nova Zelândia. Quem diria, eim? Outro grande mérito de Peter Jackson, que soube escolher a geografia de forma que “jogasse” a seu favor. Grande parte do filme foi feita em locações reais, não em chroma-key, o que obviamente dificultou a filmagem, mas deu um grau de realidade ainda maior ao filme. Há uma entrevista, alias, de Viggo Mortensen, Orlando Bloom e John Rhys-Davies comentando sobre as dificuldades da gravação, principalmente nas cenas de corridas a longas distâncias com aquela armadura toda, que deixava os atores exaustos. Não só isso, dado o grau de empenho que a equipe estava, algumas cenas meio que saíram do controle e houveram lesões de verdade, pés e costelas realmente quebrados.

E, para arrematar com chave de ouro, o diretor ainda resolve colocar um trilha-sonora variando de um instrumental orquestrado para músicas celtas, interpretadas por Enya, conseguindo dinamizar ainda mais a subjetividade dramática de sentimentos dos personagens, inseridos naquela situação por força maior do destino. O tema principal do filme, por exemplo, é um belo exemplo da variação de calmaria bucólica do Condado dos Hobbits a destruição e morte de Mordor.

Um dos grandes pontos fracos – e talvez o único – da obra se dá através da transição de um filme para outro. Ao final do primeiro para o segundo, assim como do segundo para o terceiro, não há nenhum esforço do diretor para manter um climax no projeto, de forma que o espectador ficasse curioso ao terminar. Nestes pontos, ele seguiu a risca o que acontece nos livros, o que obviamente não ficou bom na hora de passar para uma mídia audiovisual, como é o cinema. Já que Jackson tinha feito pequenas mudanças ao longo do filme na história original, poderia tentar dar uma repaginada nas transições, para não tornar tudo insosso demais. Inclusive, esta foi uma das maiores reclamações que percebi frente ao público em geral, que não conhecia o livro.

Alias, sobre o próprio livro é importante frisar que a sua leitura é muito importante. Eu não digo que um interfira no outro, mas o grande ponto de tudo é usar um como acompanhamento do outro. O livro dá a “base” de toda mitologia (junto com Hobbit e Silmarillion), ao passo que o filme nos introduz à imagem visual de tudo, deixando aquela imagem que tínhamos construído na cabeça por interpretação do diretor. Mas, sempre lembrando, BOA parte do universo fica em branco no cinema, visto que a cronologia do livro se passa ao longo de 6 meses e o filme tem apenas 3 horas de duração; quem apenas vê o filme fica boiando bastante, sem um conhecimento mais aprofundado, como se a história inteira girasse em torno de uma relação épica besta com animais fantasiosos.

Tirando alguns pequenos defeitos, ainda assim, vale conferir poque é uma BAITA trilogia. Como é dito: o mundo se divide em quem já leu o Senhor dos Anéis e quem ainda não leu.

*Sugestão de leitura: O senhor do Senhor dos Anéis.

** Sobre as mudanças da história: os fãs reclamam, principalmente, de dois pontos:

1 – O não aparecimento de Tom Bombadil na Sociedade do Anel, personagem de passagem rápida mas extremamente importante, principalmente pelo seu enigmatismo com a floresta e a sua mulher, Fruta d’Ouro.

2 – O suprimento de detalhes no final do filme. Quando Frodo, Sam e os outros retornam ao Condado, o mesmo foi tomado por Sarumam (como na visão do futuro de Frodo, por Galadriel). A partir disso, então, ambos lutam e Sarumam é morto por Grima, o Condado é retomado, e aí sim acontecem os fatos finais, com a partida de Frodo e tudo mais.

Boa Tarde e até a próxima sessão!

Fontes que contribuíram para o post: imdb.com, youtube.com, wikipedia.org, l-o-t-r.tumbrl.com, john-howe.com, muscollection.blospot.com

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