A mulher de preto

Vi recentemente o último filme do ator Daniel Radcliffe, com o título de A mulher de preto. Confesso que baixei mais pela comédia de ver o então Harry Potter atuando fora de seu personagem, do que propriamente com interesse no filme. Vi e revi. A primeira vez com sono, a segunda não. O filme dividiu críticas. Embora fique com uma nota relativamente boa nos sites especializados no assunto, ainda assim, muita gente detestou com diversos argumentos.

Eu não.

Vamos por partes, desde o início. O filme trata da história de um jovem advogado, Kipps, encarregado de cuidar da papelada da venda de uma casa vazia, depois que seus entes morreram. A casa, localizada em uma cidadezinha do interior inglês, longe de tudo, com um ar meio macabro e com costumes mais macabros ainda. A coisa piora quando o advogado jura estar vendo uma mulher de preto circulando as redondezas da casa. Para piorar ainda mais a situação, toda trama do filme se passa no começo do século passado, ao que parece, sem tecnologia, eletricidade, ipads ou qualquer coisa do tipo.

Obviamente, estamos falando de um filme de terror. Que mudança para Daniel, eim? Saindo do papel de bruxo-herói adolescente para advogado viúvo e com filho, com problemas no emprego. Um amadurecimento e tanto. Mas, voltando ao que importa…

Aqueles que criticaram dedicaram-se a colocar duas questões em evidência, principalmente girando sobre a história, ora afirmando ser clichê, ora afirmando ter muitos buracos de desenvolvimento. Concordo. O clichê, visto justamente por como a trama se desenvolve, com os mesmos elementos ao qual todo filme de terror moderno se prende: o personagem com problemas particulares, um mistério, uma criatura “assustadora” feita digitalmente, o final com reviravolta, os personagens que não se comunicam sobre coisas básicas etc. Da mesma forma, há também muitos buracos sobre o desenvolvimento da história, como o próprio final, sem pé nem cabeça. Como disse, concordo que há defeitos. O que discordo é a análise crucial de um filme, ainda mais do estilo tratado (terror), que historicamente apresenta os devido problemas citados, até mesmo em filmes consagrados.

Da mesma forma que podemos expor suas falhas técnicas e discutir sobre isso, poderíamos também colocar os bons momentos e ver o lado positivo, que supera os problemas. A fotografia do filme, por exemplo, feita cuidadosamente, produz um grande aspecto sobrenatural à obra, ora focando no plano geral, mostrando toda a bizarrice do ambiente e da casa, ora explorando planos fechados, dando valor aos detalhes e, principalmente, ressaltando o abandono dos objetos e o estado precário ao qual o imóvel se encontra. Há também o detalhe de um (provável) filtro usado nas filmagens, deixando tudo que é visto com um aspecto esbranquiçado, como se o rolo do filme já estivesse guardado há anos. Isso valoriza a adequação da obra ao universo do século passado, aonde está inserida, tornando toda produção de efeitos ainda mais condizente  com a história.

Poderíamos citar, também, as atuações que, embora com muitos atores desconhecidos, não ficaram atrás por isso. As cenas das tragédias na vila, o povo ressentido e a tristeza real dos mesmos, mostram um ótimo trabalho da equipe ao se preocupar em criar um clima de intenso mistério sobre aquelas pessoas; nota especial para a cena aonde a moça mais rica da cidade incorpora o filho na mesa e “faz” um desenho, que eu confesso que achei MUITO tensa justamente pela atuação da mulher, que convenceu com sua interpretação.

Aliado as atuações, temos um cenário, uma maquiagem e uma produção de época muito bem trabalhadas, dando uma grande quantidade de detalhes ao filme e a situação em si. O cenário da casa, por exemplo, é tão interessantemente vívido que, por muitas vezes, o espectador se sente junto (e sozinho) com o advogado, enquanto as coisas estranhas acontecem. As coisas estranhas que acontecem, por sinal, são um mérito a parte. Graças a fotografia e ao cenário, podemos acompanhar uma das sequências mais tensas que a sétima arte já fez em toda sua existência, mesmo entre seus títulos mais consagrados.

Em curtas palavras, quem não ficou cabreiro do meio do filme até o final, quando ele retorna à casa de noite, é muito macho. Muito mesmo. Aquela é uma das sequências mais peculiares do gênero de terror já feitas. Todos os elementos estão ali, desde a solidão excessiva, passando por um fantasma que assusta sutilmente, até um momento bizarramente épico, quando ele sai da casa e se depara com aquele monte de crianças. Isso tudo com aquele cachorro maldito latindo sem parar. O diretor mexeu bem com o tamanho da casa, todos os elementos ali assustadoramente abandonados, assim como a “lenda” em si e a função horrível do personagem. O coitado fica no situação mais indesejável do mundo e o espectador ali, sofrendo com ele e torcendo pro dia amanhecer.

E no final, dados estes fatores, foi por isso que eu relevei os furos em si e considerei a obra muito positiva. Um filme de terror, grosso modo, busca criar uma atmosfera ao qual o espectador é envolvido de forma a acreditar que o perigo vivido pelo personagem é real, que aquela situação há de “saltar” da tela para o mundo verdadeiro. E A mulher de preto faz isso, mesmo com seus problemas técnicos, se utiliza de uma atmosfera incrível, aproveitando seus elementos positivos para aterrorizar o personagem e nós, meros espectadores, que assistimos a tudo em uma grande tensão, mas sem poder fazer nada.

Boa noite e até a próxima sessão!

Fontes que contribuíram para o post: youtube.com, imdb.com, cinepop.com.br

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