The Wall, de Alan Parker

Já que o Roger Waters resolveu representar o show no Brasil, com toda indumentária que se preze, era quase uma obrigação comentar sobre o filme aqui, em um blog voltado ao cinema. Até porque nós orgulhosamente estivemos presentes no show de Porto Alegre, fantástico, diga-se de passagem.

Este filme é muito curioso, aliás. Não especificamente como obra – embora também o seja – mas por um fator deveras interessante. Talvez este seja o filme nonsense mais assistido do mundo. Uso o termo nonsense para definir a obra porque, justamente, a narrativa do projeto é mostrada em uma mistura muito bizarra entre música, animações, filme e que, por algumas vezes, não se passa sobre um roteiro linear. Estamos falando daquele longa que todo mundo viu, mas boa parte não entendeu. E isso não é demérito, nem para o espectador, nem para a obra. E para compreender este fenômeno, temos que voltar a música e ao álbum lançado pela banda Pink Floyd, anos antes.

O álbum The Wall foi um projeto realizado, principalmente, após um devaneio misantropo ao qual Roger Waters se encontrou, pensando em como seria se ele largasse tudo e vivesse isolado, em volta de um “muro imaginário” feito para exclui-lo do resto do mundo.

A ideia posta no álbum (conceitual) era dar vida ao personagem nomeado de “Pink”, um rockstar com problemas relacionados a um passado conturbado e que, em um dado momento, enlouquecia e iria viver uma outra realidade, dentro de um “muro imaginário” criado por ele. Pura loucura, não?

O álbum, a priori, mostrava o atestado psicológico ao qual Roger Waters vivia na época, com aversão aos seus companheiros de banda, ao mundo exterior, tentando superar (ainda) a perda do pai, os problemas da fama, de tudo. Pink, transformado em personagem, era Roger Waters.

A ideia de Alan Parker, propositalmente, foi a de captar as mágoas vividas por Pink, de modo que tudo relatado no LP, contando a história do sujeito, pudesse ser “sentido” através de imagens e de um personagem composto audiovisualmente. Era a tentativa de “criar” imagens a uma obra originalmente apenas musical. Normalmente, ocorre o contrário.

É neste ponto que o meu comentário sobre o fato de ser um filme nonsense se encaixa. Muito do que é apresentado, principalmente nos flashbacks e/ou desenhos, não possui qualquer relação externa com o personagem, mas apenas sobre a sua visão subjetiva, sobre as suas compreensões de mundo e os seus problemas com um passado conturbado. Aliando a isto o detalhe de que, obviamente, é um filme musical e não há narrador e nem explicações maiores, compreende-se a vontade de Alan Parker de que, justamente (e como eu disse no começo), o espectador não entenda a obra toda objetivamente, sobre um ponto específico, mas que veja com um olhar subjetivo, interpretando o que acontece no universo do filme livremente.

Não há  grande necessidade de o filme estar ligado ao álbum, que por sua vez, não há necessidade de estar ligado ao conhecimento da história de sua criação. São obras complementares que, analisadas em junção, tornam tudo mais fácil de se compreender. Mas, separadamente, não diminuem em importância ou beleza.

É nesta relação que, dado o esforço de Alan Parker, tanto estético como no roteiro, mesmo sem compreender puramente do que se trata a história por trás do personagem e da música, podemos assistir uma obra muito bem elaborada, trabalhada e finalizada.

Esteticamente, principalmente, por um ótimo trabalho de fotografia, trabalhando muito bem os enquadramentos com o personagem, seus cenários e o mundo nele inserido, como por uma bela iniciativa de saber “jogar” com as cores, definindo cada cena de acordo com uma cor específica. Em situações lúgubres, temos uma visão mais azulada, assim como em situações de explosão, fúria, o personagem é visto em ambientes mais avermelhados. Aliado a isto, temos a nobre participação de Bob Geldof, como um Pink muio convincente e voraz, vivenciando realmente a pele de um rockstar problemático e com moral dúbia; o papel é tão intenso que, até hoje, eu nunca soube se a cena das sobrancelhas é real ou falsa, dada a grande interpretação de Bob, que ficou reconhecido e marcado pelo papel.

Sabiamente, ainda sobre o olhar de Parker, temos a inserção das animações, que novamente dão vida a obra e a tornam ainda mais…peculiar, para não dizer estranha. Isto é uma característica que não falta ao filme, e pelo contrário, o torna mais marcante.

A iconografia ao redor do filme – e principalmente das animações – é tanta, que até hoje há uma relação quase imediata ao se lembrar do filme/álbum e, mentalmente, reproduzir determinadas imagens, todas retiradas dos desenhos: os martelos, o professor, a mãe, o juiz com cara de bunda, as flores, o boneco isolado e, principalmente, o muro branco. Todos formaram a identidade visual do projeto que, muito além da música, tornou-se o responsável por toda uma arte conceitual presente em um “universo” criado pelo conjunto de tudo, ora por músicas, ora pelo filme, ora pelas imagens.

Mas, deixando a iconografia de lado e retornando a estranheza da obra em si (sobre o conjunto de tudo), temos outro consenso sobre o filme: ele é tão peculiar que a mistura de sentimentos observada no filme – mesmo sem conhecer a história a fundo – é sempre a mesma: tristeza. É um filme puramente triste, angustiante ao extremo.

Você pode não entender o porquê de tudo, o porquê da situação do personagem, mas você percebe, naturalmente, a angústia vivida pelo mesmo. Méritos de Geldof e Parker. Alias, o filme é tão angustiante que a ordem das canções teve de ser alterada. Já repararam que um dos maiores hits da banda, Hey You, não consta no filme original?Justamente porque, tanto o diretor quanto banda, perceberam que o filme era angustiante ao extremo; a inclusão de Hey You tornaria o clima ao redor do filme e do personagem mais “pesados” ainda e, em uma decisão unânime, ambos optaram por tirar a música e as cenas que a envolviam do filme. Bizarro, não?

É uma obra sui generis. Musicalmente, falamos de um álbum clássico, mas que também passava sobre o pente-fino de uma expressão muito característica, com momentos ao qual a obra parecia “louca” demais, subjetiva demais. O filme, notadamente, querendo ou não, retrata muito bem isso. Alan Parker soube, com muita maestria, transferir a música para a tela e tornar um impactante álbum musical em um ousado e também impactante filme. Méritos para todos que se dedicaram a analisar e interpretar a obra da melhor forma possível, criando um grande projeto que se tornou um clássico, tal qual sua música.

Para quem não viu, segue abaixo. E para quem já viu, vale assistir de novo:

 Boa Noite e até a próxima sessão!

Fontes que contribuíram para o post: imdb.com, youtube.com, osquecheiraramcocteau.wordpress.com, sinopsemusical.blogspot.com, uncyclopedia.wikia.com

Anúncios

3 comentários sobre “The Wall, de Alan Parker

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s