Guerra dos Botões

Existem algumas coisas que são boas porque são. Simples assim. Modifica-las ou aumenta-las, de fato, só estragam o conteúdo. E Guerra dos Botões é, talvez, o melhor exemplo do caso.

Neste ano, o famoso livro homônimo do francês Louis Pergaud veio a se tornar domínio público. Para quem não conhece, Guerra dos Botões relata a “guerra” (em parenteses, porque esta, apenas uma brincadeira) de duas gangues de crianças rivais, aonde o maior troféu é retirar os botões dos inimigos, de modo que os mesmos sofram, através dos pais, as broncas da roupa estragada. Ao longo da obra, claro, o intuito de Pergaud era fazer uma paródia e crítica a guerra dos adultos, contextualizada no universo infantil em forma de uma inocente brincadeira. Famoso, como era de se esperar, o fato do livro tornar-se domínio público abriu portas para diferentes artistas utilizarem-no de inspiração.

Só neste ano, foram lançados dois filmes sobre o livro: Guerra dos Botões de 2012 (que vi esta semana, no cinema) e A Nova Guerra dos Botões (que ainda não vi). Somados a eles, temos Guerra dos Botões de 1936, Guerra dos Botões de 1962 (o mais famoso, de Yves Robert), Guerra dos Botões de 1994, além de inúmeras outras séries, curtas e afins. São muitas Guerras dos Botões e todas, em essência, exatamente iguais. Pouco se alteram nos filmes, divergindo também muito pouco da obra original em livro. São mantidas as inimizades, os personagens, suas motivações, histórias, suas ações, sua índole, assim como são mantidas algumas passagens clássicas do livro. Tudo igual.

Na lógica, copiar a mesma coisa por tantas vezes, seria um sinal quase certo de fracasso. Afinal, como não tem nada a se acrescentar, entraríamos no argumento de “é apenas mais do mesmo“. Afinal, somados, são 5 filmes famosos, mais as séries, os curtas, o livro, tudo junto daria muito mais do que 15 obras extremamente parecidas. Mas, aqui, não é o caso. Guerra dos Botões, alias, prova justamente o contrário. A obra em questão é o exemplo mais cabal de que, sim, pode-se repetir a mesma coisa a exaustão sem ficar repetitivo. Claro, temos aqui os louros de Louis, em uma obra concisa e muito bem escrita, com personagens simples mas estruturalmente interessantes, abordando um tema por vezes difícil, mas de uma maneira lúdica e com uma linguagem tão simples e universal. Ainda podemos contar, também, a conduta majestosa de cada uma das adaptações ao cinema; mérito de seus diretores e equipes, que conseguiram interpretar a essência de tudo e transpuseram sabiamente à tela, cada qual de uma maneira peculiar, mas todos com a mesma proposta.

É interessante como Guerra dos Botões retrata um tema vivido por todo mundo, mas sem soar artificial: a infância e a inocência. Sim, claro, poderíamos abordar o principal ponto do livro, sobre a crítica à guerra, mas gosto de notar o trabalho da obra sobre o ponto de como as crianças se portam. E isso que, justamente, soa tão bem feito. Melhor que a própria crítica à guerra em si, o grande acerto de da execução está, principalmente, na primorosa interpretação que se desenvolvem as crianças da obra e as suas mais subjetivas relações com o mundo.

Durante toda a história, vemos discorrer a mais diversificada massa de temas do universo infantil, como brincadeiras, problemas, conflitos, namoros, escola etc. e, para todas as situações, todos os personagens se comportam na maior naturalidade possível, ora sem saber muito bem como agir, ora se portando como crianças de fato. Sem um soar muito falso de atitudes e ações completamente anti-naturais dos personagens, justamente, as crianças da obra são apenas…crianças. A inocência de perceber um mundo sobre um olhar completamente diferente entre crianças e adultos é sim, o grande diferencial de Guerra dos Botões, que sabiamente foi bem traduzida do livro para o cinema. Inclusive, é na própria “guerra” que percebemos a dinâmica dos personagens e a ótima interpretação do universo infantil, aonde todos tem a mesma visão de “brincadeira”, imitando uma situação que, para os adultos, a proposta seria completamente diferente. Mesmo com a divisão, os “clãs” e os líderes, como LeBrac e Asteca, tudo tem um olhar estritamente lúdico, uma grande e enorme brincadeira sem fim.

Ponto alto disso, nos filmes, foi a sabia escolha de ambos os diretores para seus atores mirins. Em nenhuma das versões contamos com interpretações ruins e/ou artificiais. Em todos os casos, as crianças escolhidas para desenvolver a trama, cumpriram em essência seus mais variados personagens. Alguns com mais destaque, claro, como LeBrac da versão de 2012, interpretado por um iniciante e que, ao longo do filme, discorre maravilhosamente bem toda a crise do personagem e os problemas de lidar com a perda do pai, sendo o líder da família, do “clã” e da escola.

Lebrac, por sinal, embora com mais destaque nas versões atuais, foi sempre o maior paradoxo da obra. Justamente por enfrentar as dificuldades na família (e financeiras), as constantes oposições entre ou “ser adulto”, ou “ser criança”, é o personagem que recebe grande destaque. Por isso, fica a cargo do seu papel representar um grande dilema da obra: crescer artificialmente, se moldar a um mundo que não lhe pertence ou preservar as raízes infantis e dar valor aquilo que outrora foi importante. O paradoxo de LeBrac é observado, principalmente, em dois pontos cruciais. O primeiro, quando vemos sua relação ao fato de mudar de escola (e cidade), crescer ou não crescer, assumir as responsabilidades do estudo e de ser o “líder” da turma. Mas, muito além disso, vemos principalmente a sua tomada de responsabilidades quando acata, ou não, uma mulher na gangue (Lanterna, sua “namorada”). Afinal, cabe a ele tomar a difícil decisão: pode uma menina lutar ao lado dos meninos, na vil batalha dos botões?

É interessante reparar também que, além de LeBrac, há o personagem do professor, que passa por um processo semelhante, mas inverso. Professor este que, por muitas vezes, muito mais que apenas um tutor acadêmico, funciona como um elo entre a discordância de ser adulto e ser criança, mas sobre a óptica de alguém que já viveu os dois universos. Como antigo membro do “clã” (quando criança), o professor, por vários momentos, passa muito além do papel de profissional do ensino e mostra que, antes de tudo isso, a sua nostálgica infância ainda é fundamental na construção do personagem e do perfil que o mesmo formou. Afinal, como também é bem mostrado na versão de 2012, o mesmo deixa claro que, uma das escolhas mais importantes de sua vida infere objetivamente a sua relação com “a guerra dos botões” e como ele tinha vivido isso, no seu tempo de criança.

Os contrastes, alias, constantes em toda obra. Começando pelos próprias “clãs”, aonde cada qual dos vilarejos tem uma educação completamente diferente, um liberal, o outro ortodoxo, um cristão, o outro protestante. Passando pelos próprios líderes dos “clãs”, ora se odiando, mas também nutrindo uma estranha admiração um pelo outro (isso, bem visível na obra de 1962). O personagem traidor, que não sabe qual lado decidir e acaba vendo na dualidade dos atos uma justificativa para participar inocentemente dos dois grupos. Os próprios vilarejos, se portando completamente diferente em atitudes uns com os outros. Os professores, com distintas maneiras de educar seus alunos, um mais rígido, o outro mais liberal. Ou os próprios líderes, um mais democrático, inferindo aos conceitos franceses de sociedade, o outro mais aristocrático, lembrando quase uma ideia de monarquia. Uma longa e constante mostra das diferenças, expostas novamente, através do universo infantil e como as crianças se utilizam disso para desenvolver seu cenário lúdico. Afinal, toda a “guerra” se dá, justamente, pelo contraste de relações de ambas as aldeias e como as crianças se correspondem a isso.

E é neste ponto, quando começamos a perceber estas relações, os pormenores de toda a obra em questão, chegamos ao argumento que eu coloco: originalidade. Como disse lá no começo, estamos retratando uma obra tão única, tão bem construída que, de fato, não precisamos buscar sub-explicações ou interpretações maiores e mais elaboradas. Simplicidade é a palavra de ordem. Tudo está lá. A transcrição quase idêntica, desde a versão de 1936 até a última versão de 2012, todas se mostram excessivamente parecidas (e boas igualmente) justamente porque temos um projeto tão bem feito que a originalidade está na própria obra em si, sem precisar de acréscimos e mudanças significativas, sem a fuga do projeto original.

Quando vemos A Guerra dos Botões, seja qual for a versão, entendemos desde o princípio toda a discussão do filme, as dificuldades infantis e as repletas situações, seja na sua função de ser uma crítica à guerra, ou na sua maneira de querer interpretar a “guerra” interna entre as obrigações de crescer e a liberdade de ser criança. Sabemos, alias, que não somos os personagens, mas facilmente nos colocamos no papel de cada uma das crianças e, sem muitas dificuldades, entendemos todo o olhar do filme não só com a ideia de um mero espectador, mas sim como as próprias pessoas que ora viveram situações parecidas; vislumbramos toda originalidade da obra, sabendo que toda discussão proposta, embora simples, passa por uma ideia muito profunda, por uma óptica muito honesta aonde todos nós, sem hesitar, seremos colocados em uma situação parecida em nosso cotidiano, a algo que já vivemos no presente ou no passado.

Vemos, lá, as crianças francesas, irlandesas, mas conseguimos entender que a grande sacada de tudo está na interpretação quase universal, de problemas internos que afligem todos nós, em algum ponto determinado da vida. Não estamos falando de LeBrac ou Asteca, propriamente, mas conseguimos entender que esta é uma daquelas obras com situações implícitas e inerentes a todos nós. Sim, claro, tudo está demarcado em um universo bem característico proposto pelo livro, mas isso não nos impede de entender e compreender toda discussão, sabendo que aquilo que as crianças passam (ou passarão) na Guerra dos Botões, todos nós passaremos um dia. São problemas universais e respostas universais, dúvidas e ensinamentos muito maiores que a própria obra, mas sabiamente colocados de maneira simples e fácil. Visualizamos as dificuldades, as alegrias, as batalhas, as rivalidades e sabemos, sim, sem artificialidade que tudo que aquelas crianças discutem, todos nós passamos e, no futuro, outros passarão de maneira igual.

Abrimos as portas a imaginação e deixamos discorrer, cada um, como bem entender e quiser pensar sobre o que se espera ao assistir qualquer uma das versões de A Guerra dos Botões. Afinal, seja qual for a mensagem que cada espectador (ou leitor) consiga extrair da obra, vale encarar uma visão do mundo com uma frase repetida a exaustão por LeBrac: nada de medo!

Boa noite e até a próxima sessão!

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