Twin Peaks – Os últimos dias de Laura Palmer

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Você conhece a série, não é? Se não conhece, deveria. Tão aclamada nos anos 90, uma das séries mais premiadas de todos os tempos, constando como unanimidade em quase todas as listas de “as melhores séries de todos os tempos“.

Twin Peaks retrata a investigação do Agente Dale Cooper sobre a morte de uma popular garota de uma cidadezinha, conhecida como Laura Palmer. No decorrer da trama, além do desenvolvimento sobre o assassinato, há um aprofundamento bizarro entre temas de ficção, oníricos e, claro, criada por Lynch, elementos surrealistas que, em muitas vezes, a explicação é meramente subjetiva. Embora aclamada, sofreu uma grande pressão durante a sua trama para que alguns elementos fossem apressados, o que acabou lhe dando um final prematuro, com um último episódio épico, mas que não respondia todas as dúvidas do espectador, que acabou querendo mais detalhes sobre tudo.

E aí, veio o filme, um prequel, mas que DEVE ser assistido depois, para não estragar a trama da série. Muitos criticaram o filme, achando inconsistente, com algumas más atuações e substituições de personagem. Eu gostei.

O principal ponto para se entender, tanto filme quanto série, é justamente algo do “universo lynchiano“, já citado aqui algumas vezes. Há um ar de falsidade assustador nos personagens, quase que como unanimidade, todos se comportam de maneira muito estranha, ora com vidas duplas, ora com poucas expressões, ora com um efeito de luzes que deixa todo mundo excessivamente branco. A falsidade está presente na série e, também, aparece presente no filme. Eu sinceramente não consigo perceber, ali, o que é má atuação ou o que é plasticamente forçado, porque justamente uma das intenções do projeto era, visivelmente, criar um ar ficcional a todos os personagens; embora se comportando como uma cidade americana comum, há de se perceber os laços sobre não-realidade de todo projeto de uma maneira muito visível. E é esta a grande artimanha da série, aumentada ainda mais no filme.

O filme foi feito unicamente com um objetivo: compor alguns elementos a mais sobre a série que, justamente, todos queríamos saber, mas não tínhamos como, dado ao final prematuro. As más atuações, ou as trocas visíveis e sumiços de personagens marcantes, são todas recobertas sobre um caráter quase poético de aumentar a não-realidade de todo o projeto; alias, a cena inicial do filme, com uma TV sendo quebrada em mil pedaços, praticamente diz nas entrelinhas sutis que “não estamos mais na TV, esqueça a série, aqui é um filme!“. A ligação está na explicação, na soma dos fatos, eliminando algumas dúvidas – principalmente sobre Laura Palmer – mas acrescentando outras, como a cena aonde Annie aparece deitada na cama de Laura. No entanto, não há obrigações lineares em criar laços maiores entre série e filme, afinal, durante todo o universo Twin Peaks o que vale é o bizarro.

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Twin Peaks é um breve resumo da utilização de várias mídias (TV, cinema e um livro) sobre o “universo lynchiano“, aonde o valor surreal do onírico, ou de uma ficção não tradicional, são maiores do que a linearidade física da composição da obra. Não importa se o filme se desligue em muitos aspectos do mundo ao qual estávamos acostumados na série – como no começo, aonde aparecem dois agentes completamente diferentes – a graça de tudo está incluída principalmente na falta de lógica. Lynch, novamente, abre as portas através de um universo criado, a cidade ficcional de Twin Peaks, mas que não termina aonde vemos ou ouvimos, apenas começa com uma longa jornada inconclusiva em muitos aspectos e puramente interpretativa em muitos outros.

Vemos no filme a graça de poder compreender pequenos pontos, a ligação dos assassinatos pré-Twin Peaks e, mais ainda, sobre a evolução do personagem Laura Palmer, entendendo melhor suas relações com todo o enredo da trama e de vários outros moradores da cidade, que ficavam em aberto ao longo da série da TV, sem maiores aprofundamentos. O  charme do “universo lynchiano” se faz, justamente, em saber constituir o mistério do capítulo final da série no filme, com alguns elementos, como o Black Lodge, assim como a participação de algumas conclusões do mesmo que precisavam ser refinados – e são – com a história contada no filme. Ainda assim, o filme tem seus créditos de novidade e mais suspense, deixando também seus mistérios em aberto para livre interpretação, como a famosa cena da “rosa azul”, aonde podemos tirar nossas conclusões, mas nada é efetivamente explicado.

Mais uma vez, somos transportados a um universo surreal, aonde nem sempre o que vale é o que está sendo visto; muito da graça de todo projeto, começando com a série e terminando com o filme, não está APENAS no que é visto. Estamos em um universo de liberdade, criado por Lynch justamente para ser interpretado assim, livremente, com as associações que quisermos e é isto que, novamente, é feito ao longo do filme. Se a série é melhor? É, de fato, muito mais rica em detalhes e em conteúdo. Mas, não diferente, o filme aborda alguns outros pontos interessantes, aprofunda o universo e, assim como o episódio final da série, nos ajuda a ficar ainda mais encucados com o enredo surreal aonde tanto agente Dale Cooper quanto Laura Palmer foram expostos. Afinal, o que será do futuro de cada um ao adentrar o Quarto Vermelho?

Boa noite e até a próxima sessão!

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