Império dos Sonhos, de Lynch

A brilhante viagem do surrealismo onírico de Lynch finalmente chega ao seu ponto mais complexo.

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Quem já viu Estrada Perdida, ou Cidade dos Sonhos, conhece o universo surrealista onírico que Lynch descreve; por hora, em (quase) todas suas obras, a não-linearidade se mostra presente em algum aspecto. Mas, foram nestes 3 filmes aonde Lynch explorou seu trabalho com mais liberdade. E a evolução, ao longo de cada uma, é visível até para os olhos mais leigos.

Em Estrada Perdida conseguimos entender as relações narrativas e o desenrolar do aspecto do discurso convencional de uma história – mesmo não-linear – ao ponto em que, artisticamente, o trabalho de Lynch configurava um projeto ainda amarrado aos preceitos objetivos do desenvolvimento “mainstream” do cinema; todas as características de um roteiro estão lá: personagens, seus diálogos, suas conexões dentro da história, tudo. Mesmo com as viagens do sub-consciente, fica claro a relação dos personagens nos universos diferentes, convergindo para um final dúbio, porém compreensível e com possíveis interpretações já definidas. Já em Cidade dos Sonhos, aprofundando o projeto, a linearidade do discurso fica ainda mais emaranhada nas castas de paralelos e interpretações feitas pelo espectador que, mesmo assim, pelo desenvolver da montagem artística da obra, ainda consegue “ligar os pontos” e estabelecer uma conexão clara no que está vendo e no que Lynch pretende dizer ao final de tudo; mesmo que se entenda de diferentes formas a mesma história, ainda assim somos levados a entende-la de alguma forma. E é neste limbo que Império dos Sonhos diverge claramente – e se torna mais maduro – que os seus antecessores, sendo um aprofundamento liberal no discurso do filme.

A desconstrução do “pensar” do projeto, feita por Lynch, chega em um nível tão complexo que, grosso modo, com o passar das (quase) 3 horas de filme, não sabemos se estamos vendo um emaranhado de imagens soltas, ou se aquilo possuí sentido lógico e Lynch efetivamente quis dizer alguma coisa com aquilo tudo. E, claro, acabou dizendo sim; não propriamente com uma linguagem enquanto história física (resultado do filme) em si, mas em um campo totalmente surreal e metalinguístico, sobre o cinema (e seus roteiros) falando do próprio cinema (e seus roteiros).

A princípio, isto poderia ser visto como uma relação “ruim”, claro, sobre um aspecto mainstream ou do cinema convencional, aonde estamos – enquanto espectadores – educados pela indústria cultural a crer que, necessariamente, os filmes possuem uma forma de discurso estabelecida sobre uma série de “dogmas”: precisamos crer que há relação entre imagem e aquilo que ela quer dizer; ou seja, o que nos é mostrado na tela é exatamente aquilo que o diretor quer que pensemos sobre o que se passa ali. Justamente, a desconexão de Lynch em Império dos Sonhos, com seu trabalho mais profundo, visa mostrar que estas estruturas ao qual somos educados, podem ser completamente “deseducadas” e, ainda assim, conseguimos criar um universo aonde o discurso nem sempre é ligado necessariamente a um contexto definido. No primeiro momento, óbvio, vem a confusão, o nó mental no nosso pobre cérebro; mas, ao “absorver” a proposta, entendemos que mesmo com o (possível) caos do filme, há ali uma crítica artística muito nobre.

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O trabalho de Império dos Sonhos é criar a dúvida, é justamente Lynch podendo mostrar aos espectador que, mesmo um filme, pode ser desmembrado entre discurso e imagem: aquilo que você vê pode – ou não – ser aquilo que você interpreta, acredita ou percebe; você pode analisar as estruturas da obra separadamente, ou em conjunto, ou dividir sua interpretação por cenas, que seja, é você (o espectador) que vai decidir, não o discurso do filme. Afinal, do começo ao fim das quase 3 horas, em nenhum momento o diretor toma as rédeas da interpretação objetiva da história.

Lynch descontextualiza a ótica tradicional, tal qual outros artistas já fizeram (como Buñuel) e consegue criar um universo através dos sentimentos – aquilo que se percebe através de cada quadro do filme – não necessariamente apresentando um discurso usual para seu espectador. Cada um vê no mesmo a relação que pretende ver, totalmente livre das interpretações pré-programadas, imergindo no universo da subjetividade e olhando cara detalhe da obra com um ar de novidade ou surpresa.

A ideia rocambolesca por trás de um roteiro que mistura universo onírico, histórias paralelas, metalinguagem, surrealismo, aonde metade dos personagens são interpretados pela mesma atriz (Laura Dern) é justamente a construção da “não-construção”, de entender que há sim uma construção enquanto estrutura (afinal, o filme foi feito), mas que isto se desprende da construção enquanto entendimento (afinal, cada um percebe o que resolve perceber). A utilização de Laura em diferentes personagens, ora interpretando uma atriz, ora interpretando a atriz da atriz, ora interpretando um terceiro papel, misturado com as histórias paralelas sobre prostitutas, sobre a maldição polonesa do filme alemão, sobre assassinatos, entra em um universo inconcebível de possibilidades aonde o espectador não sabe o que é realidade, sonho, realidade dentro da realidade (no caso, o filme gravado dentro do filme), ou se nada disso se conecta e é apenas um bando de informações soltas. Justamente, fazer uma mesma atriz viver diferentes papéis ajuda de maneira quase sublime na desconstrução do universo linear, deixando as diferenças sobre cada personagem ainda mais sutis.

E esta é a grande mágica de Império dos Sonhos, aonde o seu discurso é o de “crie você mesmo“, invertendo o papel tradicional do cinema que poderíamos definir como emissor -> mensagem -> receptor, vislumbrando uma realidade de discurso em que tudo se torna totalmente dúbio, jogando quase como num aspecto de emissor <-> mensagem <-> receptor, aonde isto abre portas para diferentes universos dentro do próprio universo do filme, da imagem que cada um vê, da cena que cada um percebe, dos detalhes que cada um se prende, criando, ao final, diferentes mensagens para cada um que vê a obra com conexões subjetivas diferentes.

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Criamos, aqui, um novo patamar, evoluindo gradativamente, como foi o salto de Estrada Perdida para Cidade dos Sonhos, agora na mesma grandeza para Império dos Sonhos. O amadurecimento do propósito de Lynch fica claro, na estética de desconstrução do cinema, aonde, mais uma vez, cria-se um clássico surreal e que não agrada todos os gostos, mas ainda assim faz uma legião de fãs e cria um filme espetacularmente único.

Boa noite e até a próxima sessão!

Fontes que contribuíram para o post: google.com, youtube.com

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