Às margens de um crime

Tommy Lee Jones

Este é um daqueles pequenos clássicos subestimados, que acaba passando em branco para a maioria das pessoas, mas deveria ser melhor reconhecido. Às Margens de Um Crime é, na verdade, uma sequência de Prisioneiro do Passado, filme de 1996; não seguindo cronologicamente o primeiro e nem ligando muito para as relações dos personagens em ambas as histórias, Às Margens de Um Crime funciona quase como um filme novo e completamente independente, além de muito superior ao primeiro.

Em Às Margens de Um Crime, seguimos os passos de Dave Robicheaux, um antigo policial e alcoólatra em tratamento, tentando desvendar uma série de mortes envolvendo crimes recentes e alguns outros crimes antigos, de décadas anteriores, que podem estar interligados pelo mesmo serial killer. Passado na cidade de New Iberia, Lousiana, o filme retrata as relações entre os elementos sulistas americanos, assim como o Blues e as religiões baseadas nos cultos africanos, a geografia pantanosa da região, além de elementos como a escravidão e os problemas da pobreza do estado.

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Uma história possivelmente simples, mas que abordada do jeito certo, ganha contornos profundamente poéticos e esteticamente muito belos. Não é um filme de muitas emoções e de apelo à adrenalina, embora todo o contexto policial da trama; são poucos os momentos de grande ação e cenas impactantes pela violência gráfica ou excesso de elementos. O filme se apega muito mais na exploração da relação dos personagens – através de muitos diálogos – assim como dá enfase ao discurso da região; o caráter político de debater a pobreza e o racismo inerente do sul dos EUA é muito presente, expresso em longas conversas nostálgicas sobre como New Iberia é atualmente e como foi no seu passado recente. As falas do filme e o desenvolvimento dos papéis através das longas conversar, justamente reforçam a construção do universo da trama, dando profundidade no conhecimento dos elementos da cidade pela nostalgia expressa na memória de cada um dos cidadãos.

Regido por uma fotografia fantástica e por locações belíssimas, quem gosta da beleza geográfica do sul dos EUA e de sua relação bucólica, assim como suas cidades interioranas e ainda rurais, vai admirar o trabalho feito no filme. O grande ponto alto do projeto é justamente em como o diretor conseguiu mesclar todos os elementos em um filme que parece um constante quadro pintado. Todas as cenas durante a obra são cuidadosamente feitas para garantir a beleza gráfica da fotografia, ressaltando muito bem o discurso dos personagens em imagens impressionantes; ao ver o filme, você realmente parece “estar envolvido” no ambiente urbano e bucólico de New Iberia.

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Com poucos – embora carismáticos – personagens, o filme se constrói muito bem em sua proposta, tentando dar um ar mais subjetivo a uma trama simples policial, não venerando apenas o lado da investigação, mas também mostrando porque cada um dos envolvidos se comporta de determinadas maneiras, assim como toda a situação de pobreza e racismo de New Iberia levam determinadas pessoas a fazer determinadas coisas. Triste e poético, vemos tudo em um olhar esteticamente impecável, quase como se houvesse beleza na pobreza humana, ou ainda em personagens dúbios e com personalidades violentas, como se, no final, tudo que importasse fosse a estética refinada dos atos, a beleza visual de tudo e, não importa quem seja – o policial alcoólatra, o assassino frio, ou os hipócritas mafiosos –  todos são parte de um conjunto de elementos para formar a poesia da obra.

Um ótimo filme que não teve a estima devida, acabou passando em branco para a maioria das pessoas; uma pena, afinal, um ótimo projeto como este, acabar esquecido como foi, é uma injustiça tão poética quanto a discutida na própria obra.

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