The Wire – Série

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E então, finalmente acabei de ver a tão famosa série The Wire (no Brasil, A Escuta). Depois de 5 temporadas e 60 episódios, chegou ao fim, ao menos para mim, uma das séries mais conceituadas de todos os tempos. Criada por David Simon e Ed Burns, The Wire é, para muitos críticos e aficionados, a melhor série de todos os tempos; em varias listas figura como o top 1 e ainda angaria uma média de 9.4 nos reviews do IMDB! Sim, caros leitores, todo elogio a The Wire é perfeitamente cabível. E, com uma recepção tão positiva, acho justo me unir ao coro daqueles que acham a melhor série já feita.

The Wire conta a história de um grupo de policiais destinados para um destacamento especial da Polícia de Baltimore, com o intuito de resolver grandes crimes ligados ao tráfico de drogas. Ao longo das 5 temporadas, as questões referentes à polícia e aos traficantes vão se aprofundando em um debate histórico-social da região, explorando outros setores da cidade, como escolas (crianças), jornais e políticos, potencializando todo o conceito da trama inicial em um universo fictício – mas nem tanto – rico em detalhes e personagens muito carismáticos.

Pode parecer simplista tentar elaborar, ou imaginar, como um roteiro tão batido sobre drogas e traficantes, além da vida policial norte-americana, poderia acabar em uma série tão boa. Afinal, com tantas na mesma categoria, como Law & Order, CSI, Criminal Minds, The Shield, além dos milhões de filmes do gênero, por que o destaque em uma série tão específica? É neste ponto que faz a diferença a história brilhante de David Simon, muito bem elaborada no seu passado com o jornalismo policial e o contato direto com vários setores mostrados na série, apoiada no conhecimento de Ed Burns, ex-policial de Baltimore e professor.

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Quando pensamos em séries, livros ou filmes policiais, a primeira coisa que notadamente referenciamos é uma: a resolução do crime. O foco da grande maioria das obras do tipo. Mesmo que, em alguns casos, ainda se explore o “lado humano” dos seus personagens, com conflitos pessoais e distinções de atitudes, o foco das tramas gira em torno na resolução de algo, de alguma forma. Vemos as relações pessoais dos personagens apenas como um pano de fundo, para compor de maneira secundária a necessidade da investigação; não a toa, grande parte das séries começa com um novo crime em todo episódio, que é resolvido até o final do mesmo episódio. E, desta maneira, há um grande uso dos clichês, na medida em que ideologicamente se constroem os personagens principais (geralmente o investigador e seus aliados) como o foco central do roteiro, aonde tudo vai ocorrer em um mesmo ponto de partida e que de alguma forma chegue em um  final semelhante. E é justamente assim que David Simon e Ed Burns desconstroem o gênero com The Wire.

Embora ainda parta da investigação do crime, isto é a parte pequena do brilhantismo proposto na série, aonde seu grande ponto forte é, ao longo das 5 temporadas, a relação quase que pessoal entre espectador e os seus personagens. The Wire não discute o crime sobre a ótica da investigação, mas sim sobre as pessoas que compõem Baltimore e os cenários da violência do mundo das drogas e das gangues. The Wire foca em como estas pessoas levam a vida, em como o papel de cada personagem evoluirá ao longo da história, para desenrolar nas escolhas que ele tomará. Há uma descentralização na necessidade de focar a história em apenas uma pessoa, ou grupo específico; poderíamos dizer que, talvez, McNulty é o personagem principal da trama. Mas, ainda assim, mesmo como personagem principal, não há nenhum foco exclusivo em sua figura como investigador. Todos os personagens são igualmente apresentados, igualmente participam da história e, igualmente contribuem para o desenvolvimento da trama. Afinal, em um conceito mais exótico, poderíamos dizer que Baltimore (a própria cidade) é o personagem principal, aonde todos os outros estão inclusos e unidos pela mesma convivência urbana.

Esta descentralização de roteiro coloca The Wire em um patamar de liberdade que lhe permite um realismo crítico além das outras series. Quase não há uso de clichês ao longo de cada episódio, aonde um personagem – mesmo carismático e com uma postura boa – pode ser levado pelas atitudes a cometer algum ato completamente contra o que o espectador imagina, ou até mesmo acabar morrendo em virtude de algo, sem brilho e sem enfoque da romantização de uma série. A descentralização de The Wire, justamente, permite a série uma discussão muito mais ampla – e menos piegas – sobre o problema das drogas e do tráfico, da corrupção política, da burocracia do Estado e de seus órgãos, além de como todos os problemas convergem para a mesma realidade. Isto porque, com a descentralização, percebemos que o foco criado por David Simon não se baseia em idealizar uma polícia clichê e mágica que resolve todos os crimes, mas mostrar como cada nicho social se comporta dentro da realidade de uma metrópole conturbada e cheia de problemas.

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The Wire é uma série de pessoas, de personagens convincentes, embora com o foco na trama policial, tentando dar um olhar mais humano/realista para um problema. Não estamos falando de heróis ou justiceiros (mesmo que alguns assim pareçam, como Omar), mas de cidadãos, cada um vivendo a sua realidade e tomando as suas ações que, por muitas vezes, não condizem inclusive com nenhum estereótipo. A fuga do “porto seguro” (no caso, o estereótipo) torna The Wire imprevisível, mas ao mesmo tempo muito crível; podemos até tentar entender ou imaginar o desenrolar de um personagem, mas a quebra constante de situações – pautada na realidade das ruas – acaba tornando tudo ainda mais poético e humano. E é neste humanismo que a série ganha seu destaque. Na sua interpretação dos personagens e fatos, David Simon e Ed Burns conseguiram pautar uma ficção que não parece ficção, porque mesmo o personagem mais exagerado, ainda assim, é completamente convincente no universo da metrópole criada.

A grande percepção de The Wire, fugindo da luta do bem contra o mal, é mostrar que mesmo nas instituições supostamente sérias há muito mais “maus” do que se imagina, assim como mostrar que, nem sempre, o lado marginal da cidade é “mau” por ser, mas sempre baseado em algum porquê, discutido socialmente no aprofundamento de cada temporada, aonde cada vez mais nos afastamos da dualidade polícia – ladrão e percebemos que qualquer crime, por mais simples que seja, gira por uma atmosfera de problemas rica em diferentes pontos e diferentes esferas da sociedade. É a possibilidade de ver que, bem como dito, a realidade das ruas é diferente do que imaginamos, principalmente vista em uma série de TV, aonde quase sempre a história acaba tomando um rumo previsível, para fácil aceitação do espectador no geral.

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A grande sacada de Wire e, por isto, todo o glamour da série, está em perceber o mundo como mundo. Talvez por isto tantas pessoas e críticos a defendam tanto. Porque The Wire acabou “falando” com o público de sua época. Não criou super-policiais nem super-vilões, porque não há super-heróis nos problemas das metrópoles; não tentou dar grandiosidade a nenhum dos atos de seus personagens, porque as pessoas fazem as coisas por fazer, sem brilho ou poder em suas atitudes. No final e afinal, personagens de The Wire, como nós, são apenas humanos.

Boa noite e até a Próxima Sessão!

Fontes que contribuíram para o post: google.com, imdb.com

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5 comentários sobre “The Wire – Série

  1. Terminei de assistir hoje a série… Concordo com tudo que você disse, de fato não existe um sujeito protagonista, ao contrario, o único protagonista é a cidade de Baltimore. Ja assisti e estou assistindo – Game of Thrones, Boardwalk Empire (que tem como um dos personagens principais Michael K. Williams (nosso querido Omar)), The Walking Dead, Ray Donavan, True Detective, House of Cards, Familia Soprano, Prison Break entre outros… Posso lhe afirmar que nenhuma se compara a The Wire justamente pela ficção que tem um ar absoluto de realidade.

    Parabens pelo blog e por comentar sobre a série.

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