Haneke e Funny Games

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Haneke é um diretor conhecido, conceituado e o grande idealizador da obra Funny Games. Um filme que, embora sua estrutura relativamente simples, apresenta uma das reviravoltas mais sensacionais da história do cinema, aonde um personagem do filme passa a discutir e “dirigir” a película, escolhendo os acontecimentos da história; isto para, entre outras coisas, entrar em uma discussão sobre a existência de algo (objeto) entre o plano real X imaginário, se há diferenças ou se a existência per se já é suficiente para igualar os planos.

Mas, não só isto, outro grande detalhe do filme é o fato de que Haneke fez duas versões EXATAMENTE iguais da obra, uma com atores alemães (1997) e a outra com atores americanos (2007), justamente pelo fato do público americano não gostar de ver filmes com legendas. E, sim, quando falo que as obras são iguais é isto mesmo: 100% idênticas. Planos, enquadramentos, roteiro, diálogos, roupas, até o cenário interno da casa, tudo igual. No entanto, há “pequenas” mudanças que tornam cada filme peculiar por si só e, justamente sobre isto, gostaria de discutir neste post. São alguns detalhes que geralmente passam em branco ou despercebidos, mas que eu achei essencial para a funcionalidade do filme. Vamos lá!

[Atenção: por conta disto, há alguns spoilers sobre os filmes; se você não viu e quer ler mesmo assim, tudo bem.]

1 – O cenário externo da casa e o lado “social” das famílias:

É engraçado como isto repercutiu para mim na diferença das famílias. No filme alemão (1997), a família sequestrada parece muito mais rica do que a família americana. A família do filme alemão parece realmente a aristocracia europeia, a elite de pessoas com muito dinheiro e títulos sociais, gerações e gerações de antepassados ricos. Já a família americana (2007) me pareceu muito mais “proletária”, uma família de classe média que ascendeu pelo próprio trabalho e possuí uma condição financeira muito menor. Isto fica evidente em alguns elementos, principalmente, como a comparação dos barcos, aonde a família americana possuí um barco muito mais “humilde” do que o da família alemã; ou o próprio jardim das casas, aonde o jardim da família alemã me parece muito mais elegante e fino, enquanto o da família americana é apenas um jardim comum, pouco cuidado e sem nenhum requinte.

Talvez tenha sido a intenção de Haneke tentar retratar cada sociedade com um aspecto mais verossímil, na medida em que a aristocracia europeia não teria nenhum sentido de existência em um filme americano e, justamente por isto, as mudanças do contexto social par adequar as realidades aonde o filme foi gravado.

2 – Cachorros diferentes:

Pode parecer bobo, mas isto também me chamou atenção. Na versão alemã, o cachorro da família é apresentado por um Pastor Alemão, raça criada e muito popular na Alemanha (motivo óbvio do nome). Já na versão americana, vemos um cachorro que me pareceu ser um Golden Retriever, ou algo do gênero. Raça, esta, muito comum na recriação das famosas “famílias de margarina”, originárias do estereótipo de família feliz do american way of life, onde ficaria, talvez, o retrato que Haneke quis construir da família americana.

3 – A substituição dos vilões:

Esta foi a principal mudança que eu percebi. A atuação na versão alemã, com Arno Frisch no papel principal, possuí um caráter muito mais odioso e psicopata para os invasores da casa. A atuação de Arno acaba “roubando a cena” de todo filme, aonde ele é o destaque pela sua presença de espírito, criando um assassino cínico, mau, estranho e perturbador. Michael Pitt, fazendo o mesmo personagem na versão americana, constrói um papel muito mais “genérico” – na falta de expressão melhor – aonde o assassino acaba não desenvolvendo um atuação perturbadora ou mesmo cínica, mas apenas fria e metódica.

Como é necessário que o espectador crie um contato intimista com a obra, justamente para se colocar a questão da discussão entre real x imaginário, a falta de Arno na versão americana acaba pesando negativamente para o filme. Isto porque é muito mais difícil para o espectador desenvolver qualquer tipo de relação (mesmo que negativa) com os sequestradores, o que não ajuda a desenvolver a questão filosófica sobre a violência na ficção.

4 – Restrições a nudez e preservação dos personagens:

A sociedade americana é uma sociedade muito paranoica nestas questões que envolvem o corpo e como ele é percebido pelo espectador. Outro detalhe que pode parecer “bobo”, mas me chamou atenção, foi a preservação dos personagens feita no filme americano. Isto fica claro, principalmente, em 2 pontos. 1 – Quando a mãe está se trocando para buscar ajuda, na versão alemã, a personagem se troca e mostra os seios; já na versão americana, embora o mesmo tipo de roupa seja usado pelas personagens, no mesmo ângulo, ainda assim, se “evita” que a personagem mostre os seios. Talvez para não criar algum mal-estar com o público, Haneke tenha adotado uma postura mais conservadora, embora a versão americana seja mais atual. 2 – No entanto, o que mais me chamou a atenção foi na perseguição de George Filho, quando ele vai parar na casa dos vizinhos; na versão alemã, ao trocar a roupa molhada, o garoto corre pela casa só de cueca e camisa. Já na versão americana, ao trocar de roupa, o garoto corre pela casa de short e camisa. Esta “pequena” mudança também pode ser vista como uma restrição, para Haneke não criar um mal-estar com o público americano, dando a entender que uma criança correndo de cueca e sendo perseguida por um psicopata adulto poderia ser, entre outras coisas, uma alusão a pedofilia. Talvez seja algo que só eu notei, mas em ambos os casos me chamou muita atenção.

5 – Pai e mãe, ambos diferentes:

Outro ponto que reparei muita mudança foram nos personagens dos pais. Na versão alemã, achei a atuação do pai meio “forçada”, principalmente nas cenas que envolviam dor física, onde não convenciam que ele estivesse de fato sofrendo; assim como achei a atuação da mãe muito mais “forte”, uma mulher de feições firmes e de opinião exata, já desconfiada dos sequestradores desde a primeira cena, acabam dando um ar de veracidade à situação muito maior na versão alemã. Já na versão americana, o pai me parece um personagem muito mais convincente quanto a dor os seus machucados, efetivamente parecendo estar ferido em diferentes cenas; embora a mãe me pareça mais “sensível”, aberta a negociações e a tentar entender os assassinos antes de tomar qualquer atitude precipitada, o que acaba dando um ar mais suave a obra e, justamente, comprometendo sua crueldade.

E foi isto, pessoal. Notaram algum outro detalhe na diferença dos dois filmes? Se sim, podem enviar! Haneke nos abre muitas discussões com Funny Games e é muito bacana podemos ver as impressões de diferentes espectadores sobre o mesmo filme!

Boa noite e até a próxima sessão!

Fontes que contribuíram para o post: imdb.com, google.com

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