Repulsion, de Polanski

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Polanski é um grande diretor. Embora as polêmicas pessoais envolvendo processos com menores de idade e o drama de sua esposa assassinada (a famosa Sharon Tate, no conhecido caso de Charles Manson e seus seguidores), ainda assim, o diretor se sobressai e consegue ser mais importante pelos seus filmes do que pelos fatos da sua vida fora do cinema. É o responsável pela aclamada trilogia do apartamento, onde gravou 3 filmes distintos com uma temática envolvendo o terror e suspense de personagens reclusos em suas próprias casas, enlouquecendo aos poucos. Dentre os três filmes, o de maior destaque é o famosíssimo O bebê de Rosemary, elogiado pela crítica e considerado um dos melhores filmes de terror até hoje. Mas, não só ele, há também o igualmente fantástico O inquilino e, por último, o filme que falaremos hoje, aqui: Repulsion (ou, na horrenda tradução nacional, Repulsa ao Sexo).

Repulsion retrata a história de Carol, uma jovem que ficará cuidando do apartamento de sua irmã, sozinha, enquanto a mesma viaja de férias. No entanto, Carol possui alguns complexos não resolvidos que acabam se intensificando pela sua solidão e seus medos, criando um bizarro universo em volta do próprio apartamento que acaba se tornando quase como uma maldição para a própria personagem. Interpretada por Catherine Deneuve, Carol ocupa praticamente toda trama, aparecendo em cena por mais da metade do filme sozinha. Todo gravado em preto e branco e com uma trilha sonora semelhante a uma Bossa Nova moderna, Repulsion é talvez o filme mais singular da trilogia, embora possua várias semelhanças com seus “irmãos”.

Repulsion combina uma “estranheza” complexa, com alguns elementos de terror – como monstros e insanidade – mas que ao mesmo tempo se completa com a beleza estilística da proposta visual inerente na própria obra. Polanski quer, aqui, aprofundar todos os medos e delírios de Carol, colocando-a em um mundo estranho que, ora parece sua própria criação, ora parece fruto de uma série de traumas passados mas, para o espectador, nunca fica claro os limites entre um mundo e outro. A beleza da obra, origem do próprio trabalho de fotografia, assim como sua atriz principal (Deneuve), acabam por contrastar muito bem com o aprofundamento da loucura no próprio universo da personagem, cada vez mais psicótico e longe de sua realidade elegante e delicada. Carol começa a obra como a “boa mocinha”, trabalhando em um salão de beleza para ricas mulheres, além de ser a irmã inocente e sensata, mas evolui ao longo do filme para um personagem explosivo e problemático, com uma série de surtos e situações pouco convencionais, mostrando instabilidade e uma estranha força psicótica, totalmente diferente de sua primeira imagem de boa garota.

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O grande trabalho em Repulsion, como toda trilogia do apartamento, fica a cargo do processo minucioso de seu diretor. Polanski cria um mundo próprio para o seu personagem, solitariamente poético mas incrivelmente simples. A história toda se desdobra em uma série de pequenas situações e efeitos que, pelo roteiro bem amarrado e sua fluidez de cenas, acaba ganhando um volume de emoções muito superior ao esperado, em uma visão superficial. No começo da obra, com a apresentação de sua personagem principal, Carol, o espectador é levado a perceber a simplicidade de sua índole, retratado tanto na história como no próprio desenvolvimento de situações – como seu emprego humilde; criando, assim, a dualidade necessária para a grandiosidade acumuladora ao longo das cenas do filme. O desenvolvimento e aprofundamento do roteiro, conforme a “inocente” Carol vai mudando, nos faz ser levados a confrontar nossa própria realidade e o que vimos enquanto espectador, percebendo em nós mesmos os próprios conflitos internos do personagem. Conforme percebemos a deterioração de Carol, magistralmente criada por Polanski, nos colocamos em disputa com o próprio universo que imaginamos em nossa percepção, na medida em que não conseguimos vislumbrar mais a fronteira entre o que era real e o que passa a ser imaginário, justamente passando a questionar a própria lógica do filme e do que acreditávamos dos seus personagens.

E isto, talvez não pareça, acaba sendo a grande mágica da trama simples de Polanski: a insanidade do personagem não é apenas de Carol, mas também do espectador, que fica preso à obra (assim como Carol fica presa ao apartamento) e passa a perceber a película quase como se estivesse no lugar do próprio personagem. Este fator é crucial para a dinâmica do filme, entendendo justamente o conceito da “trilogia” e, consequentemente, de Repulsion. A ideia de Polanski, justamente, era enfatizar o sentimento de solidão aliado a claustrofobia do apartamento, do confinamento e do espaço limitado em poucas ambientações nos mesmos locais, repetidos e mostrados cada vez mais sufocantes pela situação e loucura. Passamos a compreender o personagem Carol com outro olhar, vislumbrando que seus medos e aflições, reais ou imaginários, fazem parte de uma situação em que o próprio espectador também é vítima, afinal acaba, também, sufocado e apavorado pelo desenrolar da trama. Enfim, entendemos a grandeza na abstinência da própria grandiosidade, percebendo nos pequenos detalhes, na falta de grandes situações, grandes elencos, grandes espaços, para, ainda assim, perceber que o medo real pode ser qualquer um, qualquer coisa, em qualquer lugar. Inclusive em um apartamento.

Boa noite e até a próxima sessão!

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