Trilogia Pusher, de Refn

Refn é um diretor novo, mas nós já havíamos comentado sobre ele aqui (no post do Bronson); ele vem conquistando cada vez mais fãs e construindo uma carreira muito interessante. Recentemente com o seu aclamado trabalho Drive, entrou no cenário mainstream e foi comparado aos grandes nomes do cinema. Mas não é de hoje que estas comparações pululam com o nome de Refn. Se Drive foi citado como “o novo Taxi Driver“, Bronson já havia sido citado como “O Laranja Mecânica do novo século” e, antes dos dois, sua trilogia Pusher já recebia as honras de “The Sopranos europeu“. E é justamente sobre ela que falaremos hoje, aqui.

Pusher é uma trilogia que não é bem trilogia, mas funciona muito bem de qualquer forma. Digo isto porque Pusher trata de 3 filmes independentes, com histórias com pouquíssima ligação, apenas com um único elo: todas se passam na Dinamarca (terra natal de Refn) e o personagem da próxima história sempre faz uma ponta no filme anterior. Deu pra captar? Se não, vou tentar desenhar para ficar melhor:

Agora ficou fácil, né? Entendendo este esquema, você consegue sacar porque eu disse que Pusher “é uma trilogia que não é trilogia“. Porque, basicamente, o filme funciona tão bem solto como junto; ou seja, não há nenhuma obrigação em assistir em uma ordem certa, ou assistir os 3 para compreender a história como um todo, justamente porque cada obra funciona separadamente, com histórias completamente paralelas e totalmente independentes, com início, meio e fim cada uma. No entanto, o mesmo tema é abordado em todos os 3 filmes: o submundo do tráfico de drogas na Dinamarca, sendo todos os personagens figuras ligadas a ele. Traficantes, viciados, suas famílias, enfim, todo mundo que de alguma forma usa ou usufrui do dinheiro gerado pelo tráfico dinamarquês. E, desta maneira, mesmo não tendo ligações entre as obras, é muito bacana ver os 3 filmes, principalmente para poder captar as diferentes visões de diferentes personagens inseridos em um mesmo universo característico.

Logo de cara você já entende porque toda aclamação. O primeiro Pusher, gravado ainda nos anos 90, é uma mistura de realismo com ficção fantástica. O realismo do projeto fica a cargo do próprio mundo das drogas, perfeitamente retratado e recriado com uma exatidão sublime por Refn e sua equipe, justamente desconstruindo um dos países mais ricos e bem sucedidos da Europa, a Dinamarca, consolidando uma realidade inerente de qualquer grande nação: o problema do tráfico e como ele atinge uma grossa camada da sociedade, que passa a agir cometendo grandes ou pequenos delitos para sobreviver aos seus vícios, suas dívidas e seus próprios problemas; a reconstituição de um cenário complexo como o tráfico, ainda mais numa rica metrópole, cria um cenário muito crível e vívido para o filme de Refn, realmente parecendo que os personagens são íntimos da vida de crimes. Mas, ao mesmo tempo, temos uma boa dose de ficção, que fica a cargo de uma história rocambolesca mas ao mesmo tempo genial, misturando um pequeno toque de humor pelo exagero, com uma bom número de cenas de ação, característicos da intensidade sobre o tema e comuns em referências de outros diretores do cinema pop – como Tarantino – que aumenta mais ainda a megalomania da situação e deixa tudo mais absurdo e ao mesmo tempo plausível. Pusher I, embora sendo o mais fraco e monetariamente limitado da trilogia, ainda assim, abriu portas para toda a série.

Já em Pusher II, gravado nos anos 2000, temos o mais subjetivo e dramático de todos os filmes. Mostrando as relações conturbadas do personagem principal com seu pai, o filme aborda através do submundo das drogas um tema completamente diferente, focando muito mais nos problemas familiares e, também, como o personagem reage a diferentes aspectos para tentar provar o seu valor para si próprio; temos em Pusher II uma mistura de ação mas, ao mesmo tempo, muita carga subjetiva, visivelmente focando nas relações psicológicas desgastadas pelo personagem constantemente subestimado e rejeitado, tanto pelos seus parentes como por conhecidos, amigos e etc. Da mesma forma que seu antecessor, o roteiro se aprofunda numa bola de neve intensa e completamente insana, no entanto, ao invés de expor um cenário de ação e um filme muito “veloz”, temos em Pusher II uma discussão mais pessoal, claustrofóbica, inclusive demonstrando o interesse do personagem em visivelmente abandonar o universo das drogas, onde está inserido por, muitas vezes, uma força maior das próprias relações familiares.

O terceiro filme, e na minha opinião o melhor da trilogia, acaba sendo uma mistura do primeiro com o segundo. Pusher III remete aos problemas externos do tráfico, em uma cadeia de ações e reações completamente malucas que vão aumentando conforme o personagem se envolve mais com seus problemas, mas também aborda o lado subjetivo, o personagem e seus vícios e como eles acabam se relacionando com todo o aspecto do problema, como cada passo dentro do próprio submundo é mais um passo para tornar sua vida ainda pior. A mistura de elementos intensos e de um cenário catastrófico, aliado a indecisão do personagem em ser ou não ser aquilo que os outros acreditam que ele é, mesclam um grande filme de ação mas que ao mesmo tempo discute todos os problemas sobre drogas, vícios e discussões familiares. Afinal, não conseguimos definir se o personagem é levado ao mundo por vontade própria, ou se tenta escapar daquelas situações mas acaba sendo dragado para “sobreviver” e sustentar sua família.

No final, Pusher possui um efeito interessante. É um daqueles casos raros de trilogia que melhora a cada filme. O terceiro é melhor que o segundo, que é melhor que o primeiro. Um filme de baixo custo e de resultado incrível, Pusher foi o primeiro grande sucesso de Refn – já no início de sua carreira – mostrando que o diretor possuí um grande potencial no cinema. Sua simplicidade técnica ao gravar converte muito bem com a realidade conturbada do filme, parecendo em algumas vezes uma filmagem amadora mas, ao mesmo tempo, sendo completamente estético e belo em outros momentos, mostrando os conhecimentos técnicos do diretor em desenvolver o filme e um ótimo roteiro. Acompanhado de uma trilha minimalista mas muito eficiente, a intensidade dos grandes momentos se reforça com uma boa música que dá ainda mais emoção as cenas, como nos próprios créditos iniciais de toda a trilogia:

No final, temos uma ficção realista e muito bem amarrada. Com histórias simples mas universos ricos em bons personagens, ótimas atuações e ótimos enredos, Pusher consegue quebrar barreiras e, mesmo com uma língua onde não estamos acostumados a ver filmes. Nos sentimos “amarrados” à obra e buscamos, enquanto espectador, ver o filme do início ao fim totalmente concentrados, para sabermos como cada um dos personagens vai lidar com os seus problemas e conseguir – ou não – sobreviver ao emaranhado de problemas que se meteram.


Boa Tarde e até a Próxima Sessão!

Fontes que contribuiram para este post: google.com, imdb.com, youtube.com

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