As aventuras de Pi

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Eu confesso que acabei vendo meio que por obrigação. Sinceramente, foi um filme que a história não havia me chamado a menor atenção. No entanto, foi uma ótima surpresa. O diretor Ang Lee soube administrar com maestria toda a proposta do projeto de levar um livro tão especial ao cinema; a sugestão de direção da obra já havia sido estudada por Jenuet, M. Night Shyamalan, mas ninguém tinha aceitado dar continuidade e efetivamente gravar o filme.

As aventuras de Pi é extremamente peculiar; sua história completamente suis-generis deu uma liberdade estranhamente benéfica ao diretor, que conseguiu gravar boa parte do filme no mesmo espaço – um estúdio em chroma key. A técnica do chroma key é extremamente controversa, muito disso por elaborar uma obra totalmente feita de maneira digital (ou seja, no computador) e, isto, sendo motivo de debates para alguns críticos e cineastas. Afinal, um filme feito no computador é um filme de fato ou uma grande animação elaborada? Difícil dizer. Indiferente a este tipo debate, As aventuras de Pi funciona muito bem com a técnica, embora abuse dos efeitos claramente digitais.

O filme conta a história de um garoto indiano que, durante sua vida, acabou passando pelas situações mais bizarras possíveis. Morou junto a um zoológico, ganhou o nome em homenagem a uma piscina pública francesa e, por último, foi o único sobrevivente de um naufrágio. Naufrágio, este, que matou toda sua família, deixando-o no mar, apenas com um dos animais do antigo zoológico: um tigre com nome de gente, chamado Richard Parker. E é justamente nisto que a história se desenvolve. O garoto conhecido como Pi (apelido para Piscine Molitor Patel, o nome de uma piscina francesa) e sua aventura ao sobreviver por muitas semanas em um bote a deriva, tentando não virar comida do próprio tigre.

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Ok, sabemos que a história do filme é oriunda de um livro e, por consequência disto, Ang Lee não é exatamente o criador de toda a trama. No entanto, há de se reconhecer os méritos consideráveis do diretor. Ao longo dos 127 minutos de filme e do muito tempo que se passa no barco, em nenhum momento sentimos o cansaço do enredo, que basicamente se passa em apenas um cenário. É comum você pensar, principalmente em filmes com cenários limitados, como o diretor não tornará tudo tão repetitivo. E é neste porto que o diretor soube introduzir muito bem a técnica do chroma key, funcionando como uma importante aliada de Ang Lee e dando uma considerável liberdade criativa. Muito da dinâmica ótima do filme se dá pela sua beleza estética, oriunda em grande parte da “falsidade” da própria produção do filme; somos capazes de perceber os efeitos digitais em algumas cenas, além disso, podemos em muitas outras observar o exagero estético do universo ficcional das animações de computador, com muito brilho e cores vivas. No entanto, a “falsidade” estética não atua contra o filme e, muito pelo contrário, transforma o limitado cenário do barco em um imenso universo cheio de vida e de propostas, com muitos detalhes e possibilidades de animais e cores exuberantes. A “falsidade” do chroma key funciona quase como um gancho, afinal, ao longo da trama, estamos ouvindo a história do personagem Pi, contando sua história já mais velho, introduzindo os fatos de quando era mais novo. Neste misto de conto, misturando realidade e ficção, o exagero gráfico é crucial para criar um aspecto de “sonho vívido”, ou algo do tipo, onde visivelmente se percebe o (suposto) exagero de Pi em contar a sua própria história, romantizando as partes que acha importante para dar emoção ao caso.

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O personagem Pi, por sinal, é vivido por dois atores: um quando é novo, outro quando é velho. Quando velho, as cenas são tão curtas e espaçadas que apenas servem de apoio para o enredo; assim como o ator (Irffan Khan) que o interpreta, ficando quase como um locutor contando sua história. A majestosa atuação fica por conta de Pi quando jovem, no brilhante papel de Suraj Sharma. O rapaz é a grande atração do filme, vivenciando com muito empenho um papel simples e mas profundo. No começo, Pi é o jovem tímido e franzino mas, ao longo da trama, evolui rapidamente para um rapaz cheio de coragem e com muita força interior, além de uma sagacidade incrível para lidar com as adversidades mais absurdas. E, neste contraste de identidades, o ator Suraj Sharma expressa com muita beleza a evolução de comportamento do personagem Pi. Compartilhamos de todas as angústias do personagem que, por si só, é parte crucial na história, junto com o famoso tigre de nome Richard Parker. Tigre, este que, por sua vez, por incrível que pareça, foi quase que totalmente criado por animação em computador e, mesmo assim, dá um significado único ao filme. Não só por ser parte importante no desenvolver da história, Richard Parker – o tigre com nome de gente – ultrapassa o universo da “animação” e, além disso, passa a ser incrivelmente realista. O cuidado da equipe com as expressões e movimentos para dar um sentimento de importância e presença ao animal, criou um ótimo personagem que condiz perfeitamente com o projeto. Quando vemos o filme, Pi e Richard Parker, humano e animação, não parecem de universos diferentes mas, sim, que ambos realmente dividiram o mesmo bote para a gravação e que de fato tudo que vemos na tela aconteceu.

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Isto é importante, entre outras coisas, justamente para embasar a história do filme. A relação de pessoalidade que a história tenta criar, com o laço de respeito e amizade entre Pi e Richard Parker, fica muito evidente na ótima atuação, tanto do personagem humano quanto do personagem “não-humano”. Se a base do filme é a expressão do relacionamento entre as duas figuras principais, a obra só ganhou toda aclamação justamente porque ambos os personagens estavam impecavelmente críveis no filme, realmente fazendo o espectador crer que as aventuras vividas por Pi, de fato, como ele mesmo conta, não foram ficção. A mensagem da situação absurda e de que o respeito e sobrevivência podem surgir das condições mais abjetas fica expressa do início ao fim, desde o primeiro contato entre Pi e Richard Parker, até sua última aparição juntos, em um momento de reflexão e ao mesmo tempo liberdade.

O ponto baixo do filme, na minha percepção, é a necessidade de tentar expandir o significado da história para algo quase teológico, em uma mistura de debates entre relações humanas e suas comparações com Deus. Não estou querendo defender o ateísmo, nem nada do tipo, mas acho que a visão religiosa do filme acaba ficando desconexa com todo o resto, funcionando como um gancho meio sem pé nem cabeça entre Pi jovem e Pi velho, dando uma suposta razão para sua existência de maneira completamente desnecessária. No entanto, nada que afete crucialmente o filme, ainda assim, As aventuras de Pi é uma gratíssima surpresa e uma ótima obra, além de ter uma belíssima fotografia; todos os méritos para as premiações que recebeu, pois realmente foram merecidas. Vale a pena ver o filme e curtir a história do garoto de nome engraçado e do seu tigre com nome de gente.

Boa tarde e até a próxima sessão!

Fontes que contribuiram para o post: imdb.com, wikipedia.com, youtube.com

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