Submarino

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Submarino é um daqueles filmes simples e densos, que obtém um ótimo resultado por uma audácia quase minimalista. Simples porque não apresenta relativamente nada de novo, tanto em técnica quanto em narrativa. Denso porque, mesmo com sua simplicidade, nos mostra um mundo novo de situações abjetas ao qual não estamos acostumados a pensar e/ou discutir no cotidiano. O filme conta a história de dois irmãos, vivendo na Dinamarca (ou Suécia, não é perfeitamente identificável), que crescem em meio a uma família conturbada e com problema de drogas. Não muito diferente da história de seus pais, os dois irmãos crescem e passam a viver vidas conturbadas também; um preso por pequenos roubos e o outro viciado em heroína. E, neste universo de problemas familiares, o filme conta a história dos dois, que não se falam há anos, tentando reencontrar um rumo decente às suas vidas.

Como eu disse, um projeto simples. Muito simples. O diretor Thomas Vinterberg, o mesmo de aclamados (mas subestimados no Brasil) filmes como Festen e Hunt, mais uma vez, acerta no ponto. Novamente, explorando a profundidade de relações dos personagens, a grande sacada do diretor é, justamente, investir em histórias fortes e dramas complexos, com problemas profundos e situações de muita ambiguidade, tentando nos fazer compreender um universo completamente controverso, dando um novo olhar a uma camada social que não estamos acostumados sequer a lembrar.

Quando vemos a proposta de Submarino, logo de cara, já temos o primeiro “choque”: o filme mostra um universo muito vívido e realista sobre famílias pobres e viciadas de uma das regiões mais ricas do mundo – a Dinamarca (ou Suécia). A ideia do diretor, já pela escolha da localidade é, através de um mundo contraditório, apresentar um problema frequentemente esquecido pela imagem positiva dos países ricos da Europa, mostrando o “lado sujo” do mundo das drogas e das famílias pobres, aplacadas pelos mesmos problemas que qualquer outro lugar do planeta. Nesta realidade, aprofundamos a dualidade dos irmãos, ambos inseridos neste contexto e tentando escapar, em meio aos problemas dos seus vícios e do passado, de sensações como depressão e solidão que, mesmo em sociedades ricas e estruturadas, podem estar presentes a vários indivíduos, como a família retratada no filme.

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As relações conturbadas e mundos desgraçados, contrapondo uma sociedade teoricamente saudável, são a “fagulha” necessária para transformar um filme simples em um grande projeto. Não se precisa de nenhuma peripécia tecnológica, efeitos ou reviravoltas na trama; absolutamente nada. A graça do projeto esta mesmo em sua simplicidade extrema, em mostrar de maneira “cru” dois personagens tentando progredir mas se afundando cada vez mais por velhos vícios, velhos problemas que, de um jeito ou de outro, são recorrentes para ambos os casos. O mundo “cíclico” de pessoas que tentam negar o que são, mas não conseguem, é a angustia necessária para explorar a trama e dar ao espectador um filme que prende do início ao fim. Você vê a obra já esperando todos os acontecimentos mas, mesmo assim, se identifica pelos irmãos (interpretados por Peter Plaugborg e Jakob Cedergren), torcendo para que as coisas mudem e, de alguma forma, consigam superar os problemas do passado para que consigam dar rumo as suas vidas.

Cada qual em sua realidade, os irmãos Martins Far e Nick (ambos muito bem interpretados), nos arrastam com muita propriedade a um universo sombrio e complicado. O vício, assim como a solidão e as tentativas de ganhar dinheiro, levam-nos a repetir os problemas que eles tanto reprimiam em sua mãe, uma alcoólatra depressiva. As atuações de ambos os atores nos colocam a realmente perceber a senda de uma família pobre e desestruturada, fadada a ficar condicionada a mesma realidade ciclicamente. Tanto Martins Far, viciado em heroína, constantemente enfrentando dificuldades financeiras para educar seu filho, assim como Nick, violento e instável, vivendo em um mundo de pequenos delitos para sobreviver, se completam pela dura inserção em uma fria metrópole que, como qualquer outra, não se importa com o sentimento de seus indivíduos que não sejam adequados o suficiente para sobreviver nela. A dura noção do filme é uma prática comum, muito bem exemplificada pelo diretor e seus dois principais atores, onde a proposta é, antes de tudo, levantar uma questão principal: em qualquer lugar do mundo, nós ligamos para estas pessoas e suas dificuldades em sobreviver ao mundo?

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A tratativa de trazer este universo frio e desolador, envolvendo a riqueza de uma nação estruturada, em contraste com figuras alheias a isto é, para Thomas (diretor), um trabalho de mestre. Vislumbrar a profundidade da trama, colocando-a em eterno confronto, ora da metrópole, ora dos irmãos, ora do seu passado, é a grandeza suprema do filme. Ao mesmo tempo pesado pelo seu discurso, porém fluindo com muita naturalidade, somos sugados por uma beleza poética de erros e conflitos que, mesmo com toda crueldade dos fatos, ainda assim, possuí um certo ar de graça, de uma visão quase niilista em perceber as coisas como são, entendendo que não há muito a ser feito para mudar, aceitando a ordem dos fatos e saber lidar com eles de uma maneira positiva. Um grande filme, uma grande obra. Vale a pena ser visto!

Boa tarde e até a próxima sessão!

Fontes que contribuiram para este post: imdb.com, youtube.com, wikipedia.org

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