Elefante

Um filme polêmico em todos os sentidos, hoje vamos falar sobre o ótimo e bizarro Elefante; projeto bem antigo do conceituado diretor Gus Van Sant, conhecido por filmes como Paranoid Park, Milk, entre outros também aclamados e cheios de discussões, o diretor segue a risca uma carteirinha de experimentações pouco usuais mas que, geralmente, nos trazem resultados fantásticos em suas obras. E, exemplo mais do que perfeito é o filme de hoje:

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Mas, antes de falar propriamente sobre Elefante, devemos lembrar um pouco sobre o próprio diretor que, por muitas vezes, dirige seus filmes de uma maneira muito peculiar. Isto porque, antes de tudo, Gus Van Sant é um daqueles diretores experimentalistas, que gosta de aplicar novas formas de dirigir, enquadrar, desenvolver personagens e roteiros, enfim, um cara que transforma pequenos detalhes em “grandes situações” dado o alto grau de excentricidade; formado em Rhode Island School of Design – conhecida escola de artes experimentais – já participou de projetos que você nem deve saber. Gus Van Sant, por exemplo, dirigiu clipes! Isto mesmo! E, dentre eles, constam clipes famosos como Under the Bridge, do Red Hot e Weird, dos Hansons. E, justo por sua formação e suas experiências, Gus Van Sant, as vezes, opta por trabalhos não tão convencionais como se imagina. Como o caso de Paranoid Park, um filme com uma montagem não-linear e segmento de história um tanto quanto diferente – ainda que o assunto seja relativamente simples (dois jovens andando de skate, envolvidos em um possível assassinato). Assim como também nos seus clipes e, também, em Elefante, o diretor pretende trazer algum de novo sempre; mesmo que o assunto propriamente não seja uma novidade.

O filme aborda uma história fictícia – mas baseada em fatos reais – sobre um suposto grupo de jovens, que entra numa escola americana para assassinar todo mundo. Claramente uma alusão ao Massacre de Columbine, inclusive com referências a nomes, cenografia, o filme bebe na fonte dos clássicos “baseados em fatos reais”, mas não é bem real assim; e, justamente por isto que, claro, eu o citei como ficção. Ficção porque, mesmo com toda sua dinâmica dentre o Massacre de Columbine, ainda assim, o filme desenvolve relações de personagens com pouca verossimilhança entre o que se ocorreu durante os acontecimentos, explorando o fato de romantizar (no sentido de criar uma história) a vida de cada um dos envolvidos, com uma visão até “caricata” daqueles que estiveram no massacre; isto porque claramente exagera nos esteriótipos, tanto pelos discursos como por questões visuais, na tentativa de criar um “universo próprio” de informações sobre o que aconteceu ao longo do massacre em si. E, nesta dinâmica, o projeto sai de sua aura de tentar ser apenas realista  e, justamente, ganha um caráter um tanto quanto pessoal, mas ao mesmo tempo surreal e misturando, também, muito realismo. Controverso, mas é exatamente isto!

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Dentre os experimentalismos de Gus Van Sant, a ideia do projeto salta da simplicidade de um documentário, ou algum filme que apenas faz a transposição de história ou fato marcante, e passa a ser um ousado projeto de grande valor tanto estético como sentimental. Isto porque o mote de toda obra é, antes de tudo, um infindável jogo de planos-sequência envolvendo cada uma das principais figuras do Massacre de Columbine, abordando  uma visão cinematográfica diferente por trás dos envolvidos na tragédia, sejam os mortos, assassinos e/ou outros. Além disto, a montagem de todo filme é feita sem nenhuma ordem sequencial dos fatos, ou seja, sem seguir cronológicamente os acontecimentos. Desta forma, “desconstruindo” o caso, a história e os acontecimentos, Gus Van Sant perde a responsabilidade de se apegar aos fatos como eles realmente aconteceram e pode, através disto, explorar um lado um tanto quanto “inovador” para um caso que foi divulgado a exaustão; isto porque, com a dinâmica de liberdade através de uma visão quase pessoal, vendo todos os personagens – mesmo os assassinos – como jovens com histórias interrompidas, realidades diferentes e projetos de vida completamente contrastantes, acabamos por nos fazer observar não só a óptica do crime e da violência em si, mas o porquê de jovens expostos a determinados ambientes e/ou realidades extremas acabarem sendo influenciados para atitudes que nem eles mesmos são capazes de, talvez, prever o desfecho. E, grande parte do mérito disto está, sim, na montagem de Gus, optando pelos grandes planos-sequência, desenvolvendo dentro de poucos elementos todo o universo jovem que cercava diferentes ações e diferentes grupos, apelando pela simplicidade extrema e o valor dos diálogos para dar “força” ao seu filme.

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Não só isto, Gus Van Sant não tenta “moralizar” o acontecimento, sem mostrar os assassinos como “grande vilões”, assim como não tenta criar “grandes heróis” entre os mortos. A frieza do diretor em colocar uma história tão polêmica na mesa, com um ar de tanta imparcialidade, demonstra um caráter inovador ao caso, mesmo que no campo da ficção, trazendo uma nova visão sobre tudo. Gus Van Sant faz questão de interpretar a história dos assassinos com uma lógica igual ao dos outros personagens de que, no final, mesmo com todo o caso, ambos os atiradores, ainda assim, são adolescentes cheios de problemas, medos e situações que os levam a uma ação extrema, ainda que errada, mas sem o – talvez – julgamento moral dos atos. Isto, antes de tudo, apresenta uma visão importante sobre os assassinos, mostrando que além de assassinos eram, em diferença da ação que cometeram, jovens fracos, franzinos e, muitas vezes, vítimas daqueles que eles resolveram matar. Claro, a genialidade da direção não permite que fiquemos com pena dos assassinos porque, pelo outro lado, Gus Van Sant também sabe nos mostrar os problemas referentes a realidade dos que morreram, sendo também jovens problemáticos e cheios de pressões sociais, muitas vezes condenando ao bullying as pessoas por motivos que nem eles entendem direito.

Neste universo jovem de medos e anseios, escolhas erradas e de tudo que propriamente originou o massacre, entra pesadamente a “mão experimental” do diretor que, por escolher uma forma não convencional de retratar o caso, cria uma obra que funciona além da própria necessidade de conhecer o massacre. Isto porque o filme, embora “baseado em fatos reais”, é um brilhante desenvolvimento de estética, uma obra de arte que explora com uma beleza visual e discursiva toda situação horrorosa do tiroteio, optando por dar uma leveza de interpretação muito interessante. No final, com toda tristeza do caso, ainda assim, é um filme bonito. Bonito e interessante, contanto algo triste mas que, pelos métodos escolhidos para fazer isto, nos faz pensar – e observar – o caso com outro olhar, com interpretação completamente diferente.

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Um grande filme, uma grande obra. Administrada com maestria por um grande diretor, que soube escapar do “mais do mesmo” e construir uma narrativa forte e inovadora para algo que, para  espectador, poderia não apresentar novidade alguma. Mas apresentou. Elefante é a prova que ousadia é essencial, transformando histórias simples em grandes projetos e que, claro, a mão de um bom diretor é fundamental para o desenvolvimento de um bom filme.

Boa noite e até a próxima sessão!

Fontes que contribuiram para este post: imdb.com, google.com, youtube.com

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