Na Roda da Fortuna

Hudsuckerproxy1

Uma estranha parceria que deu certo. Filme antigo, de 1994, Na Roda da Fortuna é dirigido pelos irmãos Coen e co-roteirizado por Sam Raimi. Que mistura singular, eim? Um dos mestres do terror dos anos 80 e os irmãos que despontaram variando da comédia ao drama. No entanto, para o agrado dos bons cinéfilos, a parceria funcionou muito bem. Melhor do que qualquer um poderia esperar, alias.

A obra conta a história da empresa Hudsucker, em ascensão financeira, que acaba vendo seu presidente – que dá nome a própria companhia – se suicidar nas vésperas do fim de ano. Em uma manobra política, para evitar que as ações do grupo sejam compradas por qualquer pessoa, os principais diretores e vice-presidente da empresa colocam em prática um plano mirabolante: decidem dar o cargo de presidente ao maior imbecil possível, desvalorizando a imagem da companhia para evitar que outras pessoas comprem as ações e eles mesmos possam compra-las mais baratas. Acontece que o suposto imbecil escolhido para o plano tem, na verdade, uma ideia ainda mais mirabolante de produto para ser lançado. E este produto irá, novamente, colocar a Hudsucker em franca ascensão de capital.

Uma engraçada ironia, comédia fina, bem ao estilo dos Coen, um projeto interessantíssimo. Utilizando-se de toda sagacidade das comédias dirigidas pelos dois irmãos – com histórias peculiares que se emaranham em situações completamente absurdas – misturando elementos do universo de Raimi (como o próprio uso do ator Bruce Campbell, assim como os cenários excessivamente escuros), Na Roda da Fortuna é aquele caso de projeto ousado e com resultado ótimo. A imagem “falsa” do filme, dando um ar de exagero e incredulidade a uma situação simples e que, na teoria, poderia ser completamente crível, garante a pouca e muita verdade ao mesmo tempo, escrachando o universo das grandes corporações americanas, fazendo piada com algo que, talvez, não seja tão piada assim.

hudsucker023

Tudo no filme nos faz ressaltar que aquilo é um mundo fictício, desde o cenário visivelmente falso – exagerando a condição de ser gravado quase todo filme em pequenas salas dentro de um estúdio, sem locações externas – como as próprias reações dos personagens, sempre hiperbolizadas, muito gesticuladas, quase como se eles fizessem parte de uma peça de teatro. E fazem, afinal, a peça da empresa Hudsucker, que é uma caricatura megalomaníaca das empresas e também do mercado financeiro americano; as vezes, nem tão exagerada como o filme propõe, atuando conforme a própria película – vivendo uma mentira de visões e histórias rocambólicas. Toda a tentativa de tornar o “mundo corporativo” um grande universo caricato é, alias, a força do projeto, que tenta de uma maneira engraçada mostrar os pormenores de um mundo sujo e cínico, onde as diferentes esferas de trabalho movem todos os seus resultados como peças de xadrez, calculadas, para um significado maior.

O personagem de Tim Robins (em uma belíssima atuação, diga-se de passagem) funciona como uma quebra aos jogos. Inocente, proativo, cheio de ideias, novo, passa a ser o contraste de todo este mundo. Sem perceber, inserido como presidente, é a negação completa dos outros elementos do filme, reforçando o jeito cômico do próprio pela sua mistura de gênio e paspalhão, motivado a criar e mudar, mas ao mesmo tempo garantir o poder da companhia. A tratativa de colocar uma figura completamente diferente ao universo corporativo funciona muito bem, sacada dos Coen e Raimi, que garante a tônica da história através do contraste óbvio de diferentes mundos – o sujeito pobre que fica rico, o personagem burro que é um gênio, a empresa que cresce e cai, a dura jornalista workaholic que acaba demonstrando apatia pelo simplismo do passado. Tudo, tudo no filme demonstra a hipervalorização do contraste; inclusive o desenrolar da trama, apoiada nos maquiavélicos diretores que, na espera de quase falir a empresa, confiam o lançamento de um produto fracassado – o bambolê – mas que acaba sendo um sucesso sem precedentes.

O sucesso do produto, a ideia simples e a própria forma do objeto – um circulo – garantem a pitada de genialidade da obra, dando o toque fino à comedia dos Coen. Afinal, todo o filme é uma visão do ciclo. Tudo, lá, gira no mesmo patamar, de que as coisas vão e voltam; tal qual o produto criado, o bambolê, nada na vida é um caminho sem volta. Os personagens, a situação da empresa, os romances, negócios, como o tempo (contado por um relógio), são um grande ciclo. E, nesta condição, a história do filme é contada remetendo aos diferentes círculos que, ao longo de todo o projeto, serão parte importante na compreensão do discurso da trama. Afinal, mesmo que haja percalços na vida dos personagens, ainda assim, os ciclos demonstram a mudança. E todos podem mudar, inclusive os maquiavélicos (e caricatos) personagens corporativos do filme!

The-Hudsucker-Proxy-1994

E, nesta mistura maluca, no emaranhado de grandes diretores, atores e uma história sui-generis, vemos o fim de um ciclo, tal qual o próprio bambolê. O filme com início, meio e fim, uma pequena obra de genialidade do passado dos Coen e Raimi, nos mostra porque eles são grandes diretores. O resultado obtido em Na Roda da Fortuna é um grande exemplo de um bom filme, sem muitas pretensões, mas que tem um resultado melhor do que qualquer um poderia esperar. Ou, como o próprio produto das empresas Hudsucker, um sucesso querendo ser um fracasso, acabamos por ver isto na obra, expressa em seu resultado leve e ótimo, em uma comédia de fácil apreciação mas ao mesmo tempo profunda, que critica sem ser ofensiva e consegue passar uma grande mensagem. Vale a pena ser visto e revisto!

Boa noite e até a Próxima Sessão!

Fontes que contribuíram para este post: google.com, youtube.com, imdb.com

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s