Desejo de Matar (1974)

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Desejo de Matar (Death Wish) é um filme americano, dirigido por Michael Winner e estrelado por Charles Bronson. Filme clássico e controverso, Desejo de Matar foi o filme que consagrou ao mundo o próprio ator Charles Bronson, ícone e meste dos filmes de ação da época, mas até então pouco conhecido pelo grande público. Charles Bronson, no projeto, tem o papel principal, em uma de suas atuações mais memoráveis – como sempre – carregado de poucas expressões (frisando a atuação com seu olhar “frio”) e poucas falas.

O filme conta a história de Paul Kersey (Charles Bronson), arquiteto pacifista de Nova York, veterano de guerra e que está fazendo dinheiro no mercado imobiliário da cidade; cidade, esta, dominada pela violência e desigualdade. Após ter sua mulher assassinada e sua filha brutalmente atacada, Paul Kersey ganha uma arma de presente de um amigo e resolve “fazer justiça com as próprias mãos”, combatendo o crime na metrópole e se tornando uma espécie de “vigilante” local. Na teoria, baseado no romance homônimo de Brian Garfield, o filme pouco carrega do livro em si; a obra foi um sucesso comercial e de público mas que, ao mesmo tempo, gerou comentários negativos imensos da crítica especializada.

Clássico porque apontou um gênero de ação muito comum sob uma nova óptica. Como qualquer filme de ação que se preze, afinal, Desejo de Matar não foge muito da fórmula em sua formação cinematográfica. Apresenta técnicas simples, sem muitas ambições estilísticas, com enquadramentos e fotografia padrão e um roteiro linear, onde todos elementos convergem para uma lógica clássica: um personagem principal, seu universo, seus amigos, a polícia, os bandidos e a luta do bem contra o mal, sendo o arquiteto e pai de família o bem, enquanto os bandidos são o mal. Até aí, nada de novo e tudo esperado para o gênero. No entanto, como disse, ao abordar sob uma nova óptica, do meio para o final, a película ganha uma discussão interessante sob o fato de “fazer justiça com as próprias mãos” e quais são os reflexos disso na política e sociedade. Fugindo um pouco do clichê do mocinho se vingando do bandido, enfim, o filme tenta conter uma lógica sob um cidadão pacato que, ao se deparar com a vingança, começa a “tomar gosto” pelo processo, pondo em cheque a discussão sobre ele mesmo enquanto personagem que, como “homem de bem” se está, de fato, fazendo o bem ou apenas se tornando um serial killer com um gosto específico.

Controverso porque, justamente por sua óptica diferente, foi alvo de críticas e debates. Afinal, o que Paul Kersey faz ao longo de todo filme é certo ou errado? A crítica alegava que o filme era uma defesa ao “vigilantismo” e, por isto, incentivava a população a também “fazer justiça com as próprias mãos”, entendo que era errado um cidadão qualquer decidir quando e como matar outras pessoas, mesmo que elas tenham cometido crimes e a justiça não as julgue com exatidão. A crítica alegava que o filme induzia ao fato de que não precisaríamos de forças especializadas e nem do Estado para coibir a criminalidade das ruas e, se pudéssemos, deveríamos fazer isto nós mesmos – uma atitude errada porque, na visão da justiça, não temos a competência para analisar a maneira mais correta de punir um infrator. Ou seja, quando buscamos o “vigilantismo”, nos tornamos tão criminoso quanto o próprio criminoso a quem perseguimos. E, neste universo, o projeto foi alvo de duros comentários, ganhando um certo espectro de “filme cult”, garantindo horas de especulações e conversas sobre, afinal, o que o diretor tentou transmitir.

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Pessoalmente, considero tudo isto muito genérico; acho a crítica do filme sob este aspecto muito vaga. Vago porque, ao longo de todo o projeto, a discussão do diretor mostra que em nenhum momento ele defende a postura do personagem no papel de Paul Kersey. Este, por sua vez que, inclusive, passa a ser perseguido pela polícia e se torna quase um sociopata – na ótima e quase caricata interpretação do sempre “sem expressão” Charles Bronson – sempre duro, cruel, sério e calculista, sabendo claramente que suas atitudes não são exatamente corretas e, inclusive, expressando isto ao longo da película, quando o ator passa de um pacifista convicto para um maluco perseguidor de arma em punho, matando criminosos aleatórios pelo simples prazer de matar. O nome em inglês, Death Wish (perfeitamente traduzido para Desejo de Matar), alias, deixa isto claro: o objeto do personagem não é um “desejo de justiça”, ou “desejo de reparação”, mas apenas um louco e insano “desejo de matar”, engatilhado pela morte de sua mulher e a violência cometida contra sua filha, que acaba ficando traumatizada. Logo, em nenhum momento, mesmo que pareça, o filme faz alusão ao “vigilantismo” e, muito longe disso, inclusive, pode ser visto como uma bela crítica ao mesmo.

A busca pela justiça, algo muito mais complexo e profundo, dá lugar a uma caçada não recompensante, em prol de si mesmo, onde o único interessado é o próprio personagem, fruto de um universo problemático e cheio de realidades ainda mais problemáticas, sendo ele apenas mais um desajustado que, pela condição horrível da cidade, passa a achar que suas ações se justificam mais do que as dos outros porque, antes de tudo, ele tem um motivo. Motivo, este, que o filme faz questão de mostrar que não se confirma. Afinal, ao longo de toda obra, EM NENHUM MOMENTO o personagem de Charles Bronson opta por caçar quem matou sua esposa; ele apenas sai atirando em criminosos aleatórios, que nada compactuam com uma suposta “justiça” pelo trauma que aconteceu com sua família.

É importante frisarmos neste contexto porque, sim, neste caso, a história é maior que a técnica. Ou seja, Desejo de Matar é realmente um filmão, um marco da ação e de uma época; mas não porque concretizou alguma lembrança honrada em seus critérios estéticos – seja na fotografia, direção, edição etc., porque nestes quesitos a obra não apresenta grandes novidade e/ou nada de muito qualitativo – mas sim porque trouxe de Hollywood um debate muito bom e, inclusive, muito atual até os dias de hoje. Se Michael Winner é conservador ao gravar e usar técnicas “seguras”, apostou na história simples porém cheia de significados. Difícil alegar que Desejo de Matar é “mais um filme de ação”, quando percebemos que, sim, o próprio projeto, além de ser um marco ao tão aclamado Charles Bronson, foi um expoente na discussão de um tema tão controverso. E você, afinal, apoiaria ou criticaria o que Paul Kersey fez? Certo ou errado, um ótimo filme! Vale a penr ver e rever!

Boa noite e até a próxima sessão!

Fontes que contribuiram para o post: google.com, wikipedia.org

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Um comentário sobre “Desejo de Matar (1974)

  1. É interessante a capacidade de enxergar uma visão do erro do personagem em querer uma vingança genérica, essa vingança sem controle, concordo, esse certo vigilantismo desenfreado e sem medidas pode ser perigoso, mas, o perigo já está comum naquela sociedade, tentando se defender ou não, o que que não podemos deixar de perceber, é a dura relação de semelhança ao que vivemos hoje no Brasil com a situação social retratada em 1974 em Nova York pelo filme, o caos desenfreado, onde o Estado sem condições de garantir a segurança do cidadão de bem, ao não permitir o porte de armas de fogo ao cidadão de bem, o direito de auto defesa propriamente dito, apenas instituem a falência daquele Estado em comparação ao outro Estado Americano onde se permitem as armas, o mais incrível é ver como a policia local se movimenta para achar o tal vigilante por pressão da imprensa, mas infelizmente não tem a mesma vontade para resolver os crimes do dia dia que estão afogando em sangue a sociedade, de uma coisa não podemos nos esconder, onde as pessoas têm condições reais de se defender a criminalidade não se espalha com tanta certeza de impunidade, seja como for.

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