True Detective – uma série memorável

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True Detective é uma daquelas coisas tão meteóricas que é difícil tentar entender o sucesso. Fala sério, quantas séries alcançam este status hype tão rápido? Mesmo séries que se consagraram, como The Wire, Breaking Bad, entre outras, engatinharam no início pra poder chutar o balde no final; muitas delas, inclusive, sofrendo ameaças de cancelamento porque “não estavam agradando o público“, como o próprio caso de Seinfield, que tardiamente foi considerada a melhor série de comédia de todos os tempos. E aí veio True Detective que, em dois ou três episódios, já havia alcançado uma aura de cult que muitas outras demoraram temporadas pra conseguir. E o carisma não é pouco, muito pelo contrário, completamente justificável. True Detective é um daqueles casos que tudo, absolutamente tudo está perfeito, convergindo num resultado épico. Fotografia, trilha, atores, história, roteiro, há alguma coisa que tenha dado minimamente errado? Duvido.

A série conta a história de dois policiais, se passando em 3 períodos de tempo: o presente, o passado recente e um passado muito anterior. Dentre estas 3 realidades, há o desenvolvimento de um caso, supostamente envolvendo ocultismo, satanismo, ou qualquer coisa do tipo, e como este caso uniu e acabou por minar a parceria destes dois policiais. Além disso, percebemos que, durante a série, o caso fica mal resolvido e continua a ser investigado, supostamente porque ainda não está concluído. Nesta óptica, vemos o policial Rust Cohle (interpretado por Matthew McCounaughey) como um personagem alcoólatra, descrente, niilista e racional, tendo uma visão de um mundo misantropo e completamente singular, debatendo muitas questões com um olhar filosófico, enquanto o personagem Marty Harty (interpretado por Woody Harelson), seu parceiro, é a visão completamente oposta; crendo na força da família, das instituições, em um mundo moral, cheio de questões virtuosas, Marty é exatamente o contrário de tudo que Rust fala/acredita. E, graças a estas diferenças, vemos uma parceria policial tensa, inconstante e se desmantelando pela falta de tato de ambos em saber lidar com a diferença um do outro.

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É difícil descrever o porquê do acerto magnífico de True Detective; com certeza, poderíamos descrever a história – extremamente bem montada pela equipe, principalmente por Nic Pizzolatto, criador e idealizador – com referências a diferentes tipos de literatura, como a própria filosofia (algumas passagens de Rust lembram textos e pensamentos de Nietzsche, Heiddegger, ou até Platão), mas principalmente o universo de H.P. Lovercraft e Robert W. Chambers (escritor de O Rei de Amarelo). Nic Pizzolatto cuidadosamente inseriu elementos da cultura moderna, principalmente da literatura fantástica do terror, dando uma tonificada em um universo obscuro de elementos e citações que trouxeram o mais variado tipo de interpretações e visões para “o grande final” da série. Mesmo que o próprio Nic tivesse avisado que a série não iria apresentar um final “lostiano”, ou seja, nada que trouxesse abertura para interpretações e visões misteriosas, ainda assim, a série inteira é constituída neste grande “e se…“, trazendo portas para todos os tipos de conspiração e interpretação maluca.

A começar pelo próprio Rust, talvez o personagem mais marcante, completamente instável e que, como ele mesmo deixa claro já no primeiro episódio, sofria de pequenas alucinações. O fato da série ser constituída em três períodos de tempo distintos e sobre como os personagens se lembram dos acontecimentos, sem que eles sejam necessariamente verdade, trouxe a ideia de que, talvez, muito do que é dito por Rust não seja exatamente a verdade, mas uma visão de como ele percebia suas “alucinações”. Paralelo a isto, claro, temos ainda a inserção do maior mistério da série, o tal do Rei Amarelo (que faz referência a uma criatura fantástica do livro de Robert W. Chambers) e foi o mote principal da trama e da investigação de um suposto culto psicopata. Para muitos, o Rei Amarelo era um discurso, uma criação coletiva, uma representação de algo ou alguém mas não o que ele era descrito no seu nome em si; ou seja, o Rei Amarelo não era um rei e nem era amarelo, mas uma entidade – quase um tipo de força além do bem e do mal – que poderia possuir as características descritas pelo título de rei: ser uma liderança, uma opinião de força, como um chefe e, dentro disto, se destacar por elementos que o fizessem “parecer amarelo”, como cabelos loiros ou algo do tipo. Além disso, há a inserção da região de Carcosa, também uma referência a um mundo fantástico e que, para muitos, foi a abertura de dúvidas sobre o que seria realidade e o que não era. Afinal, se Carcosa na literatura é um mundo indiscutivelmente fictício, por que os personagens de True Detective tratam ela como uma localidade real?

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Dentro desta óptica, esta visão de que não sabemos ao certo o que aconteceu e o que pode ter acontecido, desenvolvemos uma peça, quase uma alegoria, que transforma a série de um “caso criminal” em um grande conceito teatral. Muito se discutiu e talvez isto mesmo tenha alavancado um sucesso meteórico, justamente porque, ao longo dos oito episódios, o que se montou enquanto roteiro não foi exatamente o que poderia se descrever como “mais uma série sobre crimes“, mas algo como “uma interpretação fictícia sobre visões filosóficas de diferentes conceitos“; e aí entra a atuação magistral da dupla de policiais, Woody e Matthew que, para o bem da verdade, ambos estão no melhor papel de suas vidas. A mágica que fizeram em viver cada qual seu personagem de maneira magistral deu um ar quase mítico a série, onde tudo toma um ar de tragédia grega, com um final grandioso e recheado de lições de moral. A começar pela contraditória experiência dos dois, a série já começa com um ponto a se discutir: Marty é um cara durão, correto, policial padrão americano que respeita a hierarquia e, principalmente, a ideia de família – muito embora isto se mostre uma grande farsa, hipocrisia e um ponto forte na visão da série. Já Rust é um niilista, pessimista (como ele mesmo se descreve), minimalista, pensando e racionalizando tudo, discutindo e tentando quebrar paradigmas, anseios e moralismos da sociedade. Enquanto Marty tem amigos, filhos, cercado de pessoas, Rust se exclui em um mundo de alcool, outras drogas e solidão. Enquanto Rust discute questões morais e, além disso, prega o fim de certos valores sociais, Marty é o exemplo desta hipocrisia, principalmente na sua situação com a família e mulher. No univesro de Marty, Rust é como um soco na cara, um balde de água fria que choca e lhe apresenta paradigmas que o mesmo nunca tinha pensado. Na vida de Rust, Marty é o único tipo de contato social, amizade, que ele tem. E, neste mundo de contrastes, ambos levam a série para um patamar além das outras séries.

A discussão da existência de ambos os personagens, suas visões de mundo e, principalmente, como isto afeta suas relações na vida e no caso a ser investigado são o grande momento da obra. Saber lidar com dois personagens extremos e encará-los de uma maneira condizente em uma história nebulosa e num roteiro as vezes não tão linear é a grande sacada. A transposição de perceber a série não só como um grande assassinato, mas como uma relação entre humanos conturbados é um singelo assobio de genialidade. Poder aprofundar os papéis, nos deixar conhecer quem são Marty e Rust e como eles chegaram naquele ponto tão estranho e complexo é o que faz irmos um passo adiante. Acabamos ligando muito mais para a resolução de suas diferenças, ou como mutuamente um ódio misturado a respeito cresceu na relação dos dois policiais, do que qualquer outro elemento. A tragédia grega da encenação é, afinal, a discussão de tudo que se mostra em True Detective; das longas falas sobre nossa vida cíclica – a repetição de comportamentos – ao fato de discutir o moralismo do bem e do mal e que, as vezes, não há um conceito linear de certo e errado; de como pessoas mudam, transformam situações e hipocrisia e se escondem dentro de personagens para elas mesmas; tudo, tudo é levantado ao longo dos oito episódios em um roteiro que mais parece um ato, esperando o “grand-finale” que acaba chegando muito mais simples do que todos esperavam – ou imaginavam – mas não deixa de contar com os elementos alegóricos necessários para construir um épico. A libertação das ideias, a quebra de paradigmas, as visões diferentes dos dois personagens, no final, são discutidas nas últimas cenas, mostrando que mesmo através do ódio e da contradição, o respeito ainda é o principal sobre a parceria dos dois policiais e que, ao longo de suas vidas, ambos acabaram mudando de opinião justamente pela convivência mútua. Conturbada, claro, mas que acaba trazendo um significado tanto para Marty como para Rust.

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E assim vemos a série alavancar, um meteoro e, como tal, ascender rapidamente e acabar ainda mais rapidamente. Apenas 8 episódios, cada temporada uma nova história, True Detective 1 chegou e já se foi. E se a série nos trouxe uma discussão sobre contrastes, pouco importa porque você viu, se para montar teorias mirabolantes sobre ocultismo, por causa das referências ao universo de fantasia do terror e seus grandes escritores, para saber quem era o assassino, para ver a relação de Marty e Rust, a série permite tudo – e este é outro passo para a genialidade do projeto. Da mais escabrosa teoria ao simples tato das relações entre pessoas, todos os espectadores se sentiram incluidos; quem imaginou um final rocambolesco como Twin Peaks, ou quem apostava em um dos dois policiais como o Rei Amarelo, todo mundo viu argumentos para que suas divagações fossem sensatas; e isto se deu por uma linda direção (feita por Cary Fukunaga), construindo um mundo que ao mesmo tempo que se abria sob as mais variadas interpretações, se fechava em um roteiro sólido, sem furos ou “mcguffins” desnecessários: o doce limite entre ser muito vago ou muito preciso, aqui, foi explorado a exaustão. No final vemos que alguns pontos que a série levantou, realmente, não foram explicados ou resolvidos, mas isto pouco importa, porque ao abrir a proposta para não percebemos o mundo como ele deveria ser (na medida em que metade da história se passa em lembranças, que podem estar distorcidas pela memória falha), compreendemos que o “nem tudo é o que parece” é válido. Então, se o espectador pensar sob a óptica de que alguns fatos contados, talvez, não tenham acontecido como o exato relato dos personagens principais, talvez não tenham nem existido em um mundo real, sendo tudo de uma grande invenção fictícia, um conto misterioso e sem um final proposto, ainda assim, o que fica de mistério é compreensível, mesmo que – volto a dizer – o próprio criador e idealizador, Nic Pizzolatto, tenha dito em entrevista que não faria nenhum tipo de “final lostiano”, qualquer tipo de visão é válida. E, aqui, cabe a criatividade ou a sensatez de quem assiste, de perceber o mundo real ou imaginário, crime ou fábula, história ou alucinação, como qusier, True Detective é feita para isto. Um trabalho de mestre de Pizzolatto e esperamos que siga assim na próxima temporada!

Boa tarde e até a próxima sessão!

Fontes que contribuiram para o post: youtube,google,imdb

 

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