O homem que matou o facínora

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Hoje é a vez de mais um filme clássico, um faroeste de 1962 dirigido por John Ford e com atuações de Lee Marvin, John Wayne e James Stewart. O homem que matou o facínora é um daqueles filmes indispensáveis e indiscutíveis, que todo mundo deveria ver ao menos uma vez na vida; história, atuações, roteiro, trilha, tudo é fantástico e, inclusive, atemporal – mesmo se tratando de um faroeste, por muitas vezes filmes muito característicos e, principalmente, presentes fortemente em outras épocas (50, 60 e 70), com discursos e situações próprias de um tempo específico.

A história de O homem que matou o facínora conta o caso de um famoso Senador (interpretado por James Stewart), que vai ao enterro de um amigo cowboy (John Wayne) em uma cidadezinha do interior e acaba relatando o desenrolar da amizade de ambos a um repórter local; este relato, por sua vez, acaba passando pelo incidente onde se planejou e executou a morte de um famoso bandido, conhecido como Liberty Valance (Lee Marvin). Nestes percalços do tempo, vemos a vida e questões morais do Senador, em confronto com quem ele era antes de tudo – um advogado desconhecido – e quem passará a ser após seus atos – um político e famoso influente – resolvendo problemas como em todo o velho oeste e aqueles que ele mesmo criticava: usando da violência como força vital.

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A grande genialidade do filme está em uma base sólida exercida por dois pontos principais: o primeiro, indiscutível, as atuações memoráveis. Dentre as mais de duas horas de filme, é importante e muito evidente o esforço de grandes atores para manter a narrativa da história. Tanto James Stewart, indivíduo da cidade grande – confuso e em confronto moral com seus ensinamentos – como o eterno John Wayne, sempre e novamente o cowboy, homem duro e irredutível, talhado pela vida difícil e pela sabedoria do homem solitário do campo. Além deles, um ótimo elenco de apoio, como o jornalista bêbado (Edmond O’Brien) tentando fazer seu pequeno veículo em contato com a cidadania do município e a garçonete (Vera Miles), em confronto entre suas paixões divididas; mas, principalmente, a atuação memorável de Lee Marvin no papel do bandido Liberty Valance, é quem fica com o maior crédito ao projeto como um todo. É graças a atuação e construção de personagem de Lee Marvin que aprofundamos os dilemas da história e passamos a entender o confronto moral do Senador, se ele está certo ou errado ao tentar matar um homem tão mau como Liberty; a atuação primorsa de Lee nos faz, aos poucos e ao longo do roteiro, ir construindo um ódio tão grande do bandido, uma antipatia tão forte que, por isto, entendemos toda agonia da cidade e principalmente a necessidade da morte de um sujeito tão vil e cruel, mesmo que isto vá contra os princípios legais da advocacia e do personagem principal – o advogado respeitoso e legalista.

Mas, além dos méritos das atuações, temos também a direção fantástica de John Ford (o segundo ponto para a grandiosidade do filme), aqui, mostrando porque é um diretor tão conceituado. É engraçado porque o próprio título já deixa tudo muito claro, afinal, o filme se chama “o homem que matou o facínora” (e, em inglês, “the man who shot Liberty Valance”) e, para o bem da verdade, desde o início da obra você já sabe como a coisa vai se desenrolar para o seu final. No entanto, isto não a torna nada previsível e, muito pelo contrário, sabendo escapar do clichê de tentar construir o filme apenas como um suspense ou qualquer coisa do tipo, John Ford explora um outro lado para a trama, muito mais dramático e ao mesmo tempo social. No final, pouco importa quem e como vão matar o tal do facínora, que todo espectador sabe quem é e deseja mesmo que morra; muito além disso, o filme aborda o ponto vital da questão sobre matar bandidos: é correto você deter um criminoso cometendo um crime? É correto para o (futuro) Senador, homem da lei, descumprir a lei ao tratar do assunto…mesmo que para isso ele acabe com uma série de futuros crimes e “salve” uma cidade inteira? E é através dos conflitos pessoais do personagem de James Stewart que vemos a obra, sob o aspecto de não ser “apenas um faroeste”, mas um grande filme com uma discussão profunda sobre personalidade e caráter. Levado através do Senador e seu conflito, o filme passa a abordar um mundo além do bang-bang clássico, inclusive, sobre a questão política e os costumes da época; é importante perceber isto e incorporar na história, onde John Ford nos mostra de maneira clara como a vida na região era algo além do que os métodos convencionais e civilizados da cidade grande poderiam discutir. Com uma frase ao final do filme e que praticamente fecha a história, ouvimos as seguintes palavras: “Este é o Oeste, senhor. Quando a lenda se torna fato, imprima a lenda”. E, bem verdade, de maneira muito simples o filme tenta demonstrar exatamente isso.

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Sob estes dois pontos, atuação e direção primorsa, completamos este clássico com uma fotografia maravilhosa – em uma época que a maioria dos filmes já começavam a se apresentar em cores – a escolha por mante-lo preto e branco dá um ar sublime à trama, tornando-a esteticamente muito bonita. Com muitos cenários fechados, principalmente dentro das casas da cidade, vemos um belo desenrolar de cenas que misturam o contraste dos fundos em tons claros com as roupas escuras dos personagens, funcionando muito bem como estilo e tornando o filme não só ótimo pela sua história ou atuações, mas também muito importante enquanto estética. Desta forma, temos um filme que é extremamente belo de se ver, não apenas fantástico pelo seu discurso. Mesmo com o ambiente empobrecido, bandidos sujos e pessoas humildes, toda a construção estética da fotografia deixa, ainda assim, um grande espetáculo de beleza na simplicidade da pequena cidade do campo.

E é através de tudo isso que acaba se construindo uma obra completa, absoluta. Com nomes conceituados, desde a direção a atuação, O homem que matou o facínora merece toda estima que tem. Quebra barreiras e vai além do faroeste convencional, passa a ser um ótimo filme que engloba muitos gêneros, desde o drama, suspense, desenvolvendo até uma leve comédia em algumas cenas e, obviamente, o próprio faroeste como se apresenta, sendo incrivelmente bom em tudo que pretende ser. Como eu disse, embora pudesse ser datado, como outros filmes da mesma época, O homem que matou o facínora atropela os esteriótipos e, mais do que isso, se torna um filme incrível e atemporal. Vale a pena ser visto e revisto, uma das obras absolutas do cinema. E as questões ali discutidas, até hoje são muito pertinentes.

Obrigado e até a próxima sessão!

Fontes que contribuiram para o post: imdb.com, youtube.com

 

 

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Um comentário sobre “O homem que matou o facínora

  1. Oi, Lucas.
    Fiquei emocionado ao ver a tua crítica do Homem que matou o facínora. Este é um dos meus 5 filmes favoritos. Em se tratando de Western, só fica atrás de Johnny Guitar do Nicholas Ray. Caso não tenhas assistido, recomendo. Fico orgulhoso de te conhecer.É quase inacreditável que alguém na tua idade, se interesse por este tipo de filme. Faroeste psicológico,introspectivo, parado, e há muito tempo fora do circuito, é quase um milagre, tu escreveres sobre este filme GIGANTE. Por entusiastas e abnegados como tu, que o o cinema nunca morre.Parabéns!Mergulhas neste gênero, que tu vais viver grandes aventuras e fazer grandes descobertas. O cinema precisa de talentos como o teu.Remove o pó e traz à tona estes verdadeiros tesouros que estão esquecidos.
    “Quando a lenda for maior que a realidade, imprima-se a lenda”.
    Viva John Ford!

    Otávio

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