12 homens e uma sentença, de Sidney Lumet

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A brilhante carreira do cultuado diretor Sidney Lumet alcança, nesta obra, o ponto máximo de sua técnica e dedicação – e, curiosamente, é também o seu primeiro projeto. Em 12 anos e uma sentença, não estamos falando só de um filme qualquer, uma película para se ver e guardar; é um tratado sobre cinema e discurso, um divisor de águas na história dos filmes e, principalmente, sobre os diretores americanos. Inclusive do próprio Lumet que, já na sua estreia, emplacou um filme arrebatador em todos os sentidos, construíndo uma proposta inovadora e com resultado maravilhoso.

12 homens e uma sentença conta a história de um juri escolhido para decidir o destino de um acusado: devem condenar um jovem rapaz à cadeira elétrica por ter matado seu pai, ou devem inocenta-lo? Dentre os 12 jurados, apenas um acredita na inocência do acusado e, através disso, o filme se passa quase que inteiro na sala do júri (apenas duas cenas de pouco mais de 3 minutos são fora dela), onde um jurado (interpretado por Henry Fonda) irá tentar convencer os outros onze de sua escolha e que, de fato, o rapaz talvez seja inocente.

93 minutos de obra e apenas 3, isto mesmo, 3 minutos em ambientes diferentes. os outros 90, todos, retratados em apenas um ambiente, uma sala com 12 personagens. Elementos suficientes para dar errado, não é? As limitações de locação propunham um filme com sérios problemas de desenvolvimento, cansativo ou arrastado, com longos e longos diálogos e pouca ou nenhuma movimentação ou ação. Ledo engano; nos detalhes, Sidney Lumet e uma trupe invejável de ótimos atores conduz a obra a um nível acima do normal, brilhante, com um excelentíssimo trabalho que inverte a limitação em algo positivo para o resultado final. O encaixe de todos elementos faz com que, ao longo destes 90 minutos, em nenhum momento você se sinta confortável com a situação que está vendo na tela, promovendo uma sensação de necessidade em prestar atenção a cada segundo que passa. Inquietante, o filme monta uma estrutura tão genial que tudo mostrado, ali, é importante para o todo. Um filme de discurso, claro, antes de tudo, o que conduz a obra é a excelente história criada por Reginald Rose, mas com a mão de Midas de Lumet para aproveitar muito bem a mais de uma hora de atuações e conversas acaloradas.

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Como dito, nos detalhes que o filme ganha o espectador e torna o que poderia ser uma solenidade sobre o sistema criminal em um delicado filme com um ótimo ponto de vista. Nos menores momentos que percebemos como o trabalho de Sidney Lumet nos cativa pelo grande esmero. Começando por construir um ambiente extremamente claustrofóbico, não só uma sala apertada, a história nos mostra que se trata de “um dos dias mais quentes do ano” e que isto vai se evidenciando ao longo dos minutos, com os personagens cansados e suados, estressando-se por bobagens naquele local pouco amistoso e visivelmente desconfortável (a critério de curiosidade, para corroborar a genialidade de Lumet, o diretor foi rebaixando o teto do estúdio conforme gravava as cenas, para aumentar o sentimento de local apertado). Neste ambiente infernal, não só imaginamos, mas também vivenciamos a situação dos personagens, nervosos e apressando suas decisões para acabar logo com aquele martírio de estar ali. É importante vislumbrar a situação precária do juri e como isto vai pautar as opiniões contrárias de cada um dos personagens, em sua maioria, querendo acabar com a discussão logo para ir embora – pouco importando a veracidade das provas apresentadas pelos advogados. Mas a coisa não para aí…

Não apenas pelo ambiente, Lumet e também Rose souberam colocar um elemento crucial para a beleza da obra: não nos contar o passado de nenhum personagem. Muito importante para o desenvolvimento do roteiro, este elemento faz com que o espectador passe a entender pouco ou quase nada do que está por trás de cada uma das pessoas do júri e que, por isto, suas escolhas são baseadas em situações ou universos que nós só somos capazes de compreender enquanto a trama se desenvolve e cada um começa a se expressar de sua forma. A “cegueira” dos jurados para com a possibilidade de que o acusado seja inocente funciona da mesma forma para o espectador que, também “cego”, não consegue ver além do pouco que conhece de cada um daqueles personagens. No final, se percebemos que os envolvidos tomam decisões precipitadas, pela maneira como a história é montada e mostrada, cabe a nós, também, o papel de tomar opiniões precipitadas sobre cada um dos indivíduos que ali vemos. O filme, com seu visual clastrofóbico e quente, com seus personagens sem passado visível, enfim, nos leva a imergir junto com cada um ali presente. Curiosamente, para saber “o que será que vai acontecer com a decisão?“, você como espectador ficará na mesma situação desconfortável dos 12 jurados, constantemente incomodado com as opiniões e o que cada um fala, da maneira que fala e, não só isso, tentando entender o porquê das falas: como alguns são tão levianos na medida que outros são tão profundos. Da mesma maneira que isto refletirá na vida de uma pessoa, que pode ou não acabar morrendo por decisões erradas, como Henry Fonda, quem vê o filme é levado a ficar indignado, também.

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Ao longo dos 90 minutos de obra, evidente, não é só o esforço de Lumet que dá a tônica do filme. Cada qual dos 12 jurados expressa uma atuação brilhante no seu papel. Estrapolam o limite do personagem e, muitas vezes, parecem mais real do que a ficção. Se a história não nos deixa conhecer previamente o que cada um dos envolvidos fez ou representa, a atuação contribuí para entendermos os estereótipos deles. Interpretação ótima, é bem provável que  nas cenas mais acaloradas, o espectador que vê o filme realmente acredite que a qualquer momento é capaz dos personagens trocarem tapas ou brigarem de verdade, tã fiel a imersão dos envolvidos para dar realidade em seus papéis. Cada personagem, ali, representa um discurso, uma casta da sociedade. E também é bem provável que você, vendo o filme, acabe tomando o mesmo partido que o personagem que você se identifica toma, defendendo ou condenando a quem bem entender pelo simples fato de ter – ou não – uma opinião parecida. A torcida e defesa pela opinião dos jurados é uma tônica muito forte para o espectador; cada votação ocorrida é motivo de comemoração ou tristeza, vendo, ali, os estereótipos se reforçarem ou se esvairem em discursos vazios e cheios de si, onde a mudança de opinião representa não só uma “derrota moral”, mas também a admissão do erro enquanto indivíduo, que julga apressadamente a situação do suposto acusado para ir logo embora para casa. Cada grito, cada minuto, cada tensão entre os 12 jurados é, não só parte do filme, mas uma representação fiel de pessoas da sociedade, o que torna a atuação do filme muito mais real e fidedigna do que uma mera ficção.

E se a limitação dos cenários poderia ser um problema, aqui, tudo se deixa de lado. Em 90 minutos na mesma sala e, graças ao constante aprofundamento de emoções e debates, o espectador não sente a falta de outros ambientes; compreendendo a proposta e se vendo “preso” a pequena guerra de diálogos que ocorre ao longo da trama, onde alguém, claro, vai sair vencedor, pouco importa se o filme se passe todo em cima de uma mesa e que os personagens percorram poucos metros; a ação se dá em forma de incômodo, de ver uma situação supostamente injusta e, você ali vendo, não conseguir resolver nada, apenas assistir e torcer pelo melhor debatedor. As pequenas táticas de Lumet conduzindo a câmera, com closes muito bem colocados nos rostos, contribuí para a maior definição da expressão dos atores e que, visivelmente, acabam mostrando seus sentimentos não só em palavras, mas também em caras e bocas fantásticas; a tensão fica no ar e nós somos capazes de perceber isto. Ali, durante aqueles 90 minutos na sala, aquele é o inferno na Terra.

E como era de esperar, a tensão vence o tédio. Apenas em uma sala, pouco importa, o tempo irá passar voando. No final, Lumet, Rose e Fonda – principalmente – levam o projeto a um nível adiante; um grande discurso sobre erros, preconceitos e a moral do nosso sistema criminal. Filme feito em 1957, porém ainda atual, mostra que, talvez, não estejamos preparados para reconhecer nossa racionalidade, principalmente na hora de conduzir julgamentos para o próximo. Muitas vezes nos deixamos levar pela maioria, ou pela facilidade de uma opinião leviana, para não termos o trabalho de pensar, para não termos o trabalho de nos colocarmos imersos na situação, onde tudo pode estar certo e errado ao mesmo tempo; contudo, pela pressa e facilidade, claro, vemos o lado negativo do ato, mais evidente do que a possível improbabilidade daquilo ocorrer. E no final, pouco importa a suposta imparcialidade do sistema, que tenta julgar a situação do melhor modo possível, em muitas as vezes, ainda assim, haverão falhas grotescas – principalmente se pensarmos como a maioria dos jurados do filme. Uma bela reflexão, a obra nos mostra a pensar adiante. De uma maneira emocionante, com um dos finais mais prováveis mas ao mesmo tempo incrível, o filme nos prende do início ao fim, sendo um dos projetos mais fantásticos que o cinema já produziu até hoje.

Boa tarde e até a próxima sessão!

Fontes que contribuiram para o post: google.com, youtube.com, imdb.com

 

 

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