Submersos

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Este é mais um caso de ótimo e subestimado filme; Submersos é um maravilhoso thriller, com elementos de terror que, como outros casos, acabou saindo do circuito sem muito alarde pela falta de publicidade ou grandes nomes – deixado de lado e pouco citado por aí. Dirigido pelo diretor David Twohy, o filme se passa na Segunda Guerra, onde um submarino inglês acha algumas vítimas de um naufrágio e desconfia que as mesmas escondam algum tipo de segredo sombrio, ou até pior: sejam soldados alemães infiltrados. No universo limitado do submarino e na tentativa de apaziguar os anseios misteriosos dos novos ‘visitantes’, os soldados ingleses começam, aos poucos, a acreditar em uma antiga maldição que ninguém sabe se, de fato, se trata de algo real e palpável ou apenas uma grande alucinação coletiva. O filme foi uma das primeiras atuações de Zack Galifianakis (na época, ainda desconhecido) mas, no geral, conta com poucos atores famosos – incluindo o próprio diretor que, originalmente, era pra ser Aronofsky, que preferiu dirigir Requiem para um Sonho. Neste aspecto, o que vemos é uma produção com um caráter quase de ‘tv-movie’, com custo baixo e algumas limitações técnicas bem evidentes. Por isto, acredito, que a própria escolha do submarino como tema tenha sido feita justamente pensando na economia, rodando a obra em poucos cenários e valorizando a construção do roteiro e a história que, por si só, são o grande legado da obra.

Valorizando toda aparência do cenário, argumento primordial da história, a claustrofobia do veículo – o submarino – é levada ao extremo, fazendo com que muitas vezes sejam usados os “apertos” do local pouco espaçoso como discurso para elaborar o desenvolvimento da trama. A ideia do filme, que mescla um emaranhado de sobrenatural e psicologia, fantasmas e alucinações, transcorre numa mistura de pequenas interpretações sobre o ocorrido para cada um dos personagens; afinal, não é apenas a trama que passa pela duplicidade do sobrenatural/psicologia, mas os próprios soldados dela que , ali, desenvolvem um papel duplo, ora como bravos e fortes combatentes sobrevivendo à guerra, ora como pessoas com medos e anseios e, principalmente, crenças no oculto. Como os próprios resgatados, todos ali no submarino escondem algo; muito bem proposto pelo roteiro (méritos do diretor), explorar a óptica obscura da locação, um veículo de guerra com baixíssima iluminação e espaço limitado para locomoção, reflete psicologicamente na realidade dos seus passageiros, que começam a ser afetados por todas estas limitações e, por isto, passam a lidar com uma paranoia coletiva. A pressão da guerra, ali, é só pretexto; é apenas o pano de fundo da história, o gatilho externo que reflete no argumento interno, a vida conturbada dentro daquele submarino misterioso, de passado sombrio e muitas mortes, sofrendo com as intempéres da violência dos combates e a má conservação que os impedem de voltar para casa, um paralelo de um objeto que se porta exatamente igual aos seus tripulantes – todos afetando a todos, ambiente e pessoas, reciprocamente.

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Devemos valorizar a economia que, aqui, acaba funcionando bem. Tanto o diretor pouco conhecido como os atores, todos de menor destaque, acabam interagindo maravilhosamente com o roteiro e a história; atuações simples porém convincentes, os méritos de toda equipe são o empenho da brilhante forma como o diretor conta a história, tentando não dar evidência ao baixo orçamento (que fica aparente, principalmente na indumentária dos personagens) e focar na complexidade da história, com um clima de suspense muito bem montado que, mesmo flertando com o sobrenatural, não faz pouco caso do espectador. A ideia de entidades estranhas, possivelmente fantasmas, não faz com que o filme fique com cara de terror adolescente, aquele tipo de obra que força sustos bobos aumentando o som em cenas estúpidas, com efeitos sonoros sem sentido, como portas fechando ou coisas deste estilo; o foco do terror está na construção de todo ambiente, tornando aquele pequeno submarino em um enorme mundo de também pequenos medos e pequenas histórias surreais, mentes cansadas e destruídas pela guerra e solidão, que se multiplicarão numa insanidade tamanha que colocará a vida de todos em risco, principalmente porque não há como se escapar daquele local. No final, podemos não tomar sustos, acabamos tendo medo da situação, ficamos incomodados com a perplexidade da obscuridade que vamos descobrindo aos poucos e como cada um dos tripulantes, ali, se relaciona com aquilo tudo. O medo, neste caso, é um lugar – o submarino – e é isto que vai lhe fazer tremer, ficar impaciente, justamente por não conseguir vislumbrar, enquanto espectador, como os personagens podem fugir de um local fechado e amaldiçoado no fundo do mar. A situação apavorante ao qual os personagens são submetidos reflete em quem vê, sentindo que em cada ala, cada câmara pode-se, de fato, possuir algo de outro mundo, que ninguém ali estará preparado para lidar – ou sequer conseguir fugir. O pânico dos tribulantes, no caso de Submersos, passa a ser, também, do espectador, enclausurado com a trama claustrofóbica.

Triunfa o esforço do coletivo no projeto e, por ironia, o contrário é exatamente o que dá razão a história do filme. Se conseguimos, por meio do diretor e das ótimas interpretações, superar os anseios de um “filme barato”, com um brilhante thriller em que o que vale é o roteiro e as atuações, isto só é possível pela história individualista, de solidão extrema, onde nos colocamos no lugar de cada personagem – os bons e os maus – sofrendo cada vez mais solitários em uma caixa de metal no fundo do oceano, sem saber como sobreviver tão isolados a tudo; a improbabilidade de um terror passado num submarino é o oposto do que se espera, neste caso, com um ótimo filme que não recebeu os louros que merecia. Vale a pena ser visto e revisto, o clima da película é único e fantástico, uma grata surpresa que o Netflix me proporcionou.

Boa noite e até a próxima sessão!

Fontes que contribuíram para o post: youtube.com, imdb.com, adorocinema.com, netflix.com

 

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