Mephisto (1981)

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Clássico. Esta beleza de filme é uma releitura de um dos maiores livros de todos os tempos, realizada de um jeito completamente diferente do original, criando algo novo e também maravilhoso. Mephisto, como o próprio nome já diz, retrata a história do famoso livro de Goethe, Fausto, em um universo de atualidade: no período que precede a Segunda Guerra Mundial, um ator crítico e vinculado à política esquerdista começa a fazer sucesso sem igual na Alemanha, cada vez mais dominada pelo nazismo, e acaba entrando em parafusos; sem saber o que fazer, o ator passa a enfrentar um dilema pessoal: defender a política de esquerda que acredita ou cinicamente esquecer de tudo, se aliar aos nazistas e continuar crescendo enquanto artista?

Numa obra complexa e com quase 3 horas de duração, o filme aborda muito forte um misto de discursos, ora destacando o elemento histórico do período da Segunda Guerra e o rebuliço social causado em diferentes classes da Alemanha, ora citando claramente a obra de Fausto – comparando o ator ao personagem principal da peça de Goethe; numa mistura de realidade e fantasia, o que vemos é, no decorrer da trama, como uma pessoa supostamente normal, um inocente ator do interior, consegue provar do que Goethe já havia escrito no seu conto fantástico: Mephistófeles e a sedução pela verdade ou poder, uma tentativa de um indivíduo em ser além do que poderia, conseguindo o que deseja através da própria submissão, de viver situações que ninguém no mundo estaria disposto a aceitar.

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A interessante reinterpretação de Fausto, neste filme, é um projeto ousado e inteligente, sutil mas com um resultado primoroso. Na obra de Goethe – a mais famosa interpretação de uma clássica lenda alemã escrita e rescrita por muita gente – em busca de todo conhecimento possível do mundo e insatisfeito com as limitações da Idade Média, um cientista e alquimista chamado Fausto aceita um pacto com o demônio conhecido como Mephistófeles, que lhe dará seu objetivo, propondo uma condição em troca: depois da morte de seu corpo, Fausto deve servir para as forças do inferno. No conto, ele aceita o contrato com uma clausula: Mephistófeles deve ser capaz de lhe dar um momento de felicidade tão arrebatador que, por este momento apenas, toda vida tivesse valor, justamente em contraponto ao contrato, um momento de felicidade única para uma eternidade de tristeza (inferno). Considerado um dos marcos da literatura alemã, Fausto é uma daquelas histórias que, mesmo sendo uma obra-prima única (no caso, a de Goethe), ganhou tantas e tantas releituras e, muitas delas, tão boas quanto a original, que é difícil saber exatamente onde a mitologia por trás do livro começa ou termina. Como no caso desta película do diretor Istvan Szabo e com primorosa atuação de Klaus Maria Brandauer, Fausto é só o começo para o panteão criado além do seu tempo e além do próprio Goethe.

No filme, vemos o ator Hendrik Hoefgen que, vivendo fora das grandes capitais alemãs e incluído num pequeno circuito de teatro alternativo, muitas vezes com peças políticas de esquerda, acaba ganhando espaço no cenário nacional. Completamente crítico ao nazismo, o ator é um defensor árduo da diversidade, com amigos judeus e uma amante negra, se vê em meio a um problema de moral. Ao passar a atuar em uma das maiores cidades da Alemanha, Berlim, o partido nacional-socialista toma posse no país. Confuso e crescendo como ator, vislumbrado pelos nazistas, Hendrik entra em um dilema pessoal, ou continuar seu caminho de ator, possivelmente se tornando o maior e mais influente ator de sua época, ou rejeitar tudo em vista de seus conceitos e políticas de esquerda. Claro, como uma reedição de Fausto, a obra deixa muito óbvia a escolha do personagem antes mesmos de precisarmos saber da resposta.

É curioso como o diretor escolhe muito bem os detalhes para contar a peça de Fausto nesta releitura do original, sem exagerar na pieguice e, ao mesmo tempo, mesclando elementos de um universo ficcional com o real; tudo que se passa no mundo do filme é completamente insano mas ao mesmo tempo plausível, misturando a realidade de um acontecimento histórico com a improbabilidade de personagens completamente exagerados em suas ações. Aqui, como Fausto, o ator quer ser o maior de seu tempo, inalcançável, imbatível e se dedica de corpo e alma às suas atuações – em paralelo ao cientista e alquimista que, na obra de Goethe, queria ter todo conhecimento do mundo, se dedicando de corpo para a ciência e assinando um contrato envolvendo sua alma. A figura de Hendrik como o centro da trama, o personagem que está disposto a qualquer sacrifício para alcançar um objetivo particular, o coloca na pele exatamente igual a Fausto. Hendrik não mede esforços para ser quem pretende, excluindo relacionamentos, pessoas, encarando perigos e mudando discursos, o mundo exterior não interessa a ele, apenas quando este exterior seja conectado a sua principal tarefa: conquistar tudo ao seu tempo, ser o maior ator da Alemanha, não importando se esta Alemanha é ou não nazista. Com no original, o ator é ambicioso mas ao mesmo tempo inescrupuloso, passa a compactuar com coisas que muitas vezes não entende, ou necessariamente não quer entender, apenas para alavancar sua carreira meteórica.

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É muito bem executada a ideia do filme, que sagazmente coloca Hendrik como Fausto mas, com um toque de originalidade, não preserva os nomes dos personagens de Goethe; muito pelo contrário, Hendrik alcança o universo sem escrúpulos do Fausto original quando, na verdade, se propõe a interpretar exatamente o demônio Mephisto, personagem oposto a quem ele é; na película, quando Hendrik vive o papel de Mephisto em uma obra teatral, é que vemos a mudança de paradigma e, a partir daí, ele mesmo passa a ser apreciado por uma figura de destaque no partido nazista, sombrio e imponente, um grande político que, este sim, no filme interpretando o papel de demônio. Na tentativa de agradar o ator e, claro, mantê-lo atuando e participando da vida artística da Alemanha nazista, o político está disposto a fazer tudo o que o ator quiser, incluindo livra-lo de acusações, recheá-lo de presentes duvidosos, satisfaze-lo com ótimos papéis, ganhar destaque na mídia mas, ao mesmo tempo que Hendrik esteja disposto a, como Fausto original, se submeter a uma série de coisas e, entre elas, mudar radicalmente sua vida – incluindo, nisto, o apoio ao próprio nazismo, perseguições políticas e um limbo de eliminações de desavenças e não-apoiadores do partido.

O paralelo do filme com a obra original, evidente porém sutil, é um incrível trabalho do diretor. Tentando não entrar no mundo fantástico da peça original, com anjos, demônios e viagens em planos diferentes, o filme aborda toda tragédia de Hendrik, o Fausto moderno, com uma crível realidade de uma época. Mephistófeles, aqui, não é um demônio bíblico, mas uma figura real – um famoso nazista – e não há propostas mirabolantes envolvendo alma e vida eterna, mas apenas um gosto cru pela realidade, o universo maldoso de ascensão do partido nacional-socialista alemão e como, para algumas pessoas, o silêncio ou a necessidade foram motivos suficientes para aceitar um “pacto com o demônio”, como no caso do próprio ator do filme. Nem Fausto nem Mephistófeles são esquecidos da peça original de Goethe, mas reinterpretados em um paralelo surpreendente, onde podemos ver que, para superar limitações, determinados indivíduos estão tão dispostos quanto Fausto a encarar um Mephistófeles da vida real, por assim dizer, e fazer qualquer coisa para alcançar seus objetivos. No começo, vemos um ator aclamado que compreende suas ambições; do meio para o fim, vemos o conflito dele arcando com suas escolhas anteriores e, principalmente, sua decadência enquanto ser humano para poder ser um homem “maior que o seu tempo”. Um filme dividido em atos, mesmo que não explicitamente, podemos acompanhar todo o decorrer do ator, fugindo do seu universo humano e adentrando cada vez mais no pacto velado com o figurão nazista, “tirando sua alma” e o transformando em um boneco de interesses escusos; o ator se transforma naquilo que ele mesmo fazia em peça: Mephistófeles.

É importante entender a figura do ator na história, como o próprio Hendrik diz, “o homem sem face, ele não é ninguém”, isto é ponto crucial para a elaboração do perfil da obra; nela, Hendrik se transforma ao longo da película e, como dois em um, é Fausto e Mephistófeles – que também é o importante nazista – mas principalmente garantindo um discurso que ninguém chega a propriamente falar, mas fica claro nas entrelinhas: somos nós o demônio de nós mesmos; para o ator, não importa o papel, o personagem de indivíduo inocente, mas sim o que ele está sujeito a fazer para crescer e, claro, neste sentido abandonando a própria inocência mascarada de jovem do interior, vivendo ele mesmo o demônio condenável ao ir morar na metrópole, apoiado no discursos nazista de seu admirador e figurão do partido.

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Paralela a grande e maravilhosa história, temos ainda a competência genial do diretor em publicar um filme de quase 3 horas, boa parte sem trilha sonora, mas ao mesmo tempo em um ritmo extremamente suave. Não há cansaço na obra, pouco ou nenhum abuso de cenas longas e sem diálogos, o ritmo do filme se desenvolve muito bem com a história, se passando em vários cenários diferentes e garantindo ao espectador uma falta de acomodo pelo marasmo da repetição, com muitos cortes e mudanças de situação. Tudo é novo, sempre, novas cidades, novas pessoas, novos motivos, novas roupas, novos cenários, somos constantemente renovados ao longo da trama. Com muitas cores e linda fotografia, o filme abusa dos contrastes e muitas cenas que explodem diferentes tipos de tonalidades – outro ponto que ajuda a reforçar o sentimento de não-marasmo. Ainda que o filme tenha pouca ou quase nenhuma cena de ação e se baseie quase que exclusivamente em longas falas e no discurso por trás da história, são poucos os momentos que você não se sente preso a observar toda composição da cena, com cenários belos e muitas e muitas cores, inclusive, desviando o nosso foco das próprias falas. Um filme estético, preocupação com a imagem bonita além do conteúdo, baseado em grande conto da literatura. Talvez o ar extremamente saturado (se referindo as cores) da película seja um trabalho para isto mesmo, buscar ao filme uma cara mais longe da realidade e adentrar na estilística teatral para, com isto, fazer um paralelo com o próprio personagem, também ator de teatro e, além disso, vivendo uma “história real” de um conto literário antigo e fantástico – nosso querido Fausto. Não podemos alegar que a beleza estética do filme não conduza a uma relação direta com a falsidade do personagem, vivendo uma vida de mentiras, talvez, isto seja traduzido também de maneira imagética, com o exagero da visão retratando a caricatura da realidade de forma hiperbólica, como o próprio Hendrik é retratado no filme, enfim, uma figura intensa e falsa em suas crenças.

No final, só nos resta apreciar o todo. É com toda certeza um dos melhores filmes que eu já vi, uma obra gigante além do seu tempo. Merece os louros e o Oscar de filme estrangeiro que ganhou, com justiça, porque é um dos maiores filmes que o cinema e, principalmente o cinema longe de Hollywood, já produziu. O tipo de proposta sugerido pela obra, a sábia utilização de um clássico da literatura, além de uma genial adaptação totalmente nova, é recompensa para os olhos, espectador nenhum consegue reclamar. Um daqueles poucos filmes indiscutíveis, grandioso do começo ao fim e, posso garantir, um dos melhores finais de todos os tempos – chocante e completamente adequado à história do livro! Tira suas 3 horas e vá ver este filme, não perca mais tempo!

Boa Noite e até a Próxima Sessão!

Fontes que contribuíram para o post: imdb.com

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