O Exorcista

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São poucos os filmes que eu assisti mais de cinco ou seis vezes na vida. O Exorcista é um deles. Sublime, mágico, aterrorizante, complexo, histórico, enfim, grandioso. É um trabalho além das críticas, um esforço magnânimo para criar algo tão estranho, tão peculiarmente bizarro, mas ao mesmo tempo clássico e insubstituível; superam-se as barreiras das polêmicas sobre religião e do medo constante que afastou muita gente da tela, aqui, para defender um filme que é atemporal. O Exorcista é um daqueles casos de obra que entrou para a história, não importa o porquê, nunca será deixado de ser citado. Vindo de um gênero tão rebaixado, o terror, é difícil os filmes que ganham um destaque grande para a categoria. Frequentemente falamos de filmes que acabam esquecidos, peças de menor valor que são relevadas pelas gerações futuras e, claro, não é o caso aqui, com motivos de sobra marcou o mundo inteiro, pautando o futuro dos filmes do gênero.

No seu enredo, se alguém ainda não conhece, vemos a história de uma menina (Regan) que acaba possuída por um demônio – o mítico Pazuzu – através de um jogo de Ouija; para se livrar do mal que a aplaca, a mãe da menina, após esgotar suas tentativas de resolução científica, decide que a mesma deve passar por um ritual de exorcismo envolvendo dois padres. Um deles, até então, quase um cético em relação a própria religião, na medida que o outro, um grande pesquisador de demonologia antiga, além de ser um famoso executor de vários exorcismos e, inclusive, com um passado distante envolvendo a própria criatura que dominou o corpo da menina em questão.

A obra causou tanto rebuliço no seu lançamento, foi contestada, virou conversa para a Igreja Católica mas, no final, eternizou-se por motivos óbvios. Todos os acertos na película convergem para um filme muito mais profundo do que as pessoas geralmente percebem, apegadas principalmente a dois pontos que também são importantes, mas não os principais: a maquiagem e os efeitos especiais fantásticos para a época, que conseguiram criar um ambiente de extremo (e eu friso, EXTREMO MESMO), talvez inigualável clima de terror, abusando de situações com efeitos especiais – vale lembrar, em sua maioria efeitos mecânicos, pouquíssimo uso de computadores e/ou efeitos digitais – que até hoje são incontestáveis, objetos se mexendo, pessoas voando, gente escalando paredes, além de uma maquiagem incrível que ajudou a criar o demônio mais emblemático da historia do cinema; somados a estes fatores, a própria participação da menina (a atriz Linda Blair) no papel do demônio que, sejamos francos, tirava e ainda tira o sono de muita gente até hoje, em uma das mais memoráveis atuações de um filme do gênero; tamanha foi a genialidade da participação de Linda Blair no atuação como Regan que, não adiantou, sua carreira começou e terminou neste filme, eternamente estigmatizada pelo papel – para sempre como a menina possuída. No entanto, é um grande engano se você pensa que apenas isto faz deste filme algo tão inesquecível assim.

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Antes de qualquer maquiagem e efeito especial, devemos elogiar primeiramente a dupla William Friedkin (diretor) e William Peter Blatty (escritor), os gênios por trás de tudo que se segue. Principalmente Friedkin, responsável por uma das direções mais maduras para um filme de terror ou de qualquer outro gênero que já tivemos na história do cinema. Muito da essência do ar extremamente macabro deste filme é graças a sua direção primorosa, a sabedoria de criar um crescendo genial, com um começo calmo, desenvolvendo para um meio inquietante e um final em caos total; além disso, um ótimo trabalho de sua equipe em perceber locações, misturar cenários e, principalmente, saber utilizar uma fotografia maravilhosa . O Exorcista não é só um filme assustador mas, antes disso, um filme belíssimo, bonito esteticamente. E talvez exatamente por isto que seja tão perturbador: a noção estética de que algo tão bem feito possa ser algo tão demoníaco, ao mesmo tempo, desperta nosso interesse e nosso medo – estamos presos ao discurso do belo, mas vemos isto desmoronando aos poucos, na medida em que a possessão vai nos mostrando o lado mais horrível daquela situação; nosso universo de perfeição e paz é confrontado ao nos depararmos com o universo insanamente macabro e feio criado pela entrada de Pazuzu, “roubando” qualquer senso de padrão estilístico que até então imaginávamos – ou, como diz o próprio padre Merrin, talvez esta seja mesmo a função do demônio, nos tornar feios e animalescos e mostrar um lado que não estamos acostumados a imaginar.

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Podemos reparar isto no trabalho árduo da equipe, na construção dos cenários da casa extremamente densos e escuros, lúgubres e muito detalhados com objetos e pertences, aliados a uma mistura de ótimos enquadramentos, a câmera perfeitamente colocada na hora certa para captar o lado mais macabro da cena, na busca de montar um cenário aterrorizante para o espectador em todos os sentidos – a estética em favor da desconstrução; a beleza do medo é a óptica do filme, a sensação de pavor que a obra passa mesmo nas cenas longe do seu único demônio, a constante sensação de insegurança é o fruto de escolhas muito bem pensadas pelo diretor e sua equipe, seja no posicionamento de câmera, na locação dos ambientes ou no que for, há uma pessoalidade tão grande no filme e talvez este seja o fator que mais assusta na obra em si: temos a sensação que se trata de um medo real, plausível para nós. O filme exala um ar extremamente “nosso”, uma noção de pertencimento, um sentimento de que toda a construção do projeto é, antes de tudo, uma tentativa de não mostrar uma história distante para o espectador, mas enumerar o grande leque de possibilidades que aquilo aconteça com o próprio espectador em si. Sentimos um medo extremamente grande não por vermos o demônio ali externamente e distante de nós, mas porque acreditamos que todos os envolvidos do filme possam – ou até se pareçam – ser nós mesmos. A graça disso está no âmago oculto do argumento estético, como eu disse, a contradição entre o que vemos e o que sentimos, a segurança do que definimos pelo padrão de beleza desmoronando e dominada pela frieza bizarra de uma criatura horrenda; seja pelos cenários da casa, do ambiente familiar e amoroso que é engolido pela tragédia, os momentos que envolvam os quartos, o aconchego do lar, contrastando com o universo quase mitológico do demônio antigo Pazuzu, tudo isso nos traz um ar extremamente belo porém desconfortável, parecendo com que Friedkin simplesmente fala no ouvido de cada um dos espectadores e tenta exprimir tudo que há de mais horrível e apavorante em nossas almas, assim como o próprio demônio tenta fazer como todos que se aproximam dele.

Porém, não só nisso que o filme acerta. Há também um esforço conjunto, escritor e diretor, em construir uma descentralização que ajuda e muito para o desenrolar do projeto. O Exorcista é um dos poucos casos que não sabemos quem é o personagem principal da película – afinal, quem seria? A mãe, o demônio, os padres, a menina? A construção ao longo da obra mostra uma narrativa um tanto quanto peculiar em não dar destaque a ninguém de forma irregular, sendo todos fonte importante no desenvolvimento da história. De um lado, a mãe aterrorizada sem saber como salvar a filha; de outro, a filha sofrendo cada vez mais com a possessão; além delas, os padres de perfil opostos, um contrastando com o outro e se complementando para deter o demônio antigo, Pazuzu, que mais parece uma versão concentrada e ainda mais maquiavélica do próprio Mephistófeles (citado no artigo anterior). A história tão bem montada por Blatty e tão bem adaptada por Friedkin cria um cenário de constante mutação, ora com participação de uma visão centrada, cética sobre os atos – com a inclusão do padre que desconfia da própria religião ou os cientistas receitando remédios – ora insurgindo no universo sobrenatural da força de criaturas além-Terra, como o demônio Pazuzu e o padre que acredita em criaturas mitológicas e nos trabalhos de exorcismo, ora na pele da mãe e garota confusas, sem saber exatamente no que acreditar ou no que fazer para se livrar daquilo tudo, o meio termo entre os dois lados. Uma história que se desenvolve suplementarmente, explorando os contrastes e abusando de Pazuzu, uma das criaturas mais emblemáticas do cinema, cria um gigante pêndulo de emoções; acabamos nos identificando com todos envolvidos na trama, porque percebemos igualmente os medos e anseios de cada um dos personagens no desenvolvimento do roteiro. Só não nos identificamos, claro, com o próprio Pazuzu, mas o que seria de O Exorcista sem um vilão (se é que o podemos chamar de vilão) tão épico quanto Pazuzu? Este personagem pautou a história não só do filme em si, mas de todas criaturas possíveis do cinema de terror que surgiram posteriormente a ele; se hoje vemos faces destruidas, brancas e vidradas com olhos fixos, se hoje vemos cada vez mais fantasmas de meninas, se hoje vemos inúmeros filmes de possessão, TUDO isto veio em função de Pazuzu. Desde sua voz, um indivíduo extremamente complexo e irônico, explorando fraquezas de todos os outros personagens, o demônio de O Exorcista é a síntese da valorização niilista do mal: ele gosta de ser o que é e apenas isto. Durante todo o filme ele magnetizada todos a sua volta, numa mistura de ódio e medo, criando um sentimento de insegurança contínuo. É engraçado porque são poucos os momentos em que Pazuzu usa de violência excessiva, mas psicológicamente o domínio que ele exerce ao longo da obra faz com que todos acabem temendo-o de uma maneira impensável e até improvável. É bem verdade que talvez ele não quisesse matar ninguém de fato, apenas destruir mentes, mas todos acabam sendo vítimas dele de uma maneira ou de outra, sugados pelo horror que a criatura é capaz de criar em suas vidas; ele os domina com o discurso, mestre na arte da retórica, o demônio expõe todos os medos e fraquezas dos outros personagens apenas com as poucas falas que se dispõe a fazer. Marcando, aqui, a ironia da beleza e da anti-beleza, Pazuzu também demonstra isso; ele é forte, inteligente, rico em conhecimentos…mas usa tudo isto apenas com o intuito de promover a destruição, o fim de todos que tentam lhe confrontar e buscar qualquer tipo de paz de espírito.

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Meus elogios poderiam parar por aí e a crítica já seria justa, mas ainda temos de considerar outros dois fatores também muito importantes. Citei no começo a atriz Linda Blair, mas não é só ela que faz uma atuação magnífica. Tanto os padres, como sua mãe, são papéis muito convincentes e de acordo com a trama; sua mãe (a atriz Ellen Burstyn), desolada por não saber como curar o problema de sua filha, vivendo do pânico de dormir no mesmo teto de uma menina possuída, assim como o cético padre Karras (interpretado por Jason Miller) e o famoso exorcista Merrin (Max von Sydow), todos são elementos importantes para o roteiro e, claro, o filme só alcançou a magnitude esperada porque a sintonia entre os atores era algo sublime. Somos facilmente convencidos dos problemas da mãe, compactuamos com o padre descrente que nem quer assumir o caso, assim como também compactuamos com o padre mais velho, experiente e exorcista famoso. Se há a pessoalidade no medo, há também com cada um dos personagens. Todos os atores desenvolveram indivíduos completamente carismáticos, sendo fonte importante para a identificação do público com a história e, desta forma, reforçando as relações de proximidade com o que é passado pelo filme. Embalamos tudo isto ainda com uma trilha sonora minimalista, presente apenas nos (poucos) momentos certos e com uma das músicas-tema mais característica do gênero, fazendo justiça completa à atmosfera macabra da obra:

Nesta receita quase exata, maquiagem, cenários, diretores, atores, personagens, trilha, universo fictício, grande história, o Exorcista cresce magicamente, mas não apenas no que se propõe, no caso, ser um filme – a ficção que é visível em tela. O simples fato da estranha história e de todo esforço que foi feito para ela existir tornou tudo ainda mais assustador; foram constantes os problemas nos sets, incêndios, mortes de pessoas da equipe que, ao longo de sua produção, foi realmente cogitado que talvez o filme tivesse sido amaldiçoado. Nesta realidade, misturando ficção e verdade, a equipe contratou um padre para benzer os locais e, convenhamos, isto reforça ainda mais a lenda ao redor do projeto, tornando-o ainda mais emblemático. O que se pode dizer de um filme que é considerado um marco do cinema, que conta uma sinistra história de possessão…e que teve de ser benzido na vida real?

No final, vemos uma narrativa complexa em uma proposta simples; não se trata de “um filme de terror sobre demônio” apenas, mas de uma grande sinfonia de situações bem elaboradas. Tratamos aqui de vislumbrar algo poético, a beleza estranha por trás de tudo que há de aterrorizante em nós mesmos – a essência do terror bíblico, de um medo que não podemos escapar, que talvez todos nós estejamos sujeitos; todos nós somos um pouco Regan. Nas falas de Pazuzu e na cabeça genial de Friedkin que foi capaz de criar este universo, desenvolvemos um novo conceito de horror. Um horror que, até o presente, nenhum outro filme conseguiu chegar aos pés.

Boa noite e até a próxima sessão.

Fontes que contribuiram para o post: imdb.com, youtube.com, google.com, filmow.com

 

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2 comentários sobre “O Exorcista

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