Viy

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Talvez um dos filmes mais brilhantes que eu já vi, é bem difícil saber por onde começar a discutir sobre Viy. Acho que o ponto mais importante e, neste caso, o argumento temporal pesa, é o fato de que um filme deste naipe, feito em 1967, ainda seja muito bem feito. Eu geralmente não gosto destas comparações sobre épocas, o argumento de como “o filme sobreviveu bem ao tempo” mas, para Viy, é importante este fato.

Isto porque a obra supera preconceitos. Não como argumento, não toca em temas polêmicos, mas como produção. A obra é constituída em um conto de fantasia-terror, filme feito na Rússia, cheio de efeitos especiais (o que já era raro pra filmes tão antigos) e, mesmo assim, consegue ser espetacular. Quantos paradgimas vemos aqui? Quem espera algo de um conto de terror russo pouco desconhecido? Quem espera que uma produção relativamente barata consiga ser tão bem-feita, longe do brilho da época de ouro de Hollywood? Quem espera que uma gama de efeitos especiais, ainda na década de 60, consigam ser tão bem realizados, ao ponto de, atualmente, ainda olharmos extasiados? Tudo isto, Viy cumpre.

A história trata de um monge chamado para uma cidade, com o intuito de realizar o funeral de uma habitante local e que as pessoas desconfiam ter alguma relação com bruxaria. Ao longo do processo, as especulações se mostram reais e o trabalho do monge torna-se uma mistura de funeral com ritual de exorcismo, tentando livrar o corpo dos demônios que o assolam. A história do roteiro é baseada em um conto escrito por Gogol, publicado em 1835 e Viy faz referência ao nome do demônio que gira em torno da trama. O filme é adaptado sob a direção de Yershov e Koprachyov, com o ator Kuravlev no papel do monge, basicamente o grande personagem em toda película.

Não há muitas surpresas sobre a história e, um conto muito bem escrito, não é exatamente por isso que nos sentimos atraídos ao filme. Os elementos são simples e de fácil entendimento: a figura do bem no monge novato, destinado a uma missão absurda e que nem ele sabe como lidar direito, submetido aos encantos de um demônio maligno e da poderosa Viy, no papel do grande mal no filme, sendo este demônio temido por absolutamente todos os moradores da pequena cidade de campo, onde ninguém ousa mexer com o cadáver que o tomou. Talvez o fato dos poucos elementos da história, poucos personagens e cenários, alias, tenha sido um fator que contribuiu positivamente para a obra; não há invenções, ideias mirabolantes, nada por trás. Desde a escolha de locações aos próprios atores, tudo são apostas seguras e que pretendem não atingir o conto original de Gogol, nem mudar os elementos, nada. Pequenas cidades no campo, a bruxaria, os monges, os aldeões, todos são recriados com a simplicidade da época em que o filme foi gravado mas, claro, referindo-se a própria simplicidade medieval onde o conto se passa, lembrando o bucolismo das pequenas aldeias da idade média, com seus rituais de magia e suas crenças em bruxaria tradicional, onde as religiões oficiais não eram tão fortes quanto os mitos pré-cristãos.

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Não é ai que o filme se mostra um grande acerto, talvez se dependesse apenas disso, não seria uma obra tão cultuada e muito menos lembrada. Quando vemos Viy agir com maestria, discutimos principalmente dois pontos: 1) A grande condução do diretor sobre o roteiro que, milimetricamente, sabe ir afunilando o desenrolar dos acontecimentos – como no conto original – dando um crescendo de fatos que, do meio pro final, torna a obra tão apocalíptica que realmente não parece o que esperamos no início, longe do sentimento pacato e simplista, o que vemos é uma grande espiral de pequenos fatos surreais, ligados à figura do demônio Viy, onde tudo da história acaba envolto na ideia de ver o monge derrota-lo, feito este que parece muito mais difícil e grandioso a cada minuto de filme. 2) A produção da película que, afastada dos filmes de Hollywood e cheios de milhões, soube criar uma gama de efeitos especiais maravilhosos; Viy ganha, principalmente, aqui. Se o sonho do filme era transformar o ambiente do demônio em algo fantástico, com objetos se mexendo, pessoas voado e criaturas realmente assustadoras, tudo isso é realizado na mágica de uma produção ideal, que soube criar com uma maestria singular uma série de efeitos tão lindos, tão fantásticos, que fica difícil descreve-los com exatidão: apenas ao vermos o filme entendemos a magnitude disto. Os últimos 20 ou 25 minutos de obra são, até hoje, um deleite a toda escola visual de monstros cinematográficos; cada situação ali criada é espetacularmente bem feita e crível, bonita não só pela estética mas, como disse no começo, pelo fator temporal. Hoje pensamos “como eles conseguiam realizar aquilo naquela época?” e, de fato, foi um trabalho incrível.

Se a função deste filme, ou de qualquer outro filme, é ideia de elevar o espectador a condição da realidade onde a obra se passa, Viy é perfeito nisso. Do simplismo do campo, à vida pacata do mundo medieval, ao turbilhão de monstros e universos dentro de um demônio cheio de vida e fervor, Viy cumpre o que esperamos ao assisti-lo. Somos conduzidos a acreditar na realidade dos atos e que, tudo que vemos é, talvez, um gostinho do que o monge sente na obra, como se tivesse acontecendo ao nosso lado. Um filme espetacular e de qualquer época, para ser visto e revisto.

Boa noite e até a próxima sessão!

Fontes que contribuíram para o post: google.com e youtube.com

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