Encarando Ali

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Acho que esta é a primeira postagem no blog falando de um documentário; sinceramente, não me recordo, mas acredito nisso. É engraçado porque muitos documentários ficam renegados a um gênero a parte no cinema, como se, talvez, não fossem filmes, ou fossem “filmes especiais”, ou qualquer coisa assim. O fato de que não contam uma história fictícia, ou não seguem uma linha de roteiro com uma narrativa bem delineada, enfim, os deixa em uma categoria diferente. E me parece um erro; principalmente porque, quando falamos de documentários, parece que não estamos falando exatamente sobre o cinema. Grande, espetacular erro. Muitos e muitos documentários, talvez a maioria, são, sim, filmes maravilhosos. Como o caso deste que comentaremos hoje, chamado de Encarando Ali. História simples, resultado magnífico.

A obra retrata os comentários de dez lutadores sobre Muhammad Ali (ou Cassius Clay, como preferir); estes dez lutadores, todos que participaram de embates épicos do boxe contra o próprio Ali, contando os bastidores das lutas, o que ocorria no ringue, os pormenores, detalhes não mostrados e que, somados, construíram a imagem de um dos – senão o – boxeador mais emblemático de todos os tempos. Como mostra ao longo do filme e como todos sabem, Ali sofre de Parkinson e problemas sérios devido a lesões causadas pelo boxe, então atualmente mal se comunica ou aparece em público; o outrora lutador falador e fanfarrão, hoje, não diz uma palavra; e a ideia por trás do documentário é, justamente, “dar voz ao maior de todos”, na visão de quem sofreu nas suas mãos e nos seus comentários.

A produção é espetacularmente bem feita, focando nas entrevistas, a direção aproveita muito bem a cenografia do mundo da luta, das pessoas do boxe, dos movimentos que os lutadores fazem e torna o que poderia ser repetitivo – ver um monte de gente falando sobre como se movimentavam no ringue, como trocavam socos – em algo extremamente leve e bem ditado, com um ritmo muito dinâmico entre cortes, falas e cenas reais dos combates. Seguindo cronologicamente a ordem das lutas, cada entrevista vai mostrando como Ali mudou ao longo do tempo, se tornando uma pessoa mais madura mas, ao mesmo tempo, sentindo os anos da idade e transformando a sua forma de se comportar, tanto publicamente como nas lutas de boxe. Durante sua carreira, como mostram as pessoas que enfrentaram Ali, a figura do mesmo acabou mudando por diferentes fatores; sua personalidade evoluiu com as disputas raciais americanas, principalmente ligado aos movimentos revolucionários dos negros muçulmanos, assim como sua negação em servir a Guerra do Vietnã. Como figura pública, Ali foi um importante destaque na identidade negra americana, se firmando como um ícone da resistência e da liberdade de expressão. Mas, não só isto, no ringue, apresentou uma técnica inovadora de combates, muito dinâmico e veloz, sempre se movimentando (quase como se estivesse dançando), lutando de maneira surreal – muitas vezes de guarda baixa, o que não é comum – provocando seus adversários de todas as formas possíveis, ora com palavras, ora com o desgaste físico.

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E se falasse só da vida de Ali, o documentário já seria genial por si só, porque o que não falta é história pra isso. Mas, muito além, a grande produção faz mais do que deveria – e acerta em cheio. Uma das melhores coisas ao longo da película é mostrar “o outro lado”, não só o de Ali, mas como era a vida de todos aqueles que o enfrentaram. Temos a imagem de Muhammad como o maior lutador de todos e é justo pensar isto, mas pouco sabemos sobre quem o enfrentou – tirando uma ou outra figura mais famosa, como o caso de George Foremam, que hoje vemos vendendo Grills na TV. Por optar na escolha de mostrar a vida conturbada dos adversários de Ali, as dificuldades dentro do mundo do boxe, da pobreza americana e do racismo, o documentário absorve temas belíssimos indo muito além da imagem do lutador carismático, provocando um lado humano à luta e, por isto, trazendo uma profundidade muito maior a própria imagem de Ali; afinal, se ele conseguiu ser grande em um meio tão denso, é porque fez por merecer todo carisma que tem.

Do mundo fora dos ringues, há uma beleza triste, uma coisa quase poética em ver a pobreza da comunidade negra americana e de outros imigrantes, revisitada sob os olhos de quem vivia isto – os lutadores – e a superação para ultrapassar aquele meio através do boxe. Casos de fatalidades, tragédias, incompreensão, o filme retrata muito bem que, as vezes, a necessidade do boxe era, antes de tudo, uma sobrevivência, em um mundo cruel e de fome, onde indivíduos viam uma forma de esperança, ainda que contraditória, ganhando dinheiro e status batendo uns nos outros como animais. Um dos depoimentos mais marcantes do filme, o do adversário Joe Frazier, mostra o lado duro de se enfrentar Ali não apenas no ringue, mas o fato dele, negro também, acabar sendo visto como “um inimigo” dentro da comunidade afro-americana, enquanto todos torciam pela vitória de Ali – símbolo da liberdade racial americana. Impactante, a proposta do filme constrói uma retórica belíssima de enfatizar que não há exatamente justiças e injustiças na vida, apenas acontecimentos; e, estes lutadores, aqueles que ousaram enfrentar o maior boxeador de todos os tempos, presenciaram isto da pior forma possível.

Se há alguma graça, algum tipo de redenção trágica em ver gente que sofre e passa fome sobrevivendo à vida e alcançando um status de celebridade, esta também é um pouco a ideia do documentário. Abordando estas questões sociais, confundido a história de “Muhammad Ali lenda” com a história de “Muhammad Ali pessoa”, vemos um trabalho muito pessoal do diretor, humanizando todos, tanto a figura central da própria história (Ali), quanto seus adversários, assim como o meio em que viviam. No final, claro, sentimos que a idéia do projeto é o propósito de celebrar Ali como o maior lutador de todos os tempos mas, não só isso, demonstrar o cenário onde se cresce este mito, o mesmo cenário de seus adversários e a importância deste meio na formação do caráter de cada um, de suas dificuldades e da redenção de confrontos épicos através do boxe, onde Ali era visto como herói, mas seus adversários não eram vilões – muito longe disso, inclusive. O boxe do filme não é uma mera luta de duas pessoas, mas um significado, o boxe ganha contornos de luta contra as mazelas sociais, a luta contra o preconceito e a oportunidade dos imigrantes residentes nos EUA ascenderem na sociedade de alguma forma, superando todos os problemas de suas famílias, de suas comunidades e da falta de base social, através de confrontos no ringue, transmitidos e famosos durante muito tempo. Ali, no filme, passa a ser muito mais humano, assim como seus adversários, mostrando que, no fundo, não existiam lados a se escolher, apenas esportistas tentando dar o seu melhor com seus truques e vantagens.

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Um grande projeto, maravilhosamente bem explorado e muito bem medido. Sensato, bem feito, no ponto, com quase duas horas de filme você não sente o tempo passar; muito além disso, você pouco liga para o fato de ser um documentário, com uma dinâmica muito boa, a sensação é de ser um filme igual aos “filmes normais”, com uma narrativa de começo, meio e fim, com direito a uma redenção digníssima no final. Vale pena ver e ser revisto e, pra completar toda mágica desta obra, ainda somos brindados com muitas, MUITAS cenas das lutas, em ótimos ângulos e ótima qualidade, podendo compreender porque, no ringue, nunca existiu alguém como Ali.

Boa noite e até a próxima sessão!

Fontes que contribuíram para este post: google. com, netflix.com

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