O Túnel

1

De tanto garimpar na internet, você sempre pode achar algo útil. Mesmo nas piores perspectivas, há de aflorar algo, ali, escondido. É o meu caso, especialmente com o gênero dos filmes de terror. Vou atrás, procuco e, na maioria das vezes, me arrependo com o número de filmes ruins que acabo vendo; porém, vez que outra, sim, eu consigo achar algo bom, ótimo. Foi o que aconteceu com O Túnel (The Tunnel), mais uma daquelas obras que vieram na leva destes terrores “baseados em fatos reais”, feitos como se fossem produções de filmagens amadoras, gravadas pelos próprios personagens (handmade) e contando histórias que, supostamente, aconteceram de fato (found footage). Esta escola que ganhou popularidade com A Bruxa de Blair, sofreu um boom com Atividade Paranormal e, basicamente, se tornou fórmula pra tudo que é estúdio ou pessoa fazer o seu próprio filme com um orçamento relativamente baixo. Na maioria dos casos, o orçamento baixo acompanha o baixo potencial do filme; porém, não é o caso deste.

O Túnel já começa operando fora de alguns clichês deste sub-gênero do terror quando resolve fazer duas escolhas primorosas e que eu considero essenciais para a qualidade do filme: 1) Como o espectador pode perceber nos dois ou três primeiros minutos de filme, há uma série de sobreviventes na história contando a sua versão dos fatos, mais ou menos como se fosse um programa de entrevistas; isto, além de fugir do clichê clássico neste tipo de filme de que “todo mundo morreu e as fitas foram achadas pela polícia”, ajuda a dar uma dinâmica diferente à história que, vista pelos olhos dos personagens que viveram e sobreviveram, ganha um ar muito mais denso, muito mais importante para compreender o lado obscuro e sobrenatural dos supostos “fatos reais” que, óbvio, todo mundo sabe que não são reais – mas, se a suposição é fingir esta lógica, ao menos seja bem feito, como no caso desta obra. 2) O segundo ponto para O Túnel fugir dos clichês é, justamente, não ser uma gravação tão amadora assim; como conta a história, supostamente as vítimas do caso são jornalistas gravando um documentário e, claro, como jornalistas, os equipamentos utilizados para realizar as filmagens são câmeras de boa qualidade (ok, você pode dizer que REC também é assim, porém REC não utiliza este fato tão bem – e isto é notável ao comparar os dois filmes). Neste sentido e muito bem-vindo, fugimos daquele bando de filmagens corrida, toscas e escuras, que tentam dar um ar de verossimilhança ao amadorismo de quem controla a câmera; como os personagens de O Túnel supostamente sabem operar uma filmadora, as gravações são boas em grande parte da película e isto se torna um fator importantíssimo para o projeto, também.

2

Por estes dois fatores principais, a película não tenta enganar e não foge da premissa básica do cinema; O Túnel não é, como outros filmes deste sub-gênero, um emaranhado de imagens soltas e tremidas, escuras e mal feitas, confiando em sustos baratos que pululam na tela sem luz e sem cor entre um corte e outro. Construído muito bem utilizando estes dois elementos citados anteriormente, o filme aborda um lado muito mais maduro para o gênero, montado em uma história não muito inovadora (sejamos justos, não é o ponto forte do filme) mas que, ao mesmo tempo, explora muito bem suas limitações do roteiro, confiando num ótimo argumento estilístico; usa-se e abusa-se do estilo, da beleza macabra, solitária e claustrofóbica do ambiente onde a história se passa e faz isto muito bem. Foge de tentar dar constantes e pueris sustos para, ao invés disso, construir um clima de suspense como há tempos eu não via em um filme. Da utilização de cenários muito bem montados, o medo se constrói na cabeça do espectador (em grande parte do filme), onde absolutamente nada é mostrado, além de longos e bizarros corredores vazios e silenciosos. A tensão é fruto da imaginativa montagem do diretor, que confia muito bem nas locações e utiliza-as quase como um método torturador a quem vê o filme, onde você se pega imaginando constantemente “o que vai acontecer agora?” e, efetivamente, o medo só ocorre porque você pensa nele.

3

O Túnel não trata de monstros mirabolantes nem de vilões fantásticos; embora tenha criaturas bizarras, como todos os filmes deste tipo, ainda assim, não é isto que importa. O medo, aqui, é o ambiente; os horríveis e solitários túneis, intermináveis, incontáveis e cheios de histórias. Neste ponto e, méritos do diretor, há um acerto importante: se a idéia dos filmes “baesados em fatos reais” é construir uma pessoalidade com os personagens, explorar o ambiente como forma de terror acaba construindo uma verossimilhança muito maior à obra, justamente porque nos sentimos como os personagens, ali, apavorados apenas por estar naquele local, com desconfiança do desconhecido, do que não se pode ver – exatamente o contrário de outras obras do ramo, que se apegam a construir o medo no que a gente pode ver. Os atores também contribuem para a trama e, se a história não apresenta nenhuma grande novidade, é importante confiar nos personagens; grande ponto alto das atuações é que, literalmente, os personagens não são chatos. Não gritam toda hora, não correm como baratas tontas, não ficam constantemente chorando – mesmo os sobreviventes ao narrar os acontecimentos. Parecem pessoas muito mais reais e menos forçosas que a maioria dos filmes concorrentes, onde sempre há uma construção vazia de personalidades forçadas para validar a história através da estupidez de ações pouco críveis por parte de pessoas normais. Aqui, não vemos isso. Personagens agem como pessoas plenamente plausíveis e isto também é um ponto alto para construir o clima de suspense, levados pela idéia de que “poxa, eu também faria isto” e não algo como “isto é surreal demais para existir”.

E por todos estes méritos, você abstrai. Esquece que já foram feitas milhões de obras recentes com esta lógica parecida; esquece que este filme não é uma obra-prima e tampouco inovador; esquece que não é uma grande produção. E passa a gostar do projeto pela sinceridade do resultado; você vê o filme descompromissado, desapegado e é surpreendido: uma grande obra do terror, onde você não esperava nada! O Túnel acaba sendo muito válido e, não só isto, um dos filmes que mais se destaca nesta lógica found footage tão repetida. Vale a pena ser visto e elevado a categoria dos ótimos filmes de terror, é uma grande surpresa, embora subestimado. Vale a pena ver!

Boa tarde e até a próxima sessão

Fontes que contribuíram para o post: filmow.com, imdb.com, google.com

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s