Festim Diabólico

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Existem coisas injustas da vida e uma delas, que eu nunca consegui compreender, é o fato de Festim Diabólico passar tão em branco. Ok, Hitchcock escreveu um montão de clássicos e ótimos filmes, mas como este nunca entra nos seus tops? De uma aprovação bizarra, a gente sempre vê o pobre Festim relegado ao segundo escalão, sem conseguir imaginar o motivo. Uma mistura entre simpleza, com um roteiro dentro do que se espera, mas em uma ousadia de montagem fantástica, vejo esta como a obra absoluta do “mestre do suspense” e, além disso, um dos meus filmes preferidos já feitos.

Festim Diabólico conta a história de dois estudantes inescrupulosos que matam um terceiro estudante e, para testar os limites da noção, convidam amigos para um jantar – com o corpo escondido na sala. Neste jantar, um dos professores começa a desconfiar de tudo e tenta revelar o mistério. Como dito, claro, não é no aspecto de história o grande destaque do filme; a genialidade de Hitchcock se deu ao desenvolver o roteiro em um único plano-sequência (que sabemos ser fake, claro, porque os rolos de filme não eram grandes o suficientes para uma gravação de mais de uma hora), mas que acaba mostrando toda a obra em uma única sequência, desde o convite ao jantar, incluindo tudo que se passa, até o final e resolução do mistério, enfim, o filme se segue como se não houvessem passagens temporais. E neste universo de único plano-sequência, compensamos a simplicidade da história com um amontoado de motivos para achar este filme sensacional.

Começamos com uma das atuações mais memoráveis de James Stewart, no papel de professor, um misto de humildade e conhecimento que o transforma num dos personagens mais enigmáticos elaborados pelo cinema de suspense. Embora duvidemos do potencial dos convidados, o professor liga os pontos de maneira espetacular e, na falta de provas ou referências, vimos este desenrolar pela atuação impactante de Stewart, sendo muito importante para a compreensão do roteiro a maneira como ele toma conhecimento da situação através de suas expressões, deixando bem evidente que as opiniões, falas colocadas pelos dois alunos, são um aspecto crucial na hora de evidenciar o crime até então oculto. Em um misto de imagem (expressões) e fala, com diálogos muito bem montados e executados, o papel ganha destaque e tem um grande peso no filme, afinal, discutindo sobre a natureza da morte (“pessoas intelectualmente superiores podem cometer crimes e se livrar?”), desde a chegada de James Stewart à tela até o final da obra, em nenhum momento nutrimos sentimentos de empatia com os assassinos, em grande parte pelo apelo do próprio ator, sendo um grande “mocinho” para Festim, transparecendo bem as condições de “bem” (nele) e “mal” (no papel dos assassinos).

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No desenrolar desta dualidade entre personagens, temos a magnânima presença do diretor na montagem da obra, sabendo criar o plano-sequência sem nenhum furo aparente e, não só isto, desenvolvendo um peculiar senso de passagem do tempo que dinamiza um cansaço ao espectador – que se sente parte da obra, do jantar, do plano, enquanto eles vão demonstrando cansaço no filme, quem o vê também se sente assim – mas que curiosamente não dialoga com a realidade. É engraçado isto porque, supostamente, um plano-sequência efetua uma passagem filmada sem cortes e, através disso, deveria se ater a cronologia do tempo porque podemos perceber isto; no entanto, Hitchcock monta por poucos elementos um cenário onde o tempo do filme é mais rápido que realidade (o filme tem menos de duas horas e no cenário dura quase um dia) sem que sequer notemos isto; tudo pode ser visto numa breve janela de fundo, com o passar do Sol ditando as horas. Este fato é importante para a trama porque nos ajuda a extenuar a situação dos personagens maus – os assassinos – que parecem querer perdurar a ação do crime, tornando-os figuras ainda mais nefastas, enquanto o lado bonzinho, na pele do professor, quer acabar com tudo aquilo o mais rápido possível. Neste universo, se vemos o dia passar e ficamos cansados como espectador, invariavelmente nos sentimos mais longe ainda dos assassinos que, tendo em vista seu caráter, são os “culpados” por tudo aquilo, colocando em cheque uma suposta moralidade de superioridade.

Esta moralidade, por sua vez, muito discutida no filme; ganhando muito destaque por causa do roteiro simples, os diálogos longos são fantásticos, trazendo a tona um efeito importante para o desenrolar: o próprio discurso implícito em cada momento. Nele, vemos os assassinos colocando em dúvida uma sociedade democrática baseada na crença de que pessoas intelectualmente superiores não deveriam cumprir as mesmas obrigações legais que o resto da população, enquanto o professor combate esta ideia e, não só isto, percebe através das falas o que ambos os estudantes pretendem com aquela retórica. Em um universo filosófico, Festim Diabólico nos apresenta uma distorção do niilismo representada na (falta de) escrúpulos pelos estudantes, enquanto vemos a figura do professor quase como um elemento Socrático, defendendo virtudes e valores sociais clássicos, expressos numa figura de autoridade, enfim, o tutor que quer ensinar os alunos rebeldes.

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Compensando a falta de necessidade de um roteiro elaborado, a inserção de diálogos existenciais e quase políticos torna o filme – relativamente parado por se passar todo no mesmo cômodo – em um grande triunfo do diretor. Explorando as limitações e os pontos positivos, é um enorme esforço de Hitchcock em fugir do apelo visual de cenas de ação e perseguições, colocando em Festim Diabólico um universo mais denso e maciço no mundo das representações, tanto com ótimas atuações como ótimos discursos. Neste sentido, ainda que um pouco diferente do resto, Festim Diabólico é essencialmente inovador; e mesmo relativamente calmo e sem maiores cenas de ação, o desenvolver do suspense na trama faz uma obra angustiante. No papel de observador do espectador, é comum que, com o passar dos minutos, o clima se torne cada vez mais inquietante e bizarramente claustrofóbico, vendo o plano dos assassinos desmoronar e um crescendo intelectual do professor, que fica cada vez mais perto de acabar com o lado oculto do filme, porém, é impedido disto por pequenos fatores fora de seu alcance.

Festim Diabólico acaba como começa: ousado e simples, genial, fantástico e inovador. Deveria, sim, figurar pela sua importância em qualquer lista acima do que lhe cabe. Uma ótima obra e um triunfo de esforços maravilhosos, vale a pena ser visto e revisto!

Boa tarde e até a próxima sessão! fontes que contribuiram para o post: www.google.com, www.imdb.com

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