Melancolia

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Tivesse Lars acertado o título deste filme, não seria Melancolia mas, ao contrário, algo como Übermensch. Um erro notório porém justo, dado o teor da obra, era de se pensar que o diretor optaria por, mesmo com uma óbvia linha de excecução, errar em compreender o próprio resultado do que criou. Faz parte, claro e, julgando pela trajetória de Lars von Trier, é bem provável que a dualidade tenha sido um fator motriz para a criação, inclusive em aspectos importantes ao longo da trama, Melancolia é um filme de contrastes, extremos e de renovações. No entando, não deveria se chamar como se chama.

Digo isto porque Melancolia é mal confundido per se, tido com uma visão muito mais negativa sobre os aspectos dos seus personagens e de suas formação imagética enquanto figuras inseridas em determinadas realidades, acaba sendo levado a sobrepor um suposto discurso de interpretações das tristezas – como o próprio nome diz, afinal, falemos de Melancolia, o planeta, a pessoa, a família, a vida, ou o que quiser – num cenário de atos, quase como um espetáculo, a ascenssão e queda de duas irmãs, opostas em tudo, onde uma (Justine) contempla os extremos dos sentimentos alegres e tristes, enquanto a outra (Claire) contempla o aporte seguro, sempre comedida, racional, centrada, mas não como organismos separados, que se compreendem como formas independentes; das ações do filme e do fruto de seus resultados, todos funcionam como adições de um discurso maior e mais impressionante, muito além da visão de uma tristeza suprema ou algo do gênero. De fato, ao longo da trama, pouco importa o pano de fundo, ele é submetido à retórica apenas como forma de podermos correlacionar o discurso de Lars através disto, ora no casamento, ou campo, planetas se aproximando, ou família rica, apenas funcionam como uma etapa, um meio que justifica o fim: a visão dos personagens na tutela do espectador que, destinado a interpretar uma ficção, vê, ali, o debate das condições humanas, o aprofundamento de sentimentos e personagens lidando com a vida como ela é, um equilíbrio de momentos felizes, tristes, bons e ruins, as vezes, todos em um curto espaço do mesmo tempo.

Mas não é exatamente por isto que vejo como um erro a escolha do nome, embora de grande valor poético (afinal, a palavra é esteticamente muito bonita), claro, tapa o fator mais importante do filme, vivído na superação da personagem Justine – que, inclusive, podemos arriscar dizer ser a personagem principal da obra. Na pele dela, no desenrolar dos dois atos, vemos um conflito interno não só no caráter do personagem encarado na temporalidade da ficção, muito além disso, podemos observar um desenrolar filosófico, em uma visão totalmente niilista de como Justine evolui de uma incerta e insegura pessoa, correspondendo as pressões de um casamento (supostamente) forçado, um trabalho ingrato e uma família estranha e ausente, tendo que se mostrar constantemente feliz com obrigações que, em muitas vezes, sequer falam com os interesses da própria Justine e como esta visão moral do mundo, das instituções sociais, acaba sucumbindo exatamente no casamento dela própria, passando por um processo de depressão e profunda tristeza e ascendendo com uma sabedoria universal além-morte, além-medo e, principalmente, sem obstinações externas, apenas com o prórpio Eu. Do amadurecimento da ideia, vemos a transformação dos aspectos discursivos e das visões da personagem em encarar a realidade, primeiramente centrada na valorização de entidades além dela mesma mas que, sofrendo pelo processo, acaba ruindo ao ponto de pouco importar para a introspecção do descobrimento: Justine, afinal, confronta internamente suas relações para entender que o seu Eu é, de fato, a única coisa que importa para seguir adiante. Desapega daquilo que lhe abate para vislumbrar um novo mundo onde o que é importa é exatamente o Nada, nada além daquilo que ela quiser ou imaginar, inclusive a própria vida.

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Por esta evolução do personagem, é injusto ver Melancolia como um tratado sobre a própria melancolia; sim, claro, embora a tristeza, a depressão e os momentos mais baixos da(s) personagem(ns) sejam aspectos importantes a obra, ainda assim, tudo que se passa não é por conta da tristeza como um fim em si, mas uma passagem, um rito necessário para a compreensação do argumento futuro que, no caso, é muito maior e mais dinâmico para Justine – e nós, espectadores – vendo nascer a transvaloração de todos os valores a que ela se submetia, quando já no final ela se percebe além de qualquer coisa, bem e mal, deixando de ver o mundo terrendo sob a óptica da, digamos assim, “antiga Justine”, para ver o mundo – que, ironicamente, não mais existirá – como uma “nova Justine”, livre, Übermensch e voltada a uma realidade onde ela é o processo dos acontecimentos, a felicidade e a ação que se relaciona com a própria personagem, não com as necessidades de cumprimento para instituições sociais que, para própria Justine, pouco importam.

E neste belo discurso oculto, ainda podemos observar os toques do diretor, que brilha sublime não só na composição do roteiro, mas também em alguns aspectos técnicos; Lars von Trier consolida uma ideia profunda nas suas escolhas bem elaboradas, mas o que se destaca é uma fotografia maravilhosa – como, por exemplo, aquela introdução em câmera lenta – além da fantástica trilha de Tristão e Isolda potencializando o drama por trás do espetáculo encenado no filme, bem representado na escolha de uma música para exacerbar ainda mais a dualidade das relações da película, expondo uma peça clássica do amor e das inconstantes passagens de dois personagems dramáticos, o ponto alto da obra: Terra e Melancolia, A irmã exagerada e a irmã centrada, Pai hedonista e Mãe comedida, A falsidade de um belo casamento em contraponto ao fim inesperado, o apoio estético/social em mentiras de relações infundadas, a alegria e a tristeza, o começo (no ato de casar) e o fim (no ato de ver a Terra destruída). Toda argumentação de Lars é contida, também, na peça de Tristão e Isolda e, como bela homenagem, colocar a trilha no filme faz bem ao caráter dramático e hiperbólico, quase caricato aos personagens que, sob um aspecto teatral, ficam ainda mais irreais dentro da história exposta mas, em contradição a isto, acabam exatamente mais reais na experimentação dos seus sentimentos, familiarizando o espectador com a noção apresentada na retórica do filme.

Uma bela escolha, um projeto muito bem montado, para mim, o mais completo da (ótima) filmografia do Lars, vale muito ser visto, revisto e guardado com carinho no lugar de grandes obras. Um ótimo pedaço de obra de arte, uma direção fantástica e atuações sensacionais. E que todos nos possamos nos magnificar sob a luz de Melancolia…que existe para nos falar como a melancolia é apenas um passo entre as coisas.

Boa noite e até a Próxima Sessão!

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