Fuga de Nova York (1981) / Los Angeles (1996)

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A dupla implacável e sincera dirigida por John Carpenter é um ode ao trash de uma maneira sensacional e talvez única. Tanto o primeiro como seu sucessor (Fuga de NY, de 1981 e Fuga de LA, de 1996) nos trazem um prospecto surreal e ao mesmo tempo incrível, um universo de ação rico em detalhes porém financeiramente simples, uma produção bem sucedida no seu cerne mas ao mesmo tempo dúbia. Isto porque faz uma mescla muito bem construída de grandes cenários com atuações e efeitos baratos, elevando uma fórmula traduzida em assinatura do diretor que não parece conversar ao erro, pelo contrário, mesmo quando se erra parece um grande acerto simbólico.

Talvez sejam os próprios filmes de Carpenter em si que tenham construído a imagem do anti-herói dos anos 80, solitário, machão e cheio de dúvidas morais ao espectador (que vê o bandido encarado como salvador), posto numa missão onde ascende para o perdão de todos seus erros, terminando num emaranhado de significados entre o herói ou libertador mas ao mesmo tempo cidadão suprimido pela sociedade, levado e mantido no desvio de caráter por forças conduzidas além de seu domínio. Pouco se carrega da construção de um personagem simples que se espera; de fato, o anti-herói de ação é um símbolo marcante da esperança de um tempo sombrio, pós-guerra e de desigualdade social e cultural, fruto da geração dos anos 80: ele surge nos nichos mais obscuros e sobrevive às mazelas como pode. Por isso, em nenhuma das duas passagens Snake Plissken é apenas o que parece – a atuação extremamente caricata e por vezes mal feita de Kurt Russell – mas sim um ícone, um marco ao universo da própria necessidade do filme: é daquele jeito e apenas por aqueles métodos que um grande símbolo da ação deve se portar. Pouco importa a conduta duvidosa e a pouca exigência no caráter da escolha da atuação, John Carpenter conduz com Kurt uma espécie de honestidade às avessas, trazendo uma figura que não precisa de nada, nem seriedade, para provar a essência de um personagem grandioso e, antes de tudo, consagra-lo como o grande salvador do Mundo Ocidental – ainda que por métodos estranhos.

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Nestas escolhas dúbias, apresentando um tragicômico fim de mundo, que a direção e o grupo de atores constrói um universo pós-apocalíptico bizarramente teatral, longe da realidade de possibilidades críveis (afinal, aquilo nunca vai acontecer. Não daquele jeito), pouco importando a falta de honestidade para estes filmes. Falemos de um grande palco imaginário, invisível, onde tudo é um grande cenário, um grande teatro – é assim a NY e LA, apresentadas não só pela falência da metrópole impostas na ficção do roteiro, mas também como o fim absoluto de qualquer dignidade estética, sim, um grande espetáculo outrora imponente, agora de baixo orçamento, mas que cativa pelos seus exageros, seus erros, sua degradante história, apresentada ora com doses hiperbólicas de ação, ora com um humor involuntário pela falta de critérios, ora com seus personagens exagerados e marcantes, criaturas que condizem com nosso cotidiano – mas também se encaixam na ficção da película. A transposição da realidade corrobora a própria função de comparação com o teatro, nas extravagâncias necessárias para construir o mundo fictício e visual das atuações super-dimensionadas do espetáculo, as metrópoles de Carpenter não existem e não existirão de fato longe da obra mas, nem por isso, são menos interessantes de se ver; além de, pelo seu exagero, contarem com uma visão sombria do que em essência são nossas cidades reais. Vivemos em mundos assim, irônicamente, mais longe do que imaginamos nos filmes de ficção/ação, mas também mais perto do que podemos perceber.
Há uma beleza poética na soma dos discursos da produção; como dito, os erros são confundidos e, no geral, podem ser interpretados como acertos; criando uma improbabilidade lógica na execução do projeto que o transforma em si num grande filme de ação, mas não apenas pela ação, sendo também estranhamente belo, único, com um definido grupo de imagens concisas que o dignificam por uma grande linguagem, talvez criando ou reforçando (muito bem) a construção do caráter cyberpunk, do futuro pós-apocalíptico, principalmente no primeiro filme (Fuga de NY), quando Carpenter nos trouxe uma proposta característica de um estilo conciliado muito tempo depois em outras obras, tanto no cinema, como no video-game, como em videoclipes: no mundo POP, enfim. As cidades pós-apocalípticas do cinema transbordam o “antes e o depois” dessa dupla de filmes, que funcionam como uma referência gigantesca ao gênero, sendo um grande patamar ao argumento estilístico por trás dos seus sucessores.
Pouco importa da obviedade na construção do roteiro; sabemos do começo ao fim como as coisas vão rolar ou porquê, nada ali é exatamente uma novidade, não em sua concepção pela história, mas o grande acerto de Carpenter é a renovação do discurso, criando um universo rico e conciso dentro de uma trama que todos esperam – a ideia da fala através da imagem auto-explicativa; o filme é puramente sua estética. A trajetória de Snake Plissken acaba se diferenciando das outras não por ser o que é, mas COMO é apresentada. Carpenter, mais uma vez, grande gênio subestimado, inova sem sair do lugar. Vale a pena ver e rever.

Boa noite e até a Próxima Sessão!

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