Lords of Dogtown

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Por vezes a arte imita a vida, ou vida que imita a arte, as coisas se confundem na linguagem: pra que serve a arte afinal? Se acreditamos no cinema como arte e, se ele se faz contando histórias – imagens dispostas dentro do seu próprio conto – a construção de personagens e suas relações, das ficções mostradas em uma ou duas horas, expressas ao espectador em um mundo limitado, predominantemente visual, preso ao que está enquadrado na tela, como poderia nos contar sobre a realidade? O cinema não a é, mesmo (as vezes) tentando fugir, se limita por espaço, tempo, necessidades de produção e, ainda que tente, é um grande produto ficcional. E é por isso o meu grande pé atrás com a maioria das biográficas ou “baseadas em fatos reais”, justamente por se tratar de uma tentativa cinematográfica em alcançar aquilo que não pode: uma impressão literal da vida. Uma literalidade falsa, enquadrada em planos, resumida em momentos específicos, uma soma da interpretação da equipe que produziu naquilo que acredita sobre um (ou uns) indivíduo(s). Mesmo que fiel, não é a totalidade dos elementos. Mas nem por isso é sempre falha. As vezes a tentativa é bem-vinda e, como exceção, surgem os casos em que a arte, a ficção do cinema de tentar retratar a vida, sim, se misturam magicamente com ela.

Voltando um pouco a fita e indruzindo o argumento, é importante lembrar o contexto onde surge a essência de Lords of Dogtown, principalmente a se pensar no viés da própria genialidade do grupo em si: os Z-Boys, como eram conhecidos, foram as principais figuras do mundo do skate a, antes de todo mundo, mesclaram diferentes elementos para definir um estilo único para o que viria a ser um dos maiores esportes modernos; graças a eles e apenas por eles, o skate é como nós conhecemos: uma mistura de atitude singular com movimentos oriundos das inovações do surfe contemporâneo, além da ocupação de espaços urbanos improváveis para seu aproveitamento como prática. Dentro disso, pouco importa o porquê, mas exatamente como isto surgiu: o estilo. A importância do estilo foi para todos os Z-Boys o grande marco definidor de uma identidade, criada e moldada por eles, baseada principalmente na visão de cada um no meio, unindo o esporte não apenas como apoio, mas sob a égide da quebra de paradigmas estéticos, criando a sua própria imagem (e isto é, inclusive, comentado no documentário Dogtown & Z-Boys – mas isso é outra história). É fundamental entender a importância do estilo no universo dos Z-Boys, justamente para apreciar como o filme engrandece o mito, ainda que com caráter biográfico, melhor do que qualquer outra biografia possível: ficção e o que é verdade ou não na história pouco importam ao desenrolar da trama. Afinal, a grandiosidade de Lords of Dogtown existe exatamente como seus personagens – figuras reais no mundo real, mas também como notórios personagens ficcionais na película – onde o que importa não é a documentação exata da vida, ou os detalhes possíveis nela contida, mas apenas como isto pode ser expresso com estilo, como construção de uma lenda maior que a realidade.

 Lords of Dogtown

Lords of Dogtown é um filme sobre estilo. Na imagem dos principais garotos por trás dos Z-Boys, não trata apenas de contar como tudo foi introduzido ou como estes mesmos garotos desenvolvem históricamente sua vida: esta, retratada no filme, é um constante acúmulo de teatralidades, dispostas a definir uma imagética característica para cada um dos personagens, seja Alva como o centro do Universo, Peralta como o garoto certinho, ou Jay Adams como o rebelde talentoso. Na vida, claro, ambos são como no filme. Mas no filme não se comportam como na vida. São maiores que ela, mais escrachados, mais intensos, mais hiperbólicos, mais ficção e menos realidade – não, porém, diferente da mesma – confundindo nossa noção dentro de uma biografia que não funciona como tal (e ótima por este motivo peculiar), afinal, ambos os mundos (realidade x ficção) ficam dispostos no mesmo plano, na mesma introdução de ideais: eles existiram como uma história real factual ou como a lenda contada no filme? O plano fundamental a uma película, contar uma história fragmentada em momentos, funciona exatamente por este caráter – exacerbando os pontos necessários ao que precisamos saber para confundir esta noção das coisas, ora heróis, ora humanos, ora fatos, ora fantasia.

A escolha por determinados elementos reforça o espírito da coisa, ajustando o caráter de uma geração de pessoas para nos colocar em contato ainda mais com o discurso do estilo, através de escolhas pontuais pela equipe na produção, forçando o espectador a entender que se trata exatamente disto, o filme é grande ode à personalidade impossível daqueles indivíduos. Isto fica claro em alguns elementos pontuais; primeiramente na escolha da trilha sonora, acompanhando boa parte dos momentos passados no(s) andar do(s) skate(s), ditanto ritmos e sentimentos mas, não só isto, apresentando um cenário de músicas fortes e de figuras também potentes a sua época pela força da imagem – Jimi Hendrix, Iggy Pop, David Bowie, Neil Young, entre outros. A importância da música para as cenas e as manobras reforça ainda mais a construção essencialmente estética do discurso, afinal, o projeto não pretende mostrar apenas “garotos que andavam de skate”, muito menos a linearidade de suas vidas ou os aspectos urbanos onde estavam inseridos. A música no filme reforça exatamente a profundidade de sensações sobre a rpresentatividade dos Z-Boys ao mundo: a ideia de atitude, da originalidade daquele momento, o estilo criado ao mundo. Mas, não só pela trilha, outro elemento importante a este aspecto é a falsificação evidente das cores; exageradas, saturadas, acima de tom, mudam a eventualidade da (falta de) cor do mundo real, criando um cenário que se transforma exatamente como as pranchas produzidas por Skip na sua loja, muito além de seu tempo e maior do que ele, uma importante figura de identidade para aquela geração. Andar de skate era para aqueles personagens do filme e pessoas da vida real muito mais do que simplesmente andar, exercendo um papel quase ritualístico para todos. E a proposta de um ritual é exatamente como se expressa no discurso dos Z-Boys, assim como a montagem do filme pelas suas escolhas de produção: extrapola a noção dos fatos e mescla os mundos – o possível e o impossível – em ações que reforçam o mito; aquele, no caso, o skate como figura principal, edificante, o caráter e a personalidade dos indivíduos.

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Do ponto de vista histórico, enfim, podemos falhar estritamente com tudo. Lords of Dogtown não planeja contar detalhes e mais detalhes de ninguém, nem se aprofundar em discussões factuais sobre acontecimentos. Como seus principais personagens, assim o filme condiz com isto; despojado, simples e forte. Claro, por sua atitude, pela presença, a diretora soube exprimir melhor do que ninguém a revolução do skate apresentada pelo Zephyr Team. Não com palavras, nada mirabolante, apenas como os próprios indivíduos na vida real o fizeram: com muito estilo. Lords of Dogtown é um filme sensacional, valendo ser visto e revisto várias vezes.

Boa tarde e até a Próxima Sessão!

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2 comentários sobre “Lords of Dogtown

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