Duna, de Jodorowsky

Isto não é apenas sobre o documentário de Frank Pavich, mas sim o valor da ambição:

1

Existe uma força quase tátil, visível, na vontade constituída pela potência. Quando presenciada é algo absurdamente maior do que todo tipo de expressão; obriga o universo a existir perante a própria ideia constituída na vontade: não há sentido se não for aquilo que ela pretende ser como quiser, criar, perpetuar, vislumbrar. Neste caso, é um poder que demanda tanta energia ao ponto de se justificar assim, necessário em si, hermético no seu ciclo. Quando podemos presenciar estas coisas, observamos algo mágico, perplexos diante de um ponto singular da existência; nada será igual após aquilo. Nada. Ainda que, ironicamente, sua criação não chegue a existir, a vontade aplicada naquilo se torna a própria obra, talvez, com força mais mística, mais grandiosa, justamente na possibilidade imaginária do resultado nunca efetuado. A falta de conclusão do ato é o eterno sonho impossível, magnânimo, maior e mais poderoso que a vida…mas ainda assim um sonho, algo que só existiu como ideia; esta ideia, tão gigante e revolucionária que irá justificar todas as criações posteriores a si, mas também tão gigante e revolucionária que não poderá existir no seu tempo.

Poucas são as situações que conseguem expressar este sentimento. Poucos são, de fato, os homens que tentam isto, que são capazes de perceber um ínfimo espaço ou pensamento na sua época e dar a importância necessária para seguir em frente com alguma proposta possível. Um deles foi Jodorowsky, famoso e conceituado cineasta, insano, criativo, inovador, que em determinado momento da vida imaginou um filme transcendental ao ponto de ser maior que o próprio cinema, um filme capaz de tocar o espectador de maneira que, após assistir, a vida seria outra, desconstruída por tudo aquilo visto em tela, chocado como se tivesse sido tocado por Deus. Jodorowsky ousou um salto alto demais, com Duna, na elaboração de um projeto tão imenso, tão significativo que jamais chegou a ser concluído. Num misto de megalomania e utopia, a ideia do diretor em contar a famosa história de um livro homônimo (escrito por Frank Herbert) traduzia um espírito do próprio diretor, não apenas ritmando cinematograficamente um conto de ficção científica futurista, mas o empenho em ser um artista visionário: era um processo espiritual, a construção de uma narrativa que justificasse a arte e a vida no universo inteiro.

Jodorowsky queria com Duna uma tradução de si, seus anseios, sentimentos, uma proposta inovadora que pudesse expressar o próprio Jodorowsky em um registro de mais de 15 horas, apoiado por figuras como H.R. Giger, Moebius, Dan O’Bannion, Pink Floyd, Chris Foss, Orson Welles, Mick Jagger, Salvador Dalí e David Carradine, além de seu próprio filho, o diretor buscava constituir uma ideia além de seu tempo, um passo perto demais do futuro para ser entendido em meados dos anos 70. Ousado, reuniu, criou e quase conseguiu. Por pouco o filme não foi gravado. Mas, como toda ideia imponente, mesmo não sendo concluida, nunca deixou de exitir por outros meios. Primeiro como referência, “o maior filme que nunca existiu” serviu como base para absolutamente todas as obras de ficção posteriores: tanto em estética, como roteiro, como produção, Duna pautou a indústria cinematográfica de todo e qualquer filme que viria a ser gravado nos grandes estúdios de Hollywood; inclusive, utilizando o próprio elenco técnico da obra original, que nunca foi além do seu storyboard. Segundo como mito, o empenho da equipe e principalmente do diretor é tido por todos como algo impressionante até hoje; não existiu enquanto registro audiovisual, talvez, mas o projeto ganhou contornos ainda mais místicos exatamente por isso, cumprindo um papel na história do cinema possivelmente mais forte do que se efetivamente tivesse sido gravado. A lenda que apoia a “quase-existência” do filme, de suas escolhas, atores, ajuda a corroborar a grandiosidade impossível do projeto; Duna era demais para o seu tempo; Duna era o futuro antes do próprio futuro chegar.

2Do ponto de vista do caráter, há pontos cruciais que desenvolvem enorme valor em ações como a de Jodorowsky ao tentar empenhar um projeto a frente das espectativas da época. Tanto para a arte quanto para a história, este tipo de situação, estes processos singulares – como a epopeia em fazer Duna – são a força que justificam a própria existência do homem; como dito ao longo do documentário de Frank, Jodorowsky “daria a vida” para fazer o projeto. O tipo de empenho honesto dele em provar a vontade de criar, perpetuar a arte como argumento, são maiores que o próprio indivíduo: para ele, só valia a vida pelo que ele poderia fazer através dela (ou tentar), executando trabalhos tão maravilhosos que fizessem a nossa compreensão do universo totalmente novas, claro, apoiados pela compreensão de sua arte singular. A criação para Jodorowsky, exemplificada por Duna, era o baque necessário ao ser, ao ente, externando todos anseios de grandeza em uma produção que valesse pelo seu significado espiritual.

Quando vemos o processo e a força pessoal em produzir Duna, assim como para convencer o maior número de pessoas possíveis com o mesmo pensamento, traduzimos um significado para a vida através de seus atos. Somos aquilo que podemos alcançar e, além dos sonhos, o mais importante é a ambição por trás deles. Da vontade de fazer, da vontade em conquistar. Como dito pelo próprio diretor, afinal, podemos não conseguir tudo o que queremos; mas devemos tentar conseguir.

Um ótimo documentário para refletir não apenas pelo filme, mas sobre as escolhas que fazemos. Vale a pena ser visto e revisto. Bom dia e até a Próxima Sessão!

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