Jogos Vorazes

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Eu pouco sei sobre os livros da série, de fato nunca nem vi pra vender, então não vou ser um defensor da obra para o cinema em virtude de sua literalidade em contar o que estava escrito. Não, eu não faço a menor ideia se o filme sequer retrata a história do livro, mas isto pouco importa para minha crítica. Como projeto audiovisual, ainda assim, este é um ótimo trabalho. Um dos melhores dos últimos anos.

Em uma mistura futurista com uma pitada crível de realidade do presente, Jogos Vorazes conduz um conto (supostamente adolescente) de uma maneira cruel, mas não menos espetacular. As escolhas no modo de contar a obra criam um universo de referências extremamente rico, plausível e de uma beleza em discurso muito bem montada. A confiança nestas mesmas escolhas é ponto fundamental na trama, no montante das ideias da retórica, tal como como a visão sobre personagens não-burros, não-infantilizados, ainda que jovens, crianças e adolescentes, mostram um prospecto, um estudo cuidadoso de elementos que ajudam no desenvolvimento da história. Dada a condição futurista – afinal, é bem óbvio que o filme não se passa no presente – porém fazendo uso constante do próprio passado humano, ora por parte desenvolvida na mitologia clássica (os Tributos, os Jogos, são clara referência ao mito de Creta, especificamente ao conto do Minotauro), ora por parte desenvolvida na condição de executar um paralelo ao início da Revolução Industrial (com as relações de trabalho desgastantes e suprimindo qualquer direito da população que, por medo ou fome, se via disposta a trabalhar em qualquer condição para sobreviver), o filme é rico em saber explorar, principalmente, dois pontos no mesmo universo: 1) a relação destes jovens ao meio em questão e 2) a relação da sociedade entre si.

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No primeiro caso, com uma construção de personagens muito bem feita, os jovens não parecem didaticamente inseridos ali para compor uma teatralidade, uma ficção bobinha, pelo contrário, eles são plausíveis, muito possíveis tanto no filme como na vida real; o pano de fundo da exploração urbana em um futuro apocalíptico de trabalho e pobreza não só reforça a condição fictiva do conto, mas de situações já vistas anteriormente na evolução da sociedade humana, como a própria Revolução Industrial e todas as revoluções sindicais geradas pelo excesso de trabalho onde, essencialmente, estavam a massa de jovens daquela época – com uma construção de caráter muito parecida com a exemplificada no filme. Isto, também por atuações primorosas (em destaque os três principais atores da trama, que interpretam Katniss, Peeta e Gale), garantem uma realidade inconveniente para algo que, supostamente, “não existe”, afinal, sabemos que a história de Jogos Vorazes não se trata de uma história real (embora não deixe de parecer). Para o segundo caso, a própria montagem daquele futuro em questão, muito bem executado pelo(s) diretor(es): ainda que visivelmente apresentando elementos de um mundo vindouro, ele confia na qualidade estética da simplicidade de possibilidades – sem CGs, sem monstros, sem cidades mirabolantes, nada. A sociedade apresentada na trama, a ideia de futuro mostrada é plenamente possível dos mais pequenos elementos (como as tecnologias vistas), assim como as complexas relações entre as diferentes cidades (e, aqui, a Capital ganhando um contorno quase divinal, não apenas humano, é intocável, indestrutível, precisa existir como o próprio mito que tenta criar; talvez como uma Meca, Jerusalém, ou qualquer outra destas cidades de referência religiosa antiga).

De um modo geral, Jogos Vorazes, embora faça, não está propositalmente disposto a discutir feitos. Evidentemente, eles ajudam a compor o longa – afinal, vemos os Jogos em boa parte das primeiras películas, vemos os atributos de cada personagem, vemos várias cenas de ação – mas não são o seu fim em si. Estes feitos, justamente, ajudam apenas a compor estruturalmente o desenrolar do próprio meio necessário, ou seja, o que precisamos saber sobre a relação injusta entre a Capita (rica), os Distritos (pobres) e como a opressão silenciosa e violenta da própria Capital vai culminar em um processo revolucionário que, por fim, acabará com a mesma. O filme se propõe a discutir uma visão, um discurso e, neste, os jovens, os adolescentes (inclusive, público-alvo de espectadores do filme) estão inseridos na retórica, no processo por meio de visões subjetivas, como eles próprios são a engrenagem fundamental para as relações sociais do projeto, ora como heróis, ora como trabalhadores sem voz, ora como torturados e metapersonagens dispostos a servir de imagem à causa, por vontade própria ou não. Tratamos, no projeto, de interpretar estes mundos, opostos mas fundamentais em complementação; todos se apoiando em diferentes colunas que sustentam a criação daquela situação, através da visão dos principais sobreviventes dos Jogos e, claro, outros personagens diretamente ligados a eles que também estruturam aquela condição.

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É importante verificar isto porque, assim, podemos perceber a importância de cada um dos elementos no discorrer da trama, mesmo os mortos, que cumprem um papel de complementar emocionalmente a situação. De um modo geral, os personagens principais acabam sendo bem literais, enfim, suas ações são plenamente justificadas no que o filme apresenta através do seu conto: vemos porque cada um “chegou ao que chegou” e, isto, mecanismo muito bem construído pelo(s) diretor(es) e pelos atores em, juntos, contarem uma história possível e bem interpretada tanto em montagem como em interpretação. No final, entendemos que Jogos Vorazes se trata de emoções, mas não emoções normalmente retratadas dos filmes adolescentes, como romances frustrados colegiais ou brigas de grupos, pelo contrário, ainda que vejamos romances neste projeto, o principal motivo para as emoções do filme estão na soma das relações destes jovens com diferentes nichos, sociedade, amigos, família e a própria ditadura imposta pela Capital. São estas relações complexas que constituem um rico universo de conflitos e desespero, que culminam em personalidades fortes e ao mesmo tempo carismáticas, propostas a, aos poucos, desconstruir verdades de sua época para poder moldar um futuro melhor, menos doloroso para toda a população e, inclusive, para eles mesmos.

Um grande filme, uma grande visão. Vale a pena ver toda saga, principalmente por relatar jovens e adolescentes de uma maneira mais madura do que geralmente vemos por aí. Esperamos para um fim épico agora em 2015, com o lançamento do último filme da série.

Boa tarde e até a Próxima Sessão

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2 comentários sobre “Jogos Vorazes

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