Suspeito Zero

1A estranheza inicial desta obra nem começa no filme em si, mas, antes disso, no seu diretor, conhecido pelo nome de Elias Merhige. Este cara dirigiu apenas quatro projetos até o momento, dentre alguns deles um brilhante suspense envolvendo vampiros com uma imersão à metacrítica do cinema, o outro um pequeno curta surreal sobre a criação do universo/vida/mundo (ou seja lá o que você quiser interpretar) e o mais famoso de todos, conhecido como Begotten onde, basicamente, o diretor evoca um discurso experimental de quase duas horas contando a criação do mundo de uma forma mitológica muito macabra, num tom de realismo que fez, inclusive, alguns espectadores acharem que se tratava de um snuff movie trash; em respeito aos leitores mais sensíveis eu não vou colocar a cena mais famosa de Begotten aqui mas, a quem interessar, é só procurar no Youtube com o próprio nome do filme, adicionando o termo “o suicídio de Deus” após. Creio que não esquecerá da cena tão cedo, que acabou virando um cult das lendas urbanas, com mentiras alegando se tratar até de um outro projeto envolvendo seitas ocultas (tudo balela criada na internet).
Das características que marcam o diretor, podemos dizer, a monotonia não é uma delas. O próprio Begotten é considerado por muitos críticos um dos protótipos artísticos mais importantes do cinema nos últimos tempos – ainda que a crítica mainstream sequer o cite, dando preferência aos Blockbusters toscos. Todos os seus poucos trabalhos são uma mistura profunda de discursos bem montados de forma a expressar artisticamente, pelo meio do audiovisual, algo que Merhige pretende construir como um argumento estritamente estranho, porém inovador, ousado e único. São filmes que não representam apenas uma história contada, mas a montagem de uma linguagem, a retórica do artista que é o diretor, através de imagens em movimento que expressem seus anseios, na maioria das vezes requerendo explicações metafísicas sobre criação ou o indivíduo e as relações com o universo que o completam. Dentro as quatro direções, apenas o que eu não comentei acima é o que talvez seja o mais distante da própria linguagem de Merhige, se assemelhando a uma película convencional: Suspeito Zero.

Suspeito Zero conta a história de uma investigação de um serial-killer com algumas peculiaridades, onde o resultado mais óbvio da investigação parece estar na descoberta de um assassino que está matando outros assassinos. Vemos que a história, longe dos seus outros trabalhos, mais se assemelha à normalidade esperada num filme convencional. Mesmo como contada pelo diretor, linear, introdutória, simples e, de fato, sua direção menos ousada, ainda assim, apresenta bons pontos frente a outras produções do gênero. A graça da obra está justamente na ideia de ser a tentativa mais evidente do diretor tentando se adequar ao cinema comercial hollywoodiano…e falhando miseravelmente. Isto porque Mehrige, como parece no sangue, não consegue se afastar do seu universo conceitual de criações insanas. Sim, Suspeito Zero apresenta os aromas de um roteiro linear, com personagens comuns, ambientados em um desenvolvimento também comum e dualista; no entanto, a mente criativa do diretor reflete na construção de algo absolutamente anti-normalidade e que, por fim, nos brindará com um dos finais mais bizarros que já se viu. De um ponto de vista comercial, claro, como dito, a obra se tornou um fracasso absoluto. Porém, conhecendo o universo de Merhige, mesmo que abaixo dos outros, Suspeito Zero é, talvez, o filme mais autobiográfico dele; na tentativa frustrante de se adequar a necessidade exclusiva de vender, produzir um projeto mastigável ao grande público e propriamente fazer grana com isso, a história do filme desenvolve dois personagens (o bem, o policial em recuperação, e o mal, o assassino maluco) que, na verdade, muito mais parecem pequenas representações do próprio diretor ao imergir na criação – ora tentando ser bom, adequado ao cenário da indústria cultura de massa, ora sendo o maluco psicótico dos projetos alternativos – e que acabam demonstrando em obra o quanto o próprio diretor deve ter sofrido para realizar algo tão banal em comparação a suas outras criações: em tela, ambos os personagens são o que Merhige foi fora delas, positivamente e negativamente um emaranhado de personalidades para montar algo condizente em uma linha de pensamento produzindo um resultado só; no filme, estes resultados são os próprios assassinatos, que ganham repercussão justamente quando o policial percebe um padrão – e, por isto, fazendo surgir a proposta do serial – killer; na vida real, os resultados são a própria criação da obra, a força do diretor em dar sensatez à sua criação.

2Talvez Suspeito Zero não seja uma grande película em si (embora eu discorde amargamente disso mas, vá lá, vamos considerar o argumento da maioria), porém apresenta um fato curioso de funcionar como um projeto muito além da obra porque, distante, dialoga com o próprio cenário de quem a criou (embora não seja escrita por ele, a execução passa toda nas suas edições e escolhas): é uma resposta, quase um anseio psicológico de Merhige tentando construir, em tela, as suas duas personalidades opostas vistas em um thriller policial bizarrissímo; e se as vezes o filme peca por um tédio excessivo, entendendo esta peculiaridade sobre o seu diretor e, principalmente, com um final carregado de simbolismos, podemos perceber que se trata de algo muito maior do que parece.
De uma certa forma a transcendentalidade do final acaba funcionando ainda mais como mensagem do discurso-além-do-resultado; se em obra há uma comunhão inexplicável entre seus personagens, representados na dualidade do diretor, esta mesma função extrapola a tela para atingir exatamente ele, justamente como elaborador daquilo que, longe do que provavelmente pretendia (criando um filme Blockbuster, adequado a fãs/espectadores que provavelmente ele não queria), não consegue deixar de ser o Merhige conhecido pelos seus outros projetos. A expressão do filme “mais fraco” de sua carreira ganha contornos realmente espetaculares quando, ainda assim, isto se reverte em uma criação que funciona de outras maneiras, senão pelo “bom gosto”, mas como função essencial para entender o personagem por trás da câmera, o próprio diretor.

3Mesmo que de forma alguma estes tenham sido os objetivos de Merhige, é interessante olhar como um diretor com uma linguagem tão forte, tão direcionada, consegue influenciar em uma produção – digamos – ruim, “pesando a sua mão” para que a coisa saia com a sua cara. Suspeito Zero não é um filme fácil de digerir, porém, vale a pena ser visto, principalmente para quem gosta do diretor em questão. É um projeto ousado exatamente pelo seu contrário, por ser pouco ousado, o único trabalho de Merhige com esta característica. Mas, mesmo sendo injustiçado e criticado, funcionando autobiograficamente ou não, se trata de um thriller honestíssimo, com uma participação excepcional do ator Ben Kingsley que ajuda a tirar o marasmo da lama e construir um dos personagens mais macabros do cinema. Mesmo que não chegue em produções de ponta, há como se encantar com os detalhes, as pequenas construções dos discursos ao longo da trama e a dinâmica insanamente desequilibrada que a história toma nos seus últimos 15 minutos. De um jeito ou de outro, conforme o espectador assistir ao projeto – ligado ao diretor ou apenas à história – há certas nuances por trás do filme que o fazem, sim, uma boa película.
Subestimado por isto, vale a pena ser visto. Um bom thriller policial, uma sensacional visão (sem querer) autobiográfica.

Boa tarde e até a Próxima Sessão!

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