Super 8 x Goonies: comparações de mundos iguais e diferentes

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A marca de J.J. Abrams no cinema com um trabalho completo (diretor, produtor e roteirista) é na criação de Super 8, que funciona como um projeto autoral mas, também, uma evidente obra de homenagem – principalmente aos filmes consolidados pelo diretor Steven Spielberg (que, alias, é produtor do filme também) nos anos 90, de um cenário juvenil fantástico e nostálgico, sempre ligado ao universo infantil e promovendo uma mescla de ambientes fictícios, exagerados na mente de qualquer criança que se imagina salvando a cidade, caçando tesouros e coisas do gênero, cercado de monstros e criaturas mágicas. Por isso, surge a comparação, claro, com as obras do seu mestre: o que Super 8 tem de Spielberg no filme? O irônico disso é que, talvez, a obra mais “cara de Spielberg” feita na história não tenha nem sido propriamente dirigida por ele, mas sim por Richard Donner; ok, pesa a mão de Spielberg como produtor e figura influente nos rumos da gravação mas, ainda assim, não há sua assinatura como diretor. Mas nem por isso Os Goonies se afasta dele; é incrível que a mera citação desta película já envolva todo o “universo spielberguiriano” a priori, traduzindo uma linguagem estranhamente tão característica que sempre fica a dúvida: foi realmente Richard Donner o diretor do filme? É por esta sensação que gostaria de comparar as duas obras em questão, principalmente porque percebo semelhanças importantes nos dois filmes – e distâncias ainda maiores entre pupilo e mestre. Então, vamos lá!

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Sobre Os Goonies:

Um importante aspecto dos Goonies se dá no seu roteiro e montagem “enganadora”; digo isto porque é um filme que “parece uma coisa mas é outra“. Se ligarmos de primeira a lembrança ao filme, uma percepção literal do sentimento que ele “passa ao ser assistido” é a ideia de que se trata de uma caçada a um tesouro – porque boa parte das memórias afetivas da obra estão ligadas às cenas dentro da caverna; entretanto, longe disso, é um projeto rico em linguagens que não percebemos de cara. O próprio nome já diz, afinal “Goonies” são aquele grupo de crianças da Doca Goon – cenário da história; é importante, aqui, situar a firmeza do cenário no desenvolver da obra. A maior parte da película, inclusive, nem se passa na caverna em si, mas, obviamente…nas cercanias das Docas Goon. Dito isso, como afirmado que “parece uma coisa mas é outra“, vemos que a obra se trata muito mais de uma relação afetiva entre as crianças e aquela região – não a toa a caçada do tesouro se inicia justamente para arranjar dinheiro suficiente para que um projeto imobiliário não derrube as casas onde as crianças moram, pondo um fim aos Goonies.
A diferença pode parecer sutil, mas não é. Ao perceber o universo de Os Goonies como uma relação afetiva entre as crianças e a região, vemos porque boa parte do filme sequer se passa na caverna: ela simplesmente não importa tanto. Isto mesmo, ela serve como apoio ao desenrolar da trama, claro – e um apoio maioral, não a toa é a estética marcante de qualquer memória – porém, ao mesmo tempo, a peculiaridade do próprio cenário montado para nos apresentar as Docas Goon é ainda mais rico. Vemos constantes passagens mostrando três pontos: 1) as casas dos garotos (internamente e externamente), 2) as ruas próximas e 3) a natureza geográfica em volta (morros, montanhas, bosques, desfiladeiros); esta grandeza em apresentar um ambiente complexo é ponto crucial na afetividade que desenvolvemos, enquanto espectadores, com os personagens; isto porque ao ver toda a região como uma unidade – a riqueza de detalhes das Docas Goon – nos colocamos na pele dos próprios garotos, afinal, ninguém (eles e nós) quer deixar de morar ali. Tudo que nos é apresentado como uma possibilidade crível de situação (no caso, a expulsão) vai de confronto ao que nós mesmos queremos, justamente porque estamos de fronte a um cenário belíssimo e rico e arriscados a não vê-lo mais: no fundo, os Goonies acabam sendo todos os espectadores que se identificam com a situação.
Nesta peculiaridade, é importante ressaltar o comportamento das crianças, persistente, sim, porém triste, abatido, porque conseguimos imaginar um motivo óbvio: a remoção das casas nos parece injusta também e nós ficaríamos assim…porque nós mesmos já imaginamos morar em lugares como as Docas Goon! Os Goonies, como filme, não é raso do ponto de vista de “apenas mostrar uma caçada ao tesouro”, não, sutilmente ele nos joga num universo rico em imagens, um cenário possível e belíssimo e nos apresenta os personagens como nós mesmos quando fomos crianças, imaginativos e felizes por poder pertencer aquele mundo. Enquanto nós fomos forçados a “crescer” pelo tempo da vida, isto também se representa nos garotos da tela que, forçados a se mudar, teriam de amadurecer pelo ato.

Quando vemos toda a situação, claro, nos compadecemos e tentamos o mesmo caminho, buscando alternativas para evitar que a ação aconteça; no caso das crianças do filme, se trata de encarar a caçada ao tesouro – não como ponto principal na história, mas como maneira de salvar a si mesmo. Ao lidar com a caverna, então, vemos outro ponto importante da trama: a retomada a uma possibilidade fantástica, tanto quanto pelo conto (um navio pirata abandonado cheio de ouro) mas também como imagem mostrada (a caverna é, em si, lindíssima, um efeito muito bem construído em estúdio e ponto alto da obra por não “literalizar” com uma locação real, mas sim em construir um mundo absurdo e falso, porém belo) nos mostra toda imaginação juvenil em lidar com um problema adulto, ao voltar a recorrer em suas histórias, suas lendas e criatividade para superar o medo de ir embora. O antigo mundo, a certeza de permanecer nas Docas Goon é, então, salvo justamente pelo mundo fantasioso da caverna do tesouro; note que, aqui, a própria caverna se apoia não como elemento principal, mas como elemento de sustento ao seu anterior – ela serve para efetivamente salvar as Docas Goon.
A certeza do filme é, então, entendida em uma mistura de dois universos e uma unidade de personagens, todas mesclando-se como resultado esperado; dos universos: 1) As Docas Goon e 2) A caverna. Dos personagens: 1) As crianças. É importante que enxerguemos estes elementos porque, assim, podemos visualizar mais fácil como Os Goonies não tenta justificar a criança de forma separada ao ambiente e nem maioral ao desenrolar da trama mas, antes de tudo, um elemento bem disposto dentro do cenário da história que, inclusive, justifica-se no nome do filme: estamos vendo uma história COM crianças, mas uma história das Docas Goon.

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Super 8:

É visível como J.J. Abrams tenta transpor esse tipo de abordagem dos Goonies, no entanto, com algumas pequenas mudanças cruciais que o tornam um filme menor – bom, também, mas não tão sensacional. Exemplo disso é na própria absorção da ação pelo roteiro: logo de cara, com pouco mais de 15 ou 20 minutos, a película já despeja os seus elementos de ação para qual a própria história fará sentido (no caso, o trem do acidente e toda aquela cena). Enquanto no primeiro caso dos Goonies a abordagem demora a acontecer – justamente para valorizar a construção de identidade das Docas Goon – no caso de Super 8 esta mesma construção de identidade se dá enquanto a ação já acontece o que, para mim, é um problema em virtude da lógica: somos levados a acompanhar a conduta dos personagens do filme sem ao menos conhece-los direito; sabemos que eles sofrem, sim, que tem problemas passados…mas é tudo por demais misterioso. Tirando a cena inicial, só saberemos dessas respostas quase no final. A dor dos personagens, que em Goonies é construída já de início, é mastigada em Super 8 para se tornar um micro-suspense resolvido quase no seu fim. Entendo porque J.J. Abrams constrói este mistério, principalmente para embasar a dureza, a rixa entre os pais dos personagens principais, porém, como espectador, acho que isto dificulta a obra ao criar duas frentes que combatem uma a outra: 1) o suspense por trás do monstro e 2) o suspense na relação ruim entre os pais e a morte da mãe de um dos personagens. Ao fundo, não sabemos exatamente qual é o mote da obra.
Enquanto Os Goonies funciona linearmente na construção de um único motivo, Super 8 aborda esta mescla de dois discursos e como isto refletirá numa junção de ocasiões ao longo da trama; foi, logicamente, uma opção ousada de J.J. Abrams mas que, por si, deu uma diferença importante a Super 8 e que infelizmente o torna uma história muito densa em pouco tempo, “correndo” demais com o roteiro e não trazendo a identificação necessária para o espectador. Isto fica ainda mais evidente se analisarmos que, diferente de Goonies, Super 8 é um filme de personagens e apenas isso; há lindas cenas da cidade Lillian, sim, mas ela parece um organismo distante frente a história de cada uma das crianças – não a toa pode ser totalmente destruída sem medo – o que torna o filme uma visão ainda mais intimista sobre os garotos da trama, mas exatamente por que? Parece uma pergunta boba, mas não é. Tirando os dois personagens principais que lidam com uma morte mal explicada, o intimismo aos outros personagens é meio vazio, parecendo que eles estão ali apenas para compor a necessidade de “existir um grupo de crianças”; enquanto Goonies valoriza a relação das Docas Goon – onde TODOS serão afetados da mesma maneira – Super 8 destaca poucos personagens e, não só isto, não tenta desenvolver nenhuma relação com o cenário o que, pessoalmente, eu acho uma pena, dado o fato de ser riquíssimo em possibilidades o olhar sobre a cidade Lillian e como cada uma das crianças lidava ao viver nela e, ao mesmo tempo, vê-la sendo totalmente destruída sem uma explicação convincente.
Há, porém, menções sensacionais de J.J. Abrams ao seu mestre sem que elas fiquem bregas; a própria identidade de cada uma das crianças como um extremo quase caricato é uma delas: temos o gordo piadista, a garota autossuficiente, o protagonista indeciso, um outro piromaníaco bom companheiro e assim por diante. Esta virtude em traduzir um microcosmos em cada criança traz uma identidade muito viva ao filme, afinal, sempre nos identificamos com alguém; outro ponto importante e não muito discutido é o fato de J.J. Abrams ter economizado nos CGs (apenas no monstro e na cena do trem, talvez, não me recordo de outros) e isto, ao menos para mim, é muito importante, principalmente numa época onde qualquer elemento cinematográfico é resolvido com um efeito de computador muitas vezes tosco, ele valoriza a grandeza da imagem real e não digital. Isto ganha destaque em algumas cenas, como no próprio caso do trem destruído, onde o aspecto de realmente parecer um trem montado no estúdio – e não no computador – dá uma profundidade espacial belíssima ao cenário, onde as crianças podem caminhar entre peças e pedaços sem que parecem duas coisas diferentes (as crianças no mundo real e as peças no mundo digital).
Outro fator que contribuí ao diretor é o uso inteligente do monstro (ok, vou tentar não dar spoilers) em uma possibilidade mais “humana”, onde o ódio da criatura é tomado justamente por atitudes nossas; ele não é um monstro simplesmente destruidor por natureza, mas nós que o fizemos assim. Isto acaba humanizando a criatura e, claro, reforçando a própria conduta das crianças em saber lidar de maneira mais adulta que os adultos na situação como um todo. Diferente da maioria dos casos atuais – que valoriza o monstro apenas como elemento para destruição de algo – J.J. Abrams faz uma criatura que ganha compaixão do espectador, porque ajuda a corroborar a história dos próprios garotos.

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Conclusão:

De certa forma, Super 8 apresenta algumas falhas onde Os Goonies cresce, como um desenvolvimento profundo de identidade entre os personagens e o cenário, sua localidade. Se em Os Goonies vemos uma belíssima imagem tanto dos personagens como das Docas Goon, em Super 8, focado apenas nos personagens, sentimos falta de entender melhor as nuances da cidade Lillian, que fica parecendo apenas como “um fundo para ser explodido” e que, de fato, é o que acontece. Entretanto, J.J. Abrams peca em alguns pontos, mas sabe lidar com muita maestria em outros. Como homenagem aos filmes infantis de Spielberg, Super 8 acaba funcionando – mesmo com falhas – por contar com um bom desenvolvimento de personagens, de crianças carismáticas e ao mesmo tempo peculiares, dando força ao discurso do filme que, afinal, fala do universo juvenil, da criatividade de uma época da vida, expressa muito bem na tentativa em recriar “um filme dentro do filme”, num ode muito bem bolado à metalinguagem do cinema.
Embora Os Goonies seja visivelmente uma obra maior e mais elaborada, há pontos favoráveis em Super 8. Se Goonies valoriza perfeitamente as crianças e a região, Super 8 foca nas relações pessoais das próprias crianças e, mesmo falhando em não mostrar a possibilidades da cidade em si, acaba por nos trazer alguns elementos em falta no cinema contemporâneo, como o monstro “humanizado” e uma redenção poética dos próprios personagens, superando seus traumas de uma maneira bela e simples, sem tentar dar algum final rocambolesco ou excessivamente romantizado.
Vale a pena ver os dois e vale a pena considerar o esforço de J.J. Abrams em trazer este tipo de obra ao cenário de Hollywood, com um pouco mais de esforço e cuidado, num futuro, talvez ele consiga superar o próprio mestre. Se seguir neste caminho, tem muitos motivos.

Boa noite e até a Próxima Sessão;

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