A Nova Onda do Imperador

1Este foi, possivelmente, o desenho mais subestimado da Disney. Recebeu uma série de elogios de crítica, sim, porém incompreendido, relegado a um escalão inferior, talvez por uma grandiosidade pouco operada na marca das próprias obras da empresa: por ser diferente do resto, funciona como um misto de experimentalismo e exceção, um “monstrinho” que acabou dando certo. É um grande patinho feio que, afinal, ficou longe de ser feio.
A história por si já foge dos habituais contos de fadas – como a maioria dos casos, diria eu, uns 95% dos desenhos da Disney, em especial os criados em 2D. Trabalhando com uma trama pouco provável, o filme aborda a relação de um rei megalomaníaco e sem noção que, ao ser confrontado com o povo, acaba por tomar atitudes pouco amistosas; enganado por um dos seus súditos, é transformado em uma Lhama e, para evitar o pior (a morte, ou o sumiço-eterno como um animal não reconhecido), acaba sendo defendido pelos próprios representantes do povo, onde outrora ele mesmo não se importou e ignorou seus anseios.
Sem princesas ou com o habitual personagem principal versando no universo dos humanos, boa parte do projeto se passa com o rei transformado em Lhama. Já de cara podemos ver um prospecto bem diferente das outras obras que, do contrário, trabalhando com um personagem humano e um amigo coadjuvante do mundo imaginário, no caso de A Nova Onda do Imperador, inverte-se a ordem: o animal mágico É o principal elemento. A transformação não é apenas um diagnóstico de apoio no desenvolver do roteiro, pelo contrário, ela funciona como a principal função para distorcer o pano de fundo, a quebra de paradigma na película que, assim, apresenta um animal não-humano como destaque, ao invés do padrão de filmes da empresa (isto, inclusive, acaba sendo utilizado posteriormente com mais afinco, como no caso de Irmão Urso, produzido três anos depois e A Princesa e o Sapo, produzido nove anos depois; ambos com a mudança do personagem da mesma forma, caracterizados de maneira mais ampla e profunda).

2Com a desconstrução do personagem principal, a Disney se liberta de algumas obrigações evidentes e, através disso, desenvolve um dos filmes mais sui-generis da companhia e que teve um resultado surpreendentemente rico. Não é só a Lhama rei que dá um ar descontraído e inovador a obra mas, também, o que ela releva por trás desta escolha: A Nova Onda do Imperador é um filme metalinguístico, talvez a primeira grande produção da Disney neste gênero, evidenciado grandiosamente no fato de que é o próprio rei narrando a história e fazendo algumas pausas ao longo da produção, colocando-a como um filme dentro do filme, de forma que o roteiro é apenas contado no passado para demonstrar o próprio final, no caso, o que viria a acontecer com o narrador – o próprio rei, autodiegeticamente apresentando como bem entende para promoção de suas ações: ele se representa enquanto narrador como o mais importante, o mais popular, tudo o que acaba sendo confrontado pelo que é mostrado no desenvolver do próprio filme. Isto permite, também, algumas brincadeiras com o humor que acabam funcionando de maneira muito boa na linguagem, como o narrador/personagem que “escolhe” as trilhas extradiegéticas de outros personagens conforme ele interpreta a índole destas pessoas, determinando já de cara quem é “mau” e quem é “bom” na trama com um certo tom de piada, haja vista que é o próprio personagem – também narrando – que verifica as funções, não o espectador ao interpretar a obra, como ela deveria funcionar através da percepção da experiência em se poder ver a trama.
Com este tom de constante meta-piada, o filme não deixa de confabular nenhum segundo com o seu propósito humorístico, do início ao fim conciliando o riso entre um universo adulto e também infantil, brincando com os dois tipos de público; isto é visível principalmente na função do cenário para o desenho que, não só como plano de fundo – muito belo, por sinal, uma ótima escolha de arte da Disney em manter a animação 2D – mas também como um infame emaranhado de situações periculosas ao próprio Lhama rei e seu companheiro de viagem, justamente para “desafogar” o lado mais adulto da metalinguagem e mergulhar no humor de situação infantil, onde basicamente cada segundo do filme, cada metro do próprio cenário, se trata de uma possibilidade de problemas para a dupla que, escapando de um inimigo…encontra outro logo em seguida!
A dualidade do filme é o grande acerto da escolha não só na metalinguagem humorística, mas também destituindo aquele pequeno moralismo constante nas produções da companhia (onde o personagem principal é indiscutivelmente bom, o mau é indiscutivelmente mau etc.) e, tal qual a função da piada, aqui, a película é um grande acerto: o próprio Lhama rei é uma irreverência de si, enquanto os seus inimigos também o são, de forma que ninguém é inteiramente sério, ou seja, ninguém é inteiramente o que parece – ou bom, ou mau, ou guiado por ações moralistas mas, sim, além disso, para compactuar com a própria graça da obra. Ora vemos o Lhama rei se portando como um perfeito idiota, ora vemos seus inimigos deslumbrante engraçados/sensacionais, da maneira que não dê para coloca-los como “inimigos maus”, por assim dizer, apenas como adversários; comicamente adversários em um panteão de risadas.

3De longe, parece um pouco confuso como a Disney tenha deixado passar um roteiro tão diferente das suas convenções mas, para a própria empresa, a produção de A Nova Onda do Imperador é um acerto sublime; permite a Disney se renovar enquanto visões e discursos – visível nas produções posteriores a este, que seguem elementos deste – mas também traz um projeto que, como resultado, é fantástico por si só. Vale a pena ser visto e revisto por todos motivos que imaginamos; é, talvez, o filme mais engraçado da própria Disney.

Boa noite e até a próxima sessão!

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