A Matrix e o seu Duplo

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É normal, em meio ao frenesi descontrolado do lançamento, – ainda mais se tratando de um Blockbuster – que uma obra seja difundida pela sua publicidade; neste caminho tortuoso, fica difícil não separar a venda do produto daquilo ao qual ela encara enquanto discurso artístico, de modo que, as vezes, é possível a um trabalho emanar um sentido diferente daquilo pretendido enquanto experiência em si. É o estranho mundo da Indústria Cultural, criticado ou elogiado, enfim, na construção hollywoodiana do cinema… o produto é arte, uma arte envolvendo a venda e tudo subsequente conectado em um emaranhado de correlações difíceis de compreender sem se afastar. O que acontece disso é, em alguns casos, um sentimento de injustiça moral diante da interpretação à obra: a ideia de que determinados projetos acabam relegados em categorias no qual não mereciam; como o caso de Matrix; sabe-se lá por qual motivo caiu nas graças do público como um mix de filme de ação/sci-fi e, embora também o seja, ainda assim, é muito maior.

Ok, vá lá, os méritos técnicos contaram muito. Os efeitos de câmera foram revolucionários (como os famosos congelamentos no ar em diversas passagens de voadoras exageradas), as lutas entre vários atores perfeitamente ensaiadas em golpes plásticos, as cenas em CG maravilhosas para a época, sim, foram atrativos que pularam aos olhos de todos, entre um universo futurista caótico de uma história macabra e possível imersa na tecnologia oriunda dos PCs, migrando junto com um filme de ação bem feito e muito bem montado, captado num período onde as discussões sobre o tema (“como será o mundo conforme a inserção da Inteligência Artificial?”) estavam começando a ficar mais densas e maduras. Dentro disso, Matrix caiu como uma luva, agradando os aficcionados em rocambolias cenográficas como explosões e destruições – o famoso aparato técnico, os milhões de dólares inflando a indústria da propaganda até não poder mais – mas também aos mais nerds aficcionados na narrativa do mundo sci-fi possível, na robótica realista da programação binária que, com força do pensamento, podemos enxergar num futuro não tão próximo. Por isso, talvez, a trilogia tenha sido melhor recebida a estes públicos do que propriamente em outros conjuntos sociais, ou em debates mais sérios sobre a própria história e como ela é empregada na narrativa (pra mim, o grande destaque). Nem por isso o filme se torna menor e, mesmo mal elencado, inclusive, gerando uma série de filhotes justamente por estes fatores (quantos não foram as obras futuras parodiando os efeitos de câmera congelada, por exemplo?), permitimos que o projeto seja visto democraticamente como queiram, ora como franquia de ação, ora como pirotecnica, ora na filmografia sci-fi, ora como discurso. E, por isso, me vejo na liberdade de inserir o tema pretendido.

Matrix é uma das obras modernas – quem sabe a mais adequada – a discutir uma série de questões metafísicas sobre a realidade e suas representações para o indivíduo. Vejam vocês, uma narrativa poderosíssima com méritos não só pela sua construção extremamente pensada em multiplataforma (Games, Filme e Animações) onde já se ajudaria a conversar tecnicamente na própria metalinguagem da realidade enquanto afirmação, de modo que a história só passa a existir completa quando elencada em diferentes pontos de vistas, interpretações fragmentadas em tipos de arte que não dialogam diretamente entre si, mas apenas na temporalidade da própria cronologia no desenrolar da trama – por assim dizer, o “todo” Matrix só é possível enquanto “partes distintas” do Matrix existem em diferentes tipos de experiência. No entanto, o aspecto de destaque é a própria trilogia cinematográfica, separada do resto, como forma de discussão pelo que se apresenta em si, bebendo num universo surreal de questionamentos levantados no qual o próprio roteiro provavelmente nem imaginaria onde chegaria a princípio. A história do livro previamente escrito colabora, claro, mas a grandeza da transposição para o cinema torna o discurso muito mais complexo, justamente pelo acréscimo do elemento visual e da possibilidade de vermos os personagens ponderando diretamente determinadas questões na tela, tornando, por assim dizer, a sensação dos diálogos mais “vívidas” que nos livros – onde não podemos visualizar, apenas imaginar.

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Dentre tantas maneiras possíveis de começar, talvez a mais sensata seja pela própria Matrix – o programa de computador que dá nome ao projeto como um todo (Filme, Animação, Games) – é uma das questões tautológicas mais absurdas na contemporaneidade, executadas de forma sublime logo no começo da primeira parte da trilogia no cinema: como ele (o programa) se resolve em si e justifica a compreensão da realidade para existir, afinal, o programa é a própria realidade como supostamente conhecemos no propósito de estarmos dentro dela e não conhecermos o pós-horizonte; uma dúvida, a questão de como a criação, ou seja, nosso mundo, seria suficientemente real ou apenas uma representação agradável para suprir as nossas necessidades humanas avaliadas por mecanismos externos. Dito isso, o mais assustador do começo da própria trajetória da película é o fato de que, como um filme discursando além-filme, ele poderia ser aplicado do mesmo jeito na vida de qualquer indivíduo além da obra em si: afinal, o personagem fictício do filme vive, como nós, numa Matrix? Ou a ficção proposta na história é, como acreditamos, uma ficção que não reflete a nossa realidade? Impossível dizer. A própria realidade, a execução do discurso e da montagem dos parâmetros na narrativa transcendem a barreira da tela, utilizando quem assiste de maneira a afirmar a própria dúvida da história proposta; é por isso que, inclusive, aparecem elementos clássicos de Alice no País das Maravilhas para determinar a entrada de Neo na consciência de sua metarealidade dentro da ficção (ele enquanto pessoa não existia, até então, era uma projeção de si na programação; até descobrir exatamente sobre isto): o espectador, um passivo porque não pode mudar a sua condição e ao mesmo tempo em não pode encontrar respostas se torna, por sua vez, parte do próprio “sonho” proposto pelo discurso… como Alice quando cai na Toca do Coelho. De certa forma, ao assistirmos Matrix, somos todos um pouco assim, transportados para um “País de Maravilhas”, claro, negando as próprias maravilhas em um mundo de horrores e confusões entre dúvidas sobre o real e as suas representações. Morpheus é o nosso Coelho Branco indicando os caminhos da toca e Neo, por sua vez, somos nós mesmos, expressos na duplicidade do real como representação factual de si e projeção de possibilidades, ambas no limiar entre os duplos do mesmo argumento, no caso, o “Eu” – ora como “Eu de fato” (o espectador em si), ora como “Eu projetado” (o próprio personagem na tela, ao longo da história).

Olhamos a obra estarrecidos com a ficção que se desenrola em um universo apocalíptico sob o conforto da própria esperança em ser uma experiência fictícia – sabemos que aquilo não é existe (será?) fora do objeto cinematográfico – e encaramos o confronto de Neo (a princípio não tentando enxerga-lo na sua duplicidade do “Eu”, mas sim como um caráter a parte), Morpheus, Trinity e outros como algo longe de nós, porém, ironicamente, nunca poderemos de fato saber se isto se trata da verdade…assim como a própria Alice que, enquanto dentro do sonho, jurava ser real (e, no nosso caso, na aceitação vindoura de Neo e sua duplicidade do “Eu”; nós SOMOS ele, a representação da ficção, o sonho, o não-real); numa inversão do ponto de vista, a pílula vermelha e a azul de Matrix, onde distanciam ou aproximam o personagem da realidade é, também, encarada pelo espectador da mesma forma em seu universo de realidade: sem pílulas, podemos ser o palco do mesmo cenário da obra, envoltos numa névoa de “representações experimentativas” no qual nunca poderemos nos afastar, sendo sujeitos a uma representação da realidade de modo a nunca conhece-la em si, uma ilusão palpável da vida criada por uma série de conflitos entre o próprio mito dos seus significados: será que o real é o que temos? Por isso, Neo – no filme – é uma ótima metaanalogia do próprio indivíduo ao assistir (afinal, ele e “Eu” são o mesmo), resignado ou revoltado, na mesma busca de questionar o meio como forma de interpretação daquilo onde próprio personagem se encaixa na trilogia: ele NÃO EXISTE longe do que acredita existir, ou seja, o próprio mundo – mesmo que este seja uma mentira, uma ilusão aparente criada por um programa de computador detalhando a realidade para fraudar a experiência da vida. Nós, enquanto humanos, por sua vez, fixados naquilo, somos todos engolidos um pouco pela não-ficção de Matrix; somos todos um pouco humanos…como Neo nos sentimos escolhidos, diferentes, superiores, acreditamos imaginar sermos os únicos a escapar de tal sentimento, porém, nada além de humanos, demasiado humanos, acatamos o decorrer das situações com a possibilidade recorrente de escapar daquilo – ainda que isto seja um desenrolar subsequente de ações onde não irão ser determinadas por um indivíduo, no caso, nós mesmos, mas sim pela força da vontade do mundo – real ou representado.

Isto se torna evidente no desenrolar do destino do próprio protagonista, aqui, visto como um fatum imutável, principalmente quando confrontado com o personagem d’O Arquiteto (a metamáquina, a ideia de uma “máquina operando [e criando] máquinas”; dentre elas, ele cria a própria mente humana – numa alusão a máquina capaz de errar, uma máquina que é a negação ao conceito), em confronto com as escolhas do Neo (humano se desassociando de sua não-humanidade; ele tenta constantemente o “não-ser-máquina” como prova de edificar sua condição de homem; um conflito entre ser superior ao resto, especial [o homem-máquina/que-vê-a-máquina], mas se encaixar em meio a multidão, apenas um homem como outros…comum), fugindo do propósito para qual nasceu, imaginando construir o caminho possível determinado por si, mas que acaba se mostrando mentira no decorrer da trama. De fato, na tentativa de Neo em se afirmar como aquilo no qual quer ser, ou seja, o “não-homem-máquina” fugindo das respostas binárias e qualitativas como um sistema virtual (a própria máquina), fazendo o que um humano como os outros faria, exatamente isto o torna uma vítima de sua humanidade – como O Arquiteto prevê através de suas escolhas, que refletirão na própria preservação da sociedade. A sua negação em aceitar é, por si, a afirmação necessária aos acontecimentos; ele tenta sabotar as previsões de forma a, através disso, sabotar o próprio sistema (quebrando tanto Arquiteto como Oráculo), mas suas ações corroboram o discurso dos mesmos, de modo que a transposição da virtualidade onde ambos existem – ou seja, a própria ficção criada pela Matrix – é, enfim, o destino do protagonista para encarar a sua realidade fora dela.
O confronto de Neo é representado exatamente ao buscar respostas na Matrix para destruir a Matrix; se afastar dela é encarar o próprio fatum previsto: o fim da Matrix passa por confirmar seu destino dentro dela, ou seja, as representações de realidade (no caso, a vida falsa gerada pela programação do mundo não-real) serão transpostas para o mundo real, Zion, ou o que for nomeado, selando o destino da humanidade pelo próprio destino programado pela máquina…a não-exitência, o virtual, por fim, determinará o real porque está tudo interligado: o destino virtual É também o destino real.

4Do mesmo jeito, o espectador encara a transposição do filme para sua vida: como não pode escapar das representações e sequer pode perceber a realidade ou não em si – haja vista que a única possível é a onde está, aquela que se tem como verdade, mesmo isso sendo apenas uma ilusão – o próprio filme, a ficção, é também a confirmação do destino do espectador ao vê-lo: como Neo, determinará sua própria vida naquilo que não a é conclusivamente; ou seja, na dúvida da possibilidade, acredita conhecer todos os fatos para determinar como realidade: o espectador mais crê no real do que concluí o real. Dito isso, o argumento d’O Arquiteto se torna necessariamente um apontamento da verdade, prevendo como nós, humanos – reais (na nossa vida; ou metalinguísticamente no filme pós-Matrix) ou virtuais (na projeção da ficção; ou mealinguisticamente no filme pré-Matrix) – estamos fadados as nossas condições, com caminhos trilhados, destinos, sem poder se afastar da humanidade, uma mentira ou verdade, representação ou em-si, mas ainda assim um fatum em que nada podemos fazer para mudar.

Na tentativa de aniquilar essa cruealdade determinante do fatum, a obra propõe um antagonista, um destruidor (o coitado relegado ao cargo torpe no sentimento de Blockbuster, visto apenas como um vilão qualquer) chamado Agente Smith. O seu papel urge como algo grandioso demais, porque ele É criado justamente pelas próprias máquinas na tentativa de deter o ímpeto humano de entender e destruir suas representações – de forma a quebrar o próprio destino traçado, se é que isso é possível (como mostra o filme numa tentativa cíclica) – mas, como destruidor, se liberta do criador e vira uma criatura descontrolada. Smith não é nada; isto mesmo: Smith é o nada. Ele não cumpre função em afirmar o virtual, porque, continuando a crescer, destruirá este mesmo, mas também não cumpre função em afirmar o real, porque quer matar todos que tentam não-ser ele. Como um buraco negro, o crescimento físico do Agente Smith demanda um ato onde ele simplesmente sugue tudo ao ponto de que nada possa existir senão dentro dele e, novamente, transpondo o discurso ao mundo de quem está vendo a obra, talvez a ideia desse tipo de vilão seja exatamente esta, a exploração conceitual das teorias ao longo de novos metauniversos: o que, afinal, seriam os buracos negros? Alguns teóricos definem a possibilidade de existirem como “portais” para novos locais, inclusive, universos dentro de universos seriam plenamente viáveis na configuração do que conhecemos desses objetos (ele é um nada, não deixa nada existir, mas contém tudo em si). Da mesma maneira, Agente Smith apenas contempla a ideia de engolir tudo, glutão, funcionaria perfeitamente como a suposição anárquica da destruição total para afirmar “novas possibilidades”, a saber, destruindo real e virtual, a Matrix, os humanos e as máquinas, criando uma nova visão longe das representações já conhecidas – nessa, onde ele É o universo. Smith tenta ser a única realidade possível, ele como assassino, mas também como programa, como controlador, liberto, dominador. Nesta visão, ele não é apenas o antagonista, o que soaria inclusive pequeno para sua participação ou apenas como uma negação a Neo (ou ao “Eu” representado) mas, também, a própria necessidade de diálogo destrutivo entre o que o homem deseja, não ser a representação de um fatum, e o que as próprias representações são em si, construções do fatum do homem. Smith, por sua vez, seria a síntese dialética dessa ideia, a tentativa memorável de escapar disso da única maneira possível…destruindo tudo, condenando a criação do homem – as máquinas e subsequentemente a Matrix – mas também o criador – o próprio homem.

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Note que, aqui, a inversão também apresenta um jogo contraditório entre as próprias possibilidades. Como em Alice no País das Maravilhas, onde a menina cai no próprio sonho e se vê inserida na representação de maneira onde a própria representação ganhe vida independente e, por fim, faça Alice apenas ser parte inativa daquele mundo, no caso de Matrix a coisa eleva-se ao mesmo nível: de certa forma a Matrix é a própria criação do homem – ele cria as máquinas, elas se rebelam e aprisionam o homem, elas criam a Matrix para condicionar o homem a aceitar o papel de prisioneiro. A “liberdade de consciência” das máquinas onde, posteriormente, vão refletir na criação de um mundo de representações em que se consiga determinar o próprio fatum do homem (como O Arquiteto, como O Oráculo) é indiscutivelmente trabalho da humanidade, no qual ela, antes de ser controlada por representações programadas artificialmente, foi a grande criadora das mesmas possibilidades ao automatizar as máquinas e os seus pensamento; estas, por sua vez, acabaram trilharando o caminho para o que estaria por vir. Ironicamente o fatum é reafirmado neste ciclo de Eterno Retorno onde o homem é a cobra que come o próprio rabo, em uma realidade onde poderiamos dizer que “os fins justificaram os meios”…antes de se saber sequer quais eram os fins. A máquina representada na figura d’O Arquiteto é, antes de tudo, uma leitura crucial das atitudes do homem como forma de selar o seu destino ante uma nebulosa relação do real e o virtual no qual ele mesmo emaranhou e depois tenta escapar; novamente, a transposição disso é análoga ao espectador: ao ver a película questionando a sua realidade, isto só é possível com utilização de máquinas de projeção; ou seja, a vindoura discussão sobre a realidade – ou não – onde o espectador acaba inserido como um passivo que nada pode fazer (porque ele não pode provar o não-real se ele existir, ele apenas estaria lá) é, tal qual a obra (real) e sua narrativa (ficção), disponibilizada pela própria criação humana, desde a criação da arte, da linguagem, até a consolidação da tecnologia para criar e reproduzir o filme.

Quando damos esta volta completa em Matrix, ele se torna muito além daquele discurso da publicidade Blockbuster vendido, longe da experiência rasa da ação contínua, o grande triunfo dele é saber escapar deste ciclo (ou destrui-lo, como o Agente Smith pretendia) para se apresentar num emaranhado de camadas profundas e experiências sensíveis ricas em debates. A proposta do filme é e, justamente por isso, transborda para o além da tela justificando sua multiplataforma, de modo que a própria interação de quem o vê e os elementos do discurso o tornam ainda mais profundo e vivo, aumentando a ideia o projeto não como uno, mas um multiplo de pedaços que se complementam, inclusive, com a experiência necessária para alguém assisti-lo em sua totalidade. De todo o discurso, espanta, salta aos outros a transcendência necessária da narrativa: Matrix não é apenas película mas, ainda que não intencional, um grande e perturbador descuido da vida enquanto a conhecemos, no qual se precisa da arte para ser representada como vida; por sua vez, na obra, poderíamos dizer que os humanos enquanto humanos… precisam do Matrix para serem eles mesmos? Difícil quebrar o ciclo da representação do real, assim como difícil quebrar o ciclo na ficção. Somos o que somos, humanos – reais ou representações – no fim, todos um pouco Cypher: apenas negando o que queremos negar…ou realidade, ou vida, ou existência. Um grande projeto, um maravilhoso resultado. Vale a pena ser visto e revisto um milhão de vezes. Bom Dia e até a Próxima Sessão!

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