A viagem de Chihiro

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Tem coisas na vida que você faz ao acaso e elas acabam se confirmando como um acerto sublime. No meu caso, foi esperar para ver A Viagem de Chihiro depois de velho e não quando eu era mais novo, logo que lançou. Considero que, se tivesse visto em outra época, talvez, não tivesse absorvido tão bem a obra, sequer teria gostado. Em virtude disso, a idade e o destino acabaram pesando: esperei e valeu a pena. Como todo desenho japonês (este mais que os outros, por ser a obra-prima da classe), há um misto de elementos muito complexo para, digamos, uma criança ocidental absorver com maturidade. No final, seria apenas mais um na lista dos vistos e superados.

Primeiramente porque a obra não tratada a dar destaque por uma história – o elemento, percebo eu, mais calcado na simplicidade em si – mas, sim, claro, na narrativa de todos outros elementos que não por ela: é um filme predominantemente visual, indiscutivelmente estético. Poderíamos, também, discutir os pormenores moralistas da coisa – ou na comparação “estranha” entre as diferenças espirituais do Oriente aos nossos olhos, de modo que o mundo dos espíritos é, entre outras coisas, um espaço não apenas de seres, mas objetos, espaços, locais etc. É incrível como este reflexo retrata uma situação rica em personagens que de outra forma não poderiam se comunicar pela linguagem (como um rio, uma montanha, na visão Ocidental, apenas elementos de cenário) e acabam ganhando seu espaço em um diálogo metafísico postos como criaturas como nós, todos no além-mundo como iguais.

Entretanto, o maior triunfo não se dá por parte deste elemento separadamente mas, como dito, pela sua composição visual: A Viagem de Chihiro funciona, principalmente, porque é belo, estupendamente bonito. Com um caráter ao que parece pintado à mão, uma aparência rude e interessante de uma animação feita artesanalmente (e eu não sei se é digital ou não, admito, mas o efeito rústico funciona), toda graça, todo esplendor do projeto é, justamente, embelezar os olhos do espectador com uma série interminável de poesia visual; o conto se segue não apenas pela sua força como o que é contado mas, mais do que isso, por como é mostrado. Todo o impacto do entendimento é possível diante dos traços e criações que são confabulados na beleza da animação, desde a estranheza de criaturas absurdas – monstros, bichos falantes, espíritos austeros, bruxas cabeçudas – mas também no esquema leve de cores meio esbranquiçadas: o mundo do filme acaba, como uma pintura, parecendo frágil, sublime mas passageiro, delicado como um grande quadro em movimento e já desgastado – mas eterno na mesma retórica; impossível e possível ao mesmo tempo.
2As dedicações em retratar um discurso, a vida que se vai além dos conhecimentos terrenos, a passagem para um universo espetacular entre bruxas caricatas e súditos alegres em um hotel bizarro, são possíveis graças à tradução desses anseios de modo que o próprio filme pareça, antes de tudo, uma grande mentira, uma obra de arte pintada refletindo a vida em um espelho: nada lá é, de fato, a realidade mundana, como fica evidente na execução dos seus criadores: um afresco, arte viva, se tratando de um grande conto sobre o espetacular de forma que o próprio espetacular se torne visualmente aparente; ele representa a máxima do projeto, afinal, garantindo que isto esteja dito sem uma palavra, apenas com as estruturas possíveis ao se olhar. A mágica, a graça do impossível não é confirmada nos atos – estes apenas ressaltam o que já sabíamos através das ações – mas está, antes mesmo, naquilo que podemos ver diante da beleza inerente de cada uma das criaturas representada quase de maneira singular em seu universo de perfeição estética; um trabalho árduo de criação e dedicação em que cada segundo, cada frame fosse possível separadamente na mesma beleza: parece que estamos vendo milhões de quadros sobrepostos que “contam algo” na sequencia que são mostrados.

Como fica aparente ao espectador, ele é convidado a entrar na história, parte da narrativa, por se sentir envolvido pela estética. Se a mágica da película tem este efeito enquanto a própria narração nega o moralismo da mesma (de modo que a mágica apresentada é, antes de tudo, pragmática, com efeitos óbvios e não estabelecidos diante do bem e do mal), isto é confirmado ao próprio indivíduo que vê a obra, levado a, por ela e como ela, confirmar a potência da mágica proposta da mesma maneira que a ficção ao qual ele é inserido como espectador: ele está lá para senti-la, não para julgá-la.

3As representações destes aspectos só poderiam ficar melhores ainda na profundidade física do plano de fundo de cada momento, que parece não apenas complementar o ato para os personagens mas, também, fazer parte deles com sua elegância sublime: deste o hotel, ao restaurante, aos quartos, às montanhas, tudo é extremamente rico – quase como se tivesse vida própria – para alterar os rumos da trama com a participação dos que lá estão presentes e fazem parte dos acontecimentos; isto se mostra mais forte principalmente nas cenas  do hotel, no qual o mesmo se apresenta tão grande e imponente que parece não ter um fim possível, numa imensidão de quartos e possibilidades é quase como, também o resto, um ser vivo que está lá para agir aqui e acolá de forma a influenciar no rumo das coisas e participar dos resultados como uma figura ativa.

Por fim, A Viagem de Chihiro é o uno que é múltiplo: uma obra que vale pelos elementos soltos mas que, assim, são reconhecidos como um todo inquebrável, uma película extremamente composta em detalhes estéticos individuais que se suplementam na própria soma. De uma qualidade sem igual, vale a pena ser visto muitas vezes. Boa Tarde e até a Próxima Sessão!

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