Twin Peaks O Retorno – Minhas impressões sobre a nova temporada

1

Como todo épico, antes de existir já se transforma em lenda pelo trabalho hercúleo. No primeiro post que fizemos sobre a volta de Twin Peaks, haviam apenas anunciado um mini-retorno da série com uma terceira temporada. De lá pra cá, David Lynch já deixou o projeto, foi reintegrado…e o número de episódios dobrou: o que era pra ser em 9 capítulos, agora vai vir em 18. Muito dos boatos que estão circulando por aí dão conta de que a briga com o Lynch era justamente por este fator; e, se o empenho do diretor é TANTO a ponto de deixar a série se ela não fosse feita como ele queria, meus amigos, vem aí outro final histórico tal qual foi a segunda temporada. Como dito, já é épico antes mesmo de nascer; assim como o antigo post, nesse tempo eu também andei aprofundando minhas impressões sobre a nova temporada. E o que se segue abaixo é exatamente o que eu espero dela em termos de história – lembrando que, claro, CONTÉM SPOILERS, então pra quem não viu, NÃO LEIA MAIS ESTE POST.

Twin Peaks – Terceira Temporada:

Sobre a mudança de protagonista: Mark Frost e David Lynch já sinalizaram que “era uma ideia desde o princípio” mudar o protagonista; a escolha deles, no entanto, me fez discordar completamente. Na minha singela opinião, funcionou apenas como maneira de despistar; portanto, ainda que eu concorde com a mudança de protagonista, na minha versão da terceira temporada ele não virá a ser o mesmo que os diretores planejaram. É, por isso, que eu começo minha história com este novo/velho protagonista que, por sua vez, dará todo desenrolar a trama: o retorno de James.
Como todos se lembram, James vai embora da cidade nos episódios finais, sem saber exatamente o que aconteceu na cidade; a ideia dele era retornar logo para Twin Peaks mas, o que vejo, faz muito mais sentido – como dito que a cronologia da terceira temporada iria manter o tempo decorrido – que o começo da nova série se dê com James retornando à Twin Peaks.
A partir disso, há umas questões a se resolver: já sabemos de antemão que as atrizes que interpretam Laura Palmer e Audrey Horne retornarão; lembremos também que ambas morrem na série original (Laura Palmer com certeza, Audrey “dando a entender”). Há, junto com elas, outros personagens que acabam com destinos dúbios não finalizados, entre os principais: Window Earle, Leo e Annie. Como esperemos que todos retornem em peso, parti do pressuposto que todo personagem no qual o ator não morreu na vida real estará novamente na série. Por isso, há de se considerar COMO dois personagens mortos (Audrey e Laura), entre tantos com um final bizarro (Earle, Leo e Annie) poderiam reaparecer fazendo algum tipo de sentido à trama.
Neste ponto, o debate é meta-narrativo: eu, como espectador, não espero sentido de Twin Peaks – e acredito que os diretores, em especial Lynch, também não. Digo, claro, há a construção lógica da história, porém, vejo que por “sentido” estejamos estabelecendo algo mais restrito e que não teremos. Por isso, considero uma teoria para embasar o passado (as duas primeiras temporadas) e o futuro (a temporada que virá), de forma que o montante da ideia parta justamente desse contexto: como sabemos, há na série uma metafísica da realidade emaranhada e por vezes totalmente subjetiva ao espectador, os elementos são “apresentados” e cada um pensa o que quiser. Disso, há a minha conclusão sobre as localidades no qual explico abaixo.

Twin Peaks é um mundo, a representação do real como o conhecemos. Nisto, há 2 visões paralelas coexistindo ao mesmo tempo: Black Lodge como a unidade do mal e White Lodge como a unidade do bem. Os personagens coexistem nestes mundos, entretanto não podem coexistir dois ao mesmo tempo em um dos mundos. A exemplo, há um personagem A em Twin Peaks (a realidade), um personagem A em Black Lodge (a realidade má) e um personagem A em White Lodge (a realidade boa); se o personagem A passar de Twin Peaks para Black Lodge, o conflito aparente surgirá, de forma que apenas um deles poderá existir naquele momento, ou “a realidade” ou “a realidade má”; isto pode ficar evidente na situação de Dale Cooper ao final da série que, ao adentrar o Black Lodge e de lá sair, fica subentendido que retorna como “a realidade má” (na representação de BOB, o mal absoluto) e não como o Dale Cooper que havíamos conhecido (a realidade). Faço um acréscimo no qual acho crucial: eu considero que o Red Room é uma terceira realidade a parte, quase como um limbo, um pequeno local no espaço-tempo onde os personagens possam coexistir todos ao mesmo tempo – é, por isso, inclusive, que acabamos vendo dois Dale Coopers no final da segunda temporada, de forma que o que é mostrado ao espectador não é o Black Lodge, como muitos pensaram, mas, sim, o Red Room, onde isto seria possível. Logo, em virtude desse fato, o que nos é apresentado considera, por fim, o seguinte esquema: Twin Peaks (realidade), Black Lodge (realidade má), White Lodge (realidade boa) e Red Room (realidade múltipla e neutra). Compreendendo esta visão, podemos voltar ao início…

2

Ao retornar para Twin Peaks, James já não reconhece absolutamente nada que conhecia, porque obviamente se passaram cerca de 25 anos. O principal ponto, aqui, é James se redescobrindo na cidade, tentando restabelecer os elementos no qual faziam conexão com ele e a própria cidade, de forma que a volta dele seria como, para o espectador, retornar à coisa – o panteão da série – como num primeiro contato. Por isso, tudo é, de certa forma, uma novidade para James, além de algumas informações que ele não lembrava ou sequer sabia que existiam. Logo, ao retornar, James se depara não só com aqueles personagens que todos nós imaginemos que já estavam lá e nada aconteceu, como Lucy, ou Bob, ou Big Ed. James também se encontrará com Dale, Leo, Audrey, Earle, entre todos que, para nós espectadores ávidos de 25 anos atrás e pela lógica NÃO PODERIAM ESTAR LÁ COMO ESTÃO (claro, James não tem ideia disso, como personagem ele está presente no espaço-tempo cronológico da narrativa; apenas nós sabemos dessa informação porque, enquanto espectadores, podemos assimilar os acontecimentos passados das duas temporadas anteriores num curto período). Por este motivo, ficará subentendido que, com o retorno de James e do espectador à Twin Peaks (realidade)…ele não retorna à cidade de fato. Muito pelo contrário, a transposição dos mundos será megalomaníaca e surreal: James retorna ao próprio duplo de Twin Peaks (ou realidade má, ou realidade boa, ou múltipla)!*

*Isto, inclusive, justificaria o nome da série em alusão à narrativa: o gêmeo idêntico daquilo que na verdade não é o real. Dois picos idênticos porém não o mesmo.

Twin Peaks por inteira será um falso-duplo de si mesma, de modo que, aos poucos, tanto James quanto nós nos daremos conta pelos detalhes, nada muito explícito. Tudo ficará apenas magistralmente caótico quando um motivo peculiar vier a ocorrer…Como sabemos que Laura há de retornar, o choque para James – e nós – se dará justamente ao se deparar com Laura na cidade; claro, como a cidade não é (realidade), por sua vez, Laura também não será mas, sim, algum de seus duplos no qual saberemos também mais adiante no decorrer da trama.
Desse ponto em diante, para mim, a série ganha um discurso metalinguístico ainda mais denso; como a ideia da nova temporada é, de fato, dar um fechamento para o panteão criado por quase 30 anos, porque o fim não pode, por si, ser o começo de tudo? Explico. Se considerarmos a volta de Laura Palmer no seu duplo e se considerarmos Twin Peaks também no seu duplo, abrimos caminho para uma proposta totalmente insana: digamos que Twin Peaks esteja vivendo através do Red Room – na multiplicidade de caracteres – então, por toda hora, podemos nos encontrar com as duas realidades: personagens bons e maus sem que James saiba disso. Portanto, ainda que imaginemos uma Laura Palmer má, logicamente, teremos a Laura Palmer boa.
Dito isso, se considerarmos o condicionamento da narrativa da série no seu início, veremos um fator interessante: é a morte de Laura Palmer (realidade) que destrói, por assim dizer, tudo que conhecemos de Twin Peaks (realidade). Isto porque, após a morte, todas as supostas mentiras da beleza moral de cada um dos habitantes começa, também, a cair por solo; sendo assim, não é apenas o ato da morte de Laura Palmer (realidade) que representa o fim da inocência feliz à Twin Peaks (realidade) mas, também, a própria Laura Palmer. Poderíamos alegar que, de tudo que ocorre em virtude da morte é, de certa forma, Laura Palmer que “dá fim” a Twin Peaks (realidade). A partir disso e, considerando a volta de James em uma Twin Peaks (múltipla) e também considerando a possibilidade de duas Laura Palmer, a terceira temporada se afunilará ao ponto de culminar em apenas uma expectativa possível: é Laura Palmer em seu duplo bom que restabelecerá a ordem nos planos, retomando Twin Peaks (realidade) para a única possibilidade de existência.

Nisso, há a beleza poética por trás da narrativa: como Laura Palmer trouxe o fim da realidade como apresentada, é dever dela e apenas dela restabelecer a realidade. Laura Palmer “deu fim” para Twin Peaks e, quase 25 anos após, a trará de volta ao seu centro, completando, assim, o ciclo completo por toda história. Logo, o fim da série nestes 18 episódios, portanto, na verdade solidificará um novo começo, como se os 25 anos em questão apenas consumissem um gap que não existiu. O que Laura Palmer fará será contemplar ao espectador a ideia de que Twin Peaks (realidade) finalmente seguirá rumo após tudo acontecido, por isso, o fim físico (o final da série) é, na verdade, o começo metafísico (a continuidade da vida em sua normalidade aos personagens onde, claro, nunca veremos, apenas imaginaremos).

Este terceira temporada não representará apenas o fechamento da temporada em si, mas todo o planejamento de 25 anos de um multiverso no qual tudo se constrói caótico e deve se restabelecer pela única possibilidade aparente: o fim é o começo, exatamente o contrário que esperaríamos.

E aí, o que acham dessa possibilidade? O roteiro engrenaria em um plano tão absurdamente maluco? Eu acho que é a única maneira de Lynch ser Lynch e deixar todo mundo embasbacado com um final surpreendente. Sem mais, deixo vocês pensando; fiz um desenho que coloco abaixo, tentando explicar a cronologia dos atos para facilitar a imaginação. Boa Noite e até a Próxima Sessão.

temporal twin peaks-01-01

Anúncios

Um comentário sobre “Twin Peaks O Retorno – Minhas impressões sobre a nova temporada

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s