The Wicker Man

Por pura coincidência resolvi ver o Wicker Man original faz uns dois dias; e, seguindo o curso da história, veio a se confirmar a morte do lendário Christopher Lee logo depois. Talvez uma das obras mais bizarras do cinema, Wicker Man mostra porque Christopher Lee era quem era; diz-se por aí, eu nunca confirmei a veracidade – mas vou aceitar como – que o falecido mito havia dito algo mais ou menos assim: “todo ator vai fazer um filme ruim na carreira, o importante é que atue bem do mesmo jeito”; não poderia concordar mais e, não só atores, todos os agentes na produção de uma película – diretores, produtores etc. – vão acabar passando por isso. Acontece que a frase de Christopher Lee não aborda um outro ponto: e quando o filme é estranho? É difícil de caracterizar isso, mas estranho não é necessariamente ruim…apenas estranho.
Talvez Wicker Man seja uma das obras mais propícias a esta característica e é, sem sombra de dúvidas, o projeto mais maluco na carreira do imortal Sir. Da sinopse pouco podemos dizer, afinal, a montagem da história é, em si, até bem simples, com um filme de investigação sobre um suposto assassinato ocorrido em uma ilha inglesa distante; de como um policial vai parar nessa ilha e, através da investigação, acaba descobrindo fatores estranhos sobre os moradores. Centenas de filmes já foram feitos assim, antes e depois de Wicker Man, porém, não é por isso que ele se destaca.

Neste projeto, a grande estranheza é a o montante de argumentos estéticos adotados na narrativa, difícil de traduzir em palavras sobre; o que poderíamos dizer? O longa começa como um auspício de musical, entre uma e outra canção bizarrísima num tom new age de voz e violão misturando polkas tradicionais, passa por cenas que dariam orgulho a qualquer pornochanchada brasileira dos anos 70 e, ainda assim, consegue manter um mistério sinistro no ar – sem parecer cômico, embora tenha todos elementos para ser – constrói um universo doentio de pessoas peculiares, sintetizado em uma das cenas mais emblemáticas do cinema de suspense, com uma passagem assustadora focando num grupo circulando pelas ruas com essas máscaras tenebrosas:

wicker man christopher lee

wicker man cristopher lee

Desenvolvido em opostos aparentes, a construção da narrativa reforça uma doideira new age pagã entre natureza e amor livre (tal qual as músicas diegéticas e extra-diegéticas que dão padrão ao discurso) e todo a sorte de argumentos em voga na época que foi lançado, mas constituídos não como operação de finalidade em si, eles só servem para reforçar o mistério por trás da falsidade na investigação policial: por que pessoas tão apegadas em argumentos tão leves e edificantes, como o amor, matariam uma criança e, ao final, esconderiam todas as provas sobre? A doideira new age acaba funcionando como um trampolim – como dito…estranho – para todas as peculiaridades macabras do filme, de maneira que a obscuridade em volta daqueles habitantes só pode ser compreendida justamente porque eles se mostram como felizes e transcendentais assassinos, frios, sinistros, mas completamente desapegados de todo o moralismo religioso tradicional da Europa cristã. É como se o amor se justificasse como função em negar a violência da morte; de certa forma eles matam, são cínicos como o resto do mundo, mas por um objetivo compreendido apenas na microesfera da ilha, como se em algum ponto da história ali tudo fosse diferente, inclusive as construções morais mais básicas.
Por esta visualização, inclusive o nome da obra – que aparecerá retóricamente em imagens nos minutos finais, em outra maravilhosa cena que talvez supere a cena das máscaras – torna ainda mais estranho o projeto: o Wicker Man, traduzido para Homem de Palha, pode-se dizer que, como deixa claro, é um homem-que-não-é-homem, ele aparenta, recria o que somos…mas é de palha. Como a narrativa e, por ela, como são mostradas as pessoas da ilha, como É a ilha, o Homem de Palha poderia ser compreendido por todos de lá: eles não são o que aparentam e, por fim, eles não são como homems, apenas palha, constituídos em um culto anti-homem no qual, através disso, preservam a si, os homems que querem se validar como tal. A ilha que afirma o amor, a moral do homem, é também aquela que nega-o, em assassinatos macabros, para poder existir como tal. Todos lá são, por sua vez, vazios como o Wicker Man que os define.

Christopher Lee in Robin HardyÕs THE WICKER MAN (1973). Courtesy: Rialto Pictures/ Studiocanal

Neste grande filme, como homenagem e escolha pela crítica feita, claro, destaca-se o mestre dos mestres Christopher Lee, como o grande “pai”, por assim dizer, o lorde da ilha que coordena todas as outras criaturas. Em mais um papel marcante, com sua voz inconfundível, é notória a afirmação dele em se confirmar, não só com a boa atuação em filmes ruins, mas também estranhos. Uma obra espetacular e incrivelmente sui-generis. Boa tarde e até a Próxima Sessão!

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