Nosferatu, de Herzog

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Dizem que o personagem de ficção mais reproduzido no mundo é Sherlock Holmes, eu tenho minhas dúvidas. Dentre tantos possíveis há, também, o famoso e imortal (em todos os sentidos) Drácula. Vampiro, Nosferatu, como você quiser chamá-lo, a história de Bram Stroker foi readaptada, principalmente para o cinema, um milhão de vezes. Basicamente todo grande diretor fez a sua versão do vampiro, as vezes alterando o nome, mas mantendo a mesma história em si. Com Herzog não foi diferente e, como também era de se esperar, o Nosferatu dirigido pelo alemão é um dos mais incríveis de todos. Da história, nada há de muito novo. Com o mesmo desenvolvimento padrão, conhecemos o comerciante que vai negociar um terreno diretamente na Transilvânia para um conde riquíssimo e misterioso, acaba preso em um universo psicológico e doentio, escapa e, neste meio tempo, o mundo virou do avesso – mortes, terror, sangue, vampiros…tudo que ele perdeu enquanto tentava escapar. Dito isso, claro, como a maioria, Herzog nem sequer tenta fugir do repeteco; embalado no que era de se esperar, o seu Nosferatu é uma reprodução (quase) literal da história que tanta gente fez. Há, entretanto, um destaque sublime na construção narrativa de outros elementos, tornando o filme em si, digamos…tétrico demais (e, neste caso, isso é evidentemente ótimo).

Eu não acho que uma análise dos elementos separados seja a maneira mais eficiente na percepção de um filme, justamente porque numa proposição metafísica, estes elementos só são realmente adequados e positivos naquilo que os condiciona a atribuição do todo: quando eles deixam de ser eficientes apenas no particular – ou neles mesmos – para serem grandiosos no auxílio da construção da obra em unidade. Mas, as vezes, há de se reconhecer o mérito dos elementos separados. É o caso desta película; se há grande acerto de Herzog, não é na união do todo que, afinal, se fosse só isso faria este projeto mais um entre tantos filmes iguais, mas exatamente no acerto dos particulares. Em primeira mão, já matamos de cara uma das trilhas sonoras mais sensacionais do gênero; grande parte da trama é somada por uma trilha invasiva – e eu geralmente não gosto de trilhas invasivas – mas que, neste caso, funciona espetacularmente bem; o trabalho musical é, talvez, o ponto de partida no grande acerto do filme. Notamos que a tensão construída pautando os elementos do espectador é, em quase absoluto, produzida pelas condições musicais propostas em determinamos momentos de maneira bem didática, induzindo a condução da narrativa à expectativa de momentos bem definidos dentro do suspense e da tensão. A maneira como a trilha é colocada é indiscutivelmente forte para o desenrolar da obra, mas não seu único acerto.

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Algumas pessoas dizem que toda música é, por si só, um objeto audiovisual. Isto porque, ao escutar, espera-se uma relação não apenas de deleite sonoro, claro, também uma produção imaginativa nos aspectos visuais: aquelas imagens que toda música cria na mente do ouvinte; e está aí o segundo grande acerto do diretor: se a trilha embala o suspense, ela é levada a nos direcionar em imagens no qual o próprio diretor condiciona o espectador a se correlacionar com o esperado. Isso já fica evidente na primeira cena do filme, numa condução sensacional entre um momento de introdução totalmente estático, apenas com a passagem de uma cena (horrorosa) de corpos ou bonecas – eu nunca identifiquei – seguida pela belíssima trilha. Os poucos segundos iniciais já ditam a genialidade do diretor que, apoiado em suas virtudes, deixa claro que a construção do filme é como ele pretende ali, assustadoramente parada, incômoda pela visão atrelada ao que se ouve – não por uma ação frenética de caça ao vampiro ou por violência exagerada e muitos diálogos – o medo do filme é um frame, um momento, um segundo de imagem e música sem movimento… que levará o espectador a uma outra realidade, imaginando nestas pequenas cenas a construção do terror em sua cabeça, quase como a mesma alucinação dos personagens ao lidarem com o vampiro.

Com isto e, conhecendo o diretor, já imaginamos que o seu filme de vampiro é, antes de tudo, estético. O grande feito da obra não é tentar ser diferente, ou roteirísticamente inovador, ou em grandes atuações (embora ainda assim o tenha, como no caso do próprio vampiro) mas, sim, em saber confrontar o medo quase como se fosse uma pintura. O medo de Herzog é puramente filosófico, mas seu discurso não se dá em palavras e sim na mistura de sons e imagens. Do conceito esperado, o resultado é aparente no choque da afirmação e, se Drácula como conhecemos é uma criatura lendária e estagnada na sua realidade em não poder mudá-la ao longo dos séculos, o medo do diretor também se apresenta do mesmo jeito: estático, parado em si, enigmático por não ser nada brusco, de movimentos sutis… mas presente. Vemos e ouvimos tudo, sabemos que ele existe – como o morcego voando na neblina escura da madrugada – mas nunca conseguimos de fato dinamizar a sua existência. Para um filme, é extremamente difícil construir seu desenrolar de motivos de forma a ser grandioso como algo estático, mas Herzog o faz. Olhamos extasiados como em um absoluto, imaginando cada momento separado pela beleza assombrosa daquele segundo, mas o reflexo disso é justamente no todo uma obra que funciona exatamente em contradição. Ser como é, é o que faz Nosferatu de Herzog maravilhoso e único. Um filme para ser visto e revisto, tantas vezes quanto se desejar.

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