1408

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Existem gostos bizarros que ficam difíceis de se explicar racionalmente e, para mim, se tratando de filmes, por muitos anos foi o caso de 1408. Ok, não podemos dizer que é uma obra medíocre, quiçá mediana, mas não há nada de tão encantador que explique qualquer relação de experiência sublime diante do meu anseio em ver e rever esta película. No entanto, algo naquele filme me encantou – e me encanta ainda. Eu não consigo passar em branco ao ver reprisando por aí e de algum modo cada segundo me prende, mesmo sabendo de todos clichês, ou falhas, ou coisas do gênero que o transformam em um terror extremamente previsível em alguns pontos, mas tão encantador em outros tantos.
Na dinâmica narrativa do terror moderno, vários são os pontos fracos da obra – os clichês aparentes – como a necessidade de conduzir o espectador com seus sentimentos pela trilha sonora (aquele clássico subterfúgio de dar sustos aumentando a amplitude dos efeitos em determinados pontos), o plot twist obrigatório no final, alguns personagens colocados no arco da trama de modo extremamente alegórico, como o caso de Samuel L. Jacskon, o antagonista caricato apenas para reafirmar elementos da própria história. Mas, mesmo com tudo isso, ainda assim, há um brilho generoso no que o filme acerta.
É difícil dizer porque ou como, mas a construção da solidão do personagem principal (interpretado por John Cusack) é brilhantemente explorada ao longo dos cenários; pouco importa o dramalhão familiar – que a meu ver pouco acrescenta, apenas deixa meio cômico, meio exagerado – não é este aspecto que o torna um personagem tão interessante e tão bem construído. De fato, a sua história é apenas mais um clichê: o protagonista que sofre um baque na vida e se torna amargo até descobrir revelações bombásticas sobre o próprio baque. Fosse apenas isto, seria apenas bobo. Mas é exatamente na exploração do clichê sobre o personagem – a sua solidão – e como isso reflete estritamente nos cenários no qual ele percorre ao longo do filme que a obra se torna tão boa.
1408 é uma performance estética, um discurso através de imagens. Nada é dito mas tudo está lá; vemos o desenrolar de toda a pobreza, o vazio, a irritação e suas relações psicológicas, todo o potencial universo do nada na construção daqueles hotéis e, claro, em especial do quarto que dá nome ao filme. Os cenários construídos na obra, o torpe universo de um quarto de hotel como tantos outros, feio, pragmático, igual, repetitivo, é o mundo de imagens necessário para desempenhar o incômodo sobre o que ele é exatamente: um algo que não aparenta ser. O quarto não é uma casa, embora tente recriar, não é plenamente aconchegante, embora tente recriar, não é bonito, embora tente ser…por fim, ele não-é tantas vezes que se afirma assim: por não-ser, define-se como personagem ideal para o próprio protagonista que, em dúvida consigo mesmo, acaba surtando na falta de também não conhecer a si mesmo em meio a tanto mistério e tantas passagens negativas do seu passado.
Mas isso não é dito em palavras pelo quarto, que obviamente não fala, apenas se apresenta no desenrolar das propriedades no qual ele mesmo emana: ele mata pessoas, nega a vida, nega o conforto, nega a sanidade; estar naquele cômodo anti-estético, anti-ser é, por isso, ser engolido por ele. Dessa forma, talvez sem querer, a genialidade do diretor em criar determinados clichês que poderiam desmerecer o filme acabam fortalecendo a trama. Tanto o personagem alegórico do gerente do hotel quanto o próprio protagonista soturno e solitário, todos desempenham um papel afirmativo e oposto ao quarto – o verdadeiro grande ator da obra; afirmativo porque, justamente por serem tão toscos ou previsíveis, acabam criando uma dinâmica antagônica ao emblemático 1408…como dito, funcionam como o contrário extremo do quarto. Se ele é grandioso e misterioso, os outros a sua volta são apenas previsíveis e só servem exatamente para isso, de apoio ao grande destaque.


Neste universo no qual o grande mestre do filme é um objeto inanimado e que não fala por si, é aí que brilha o encanto da obra. Sabendo do silêncio e da inatividade óbvia de seu principal elemento, a trama toda afunila na expectativa de ser exatamente aquilo que imaginamos no início: 1408 há de ser um ente potente, esmagador, bizarro, forte. E estas características se desenvolvem ao ver como a relação do personagem vai ficando cada vez mais debilitada por entrar lá. Uma frase marca a proposta: a banalidade do mal na frivolidade. E é exatamente isto que transcorre a narrativa, na inesperada desenvoltura em um simples e tosco quarto de hotel ser, por fim, um dos inimigos metafísicos mais assassinos, mais vis do cinema contemporâneo, submerso em mortes, assassinatos, suicídios e toda sorte de crimes inexplicáveis justamente por ser um quarto como tantos outros.
No final, embarcamos na loucura do projeto e esquecemos dos problemas evidentes. Ao nos depararmos com a vilania apresentada em imagens – sem palavras, sem inimigos reais, sem nada, apenas o psicológico – o quarto, como na ficção do protagonista, nos domina e leva a acreditar no terror. Ele existe lá, exatamente por não poder existir em outro lugar; a banalidade está na simplicidade do marasmo naquele local que, embora tivesse tudo pra ser como outros, é extremamente especial justamente por ser o tal simbólico quarto 1408.
Nos deixamos levar pela obra e nos vemos presos aos minutos lá dentro – com o cenário limitado pelo efeito de câmera de estar inserido no próprio assassino, ou seja, o quarto 1408 – nós, os espectadores, como o protagonista da ficção, de certa forma estamos presos ao enigma. E nos vemos claustrofobicamente incumbidos em tentar, ou ao menos torcer, para que tudo ocorra bem e dê um final melhor ao personagem, ou ao menos que ele consiga sair daquele maldito ambiente.

3
Um filme inesperadamente bom e que eu gosto muito. Vale a pena ser visto e revisto e, para levar na memória, toda vez que for viajar, lembrar do maldito quarto de hotel assassino. 1408 é uma grande pequena peça de terror.

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