Dr. Strangelove ou Dr. Fantástico

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Este é, evidentemente, um filme sobre paixões. Não sobre casais, claro, mas sobre artistas sublimes em busca de resultados perfeitos: na direção do impecável Kubrick, mais uma vez magnífico, assim como do excepcional e inesquecível Peter Sellers que, na minha singela opinião, é um dos maiores atores – ou talvez o maior – em qualquer quesito possível, mas em especial na suas aparições no cinema de comédia. Aqui, como era de se esperar, os gênios se complementam. No apoio de um, o outro se fortalece; fica difícil delegar em qual dos dois a obra ganha este peculiar ar de clássico, constituída de uma maneira tão leve e, como a maioria das grandes atuações de Sellers, numa comédia misturando muitos diálogos e expressões faciais características no artista, interpretando vários papéis diferentes de modo caricato e único.
Dr. Strangelove monta sua história numa ficção da Guerra Fria, por trás de uma trama onde um General maluco manda um avião americano explodir alguns pontos estratégicos na Rússia e, para evitar o problema todo, o Presidente americano é avisado e tenta contornar a situação da melhor maneira possível, ora falando com seus outros militares, ora falando com os russos, ora falando com quem precisar falar. Nos papéis de Sellers, há três momentos: um como militar subordinado ao General maluco, o outro como Presidente americano e o último na pele do Dr. Strangelove, um conselheiro/guru que dá pitacos para os americanos sobre os projetos russos.
Mas, antes mesmo da atuação, o primeiro destaque provém de como Kubrick resolve contraditoriamente tocar num tema que, na época, emanava toda sorte de polêmicas – afinal, o medo da guerra existia – para, pelo jeito dele, relatar algo supostamente tenso, horrível, de uma maneira tão cômica. Note que a apresentação da película pelo diretor possui um caráter bem dúbio justamente em virtude deste fato, da construção sobre o tema polêmico, e talvez isso também deixe-a tão engraçada; no começo, pouco sabemos interpretar enquanto espectadores sobre o que se trata a narrativa, parecendo em muitos pontos um filme clássico de ação daquela época, os primeiros minutos são justamente apresentados para confundir quem os vê, sem saber exatamente no que vai desenrolar, preso num crescendo espalhafatoso de piadas no qual, aparentemente, a princípio, são enganadas por um ar de ‘seriedade em demasia’. Este trabalho permite a Kubrick brilhar, como diretor, apontando um lado um tanto quanto irônico na sua obra, mostrando que mesmo no pior dos momentos há, sim, como o próprio momento se tornar algo extremamente idiota (no sentido da graça), justamente sendo mostrado pelo discurso de quem sabe o que faz. Isso também permite ao corpo de atores lidar com a mudança drástica de comportamento de forma mais absurda ainda, de modo que e, principalmente na entrada de Sellers em cena, ainda na dúvida sobre o conteúdo do filme, vemos o ator fazer uma das aparições mais cômicas do cinema exatamente por não estarmos nem preparados para Sellers, muito menos para o humor.

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A veia artística dos dois, diretor e principal ator, funciona extremamente bem nesse sentido. A contradição entre seriedade e risos no crescendo no qual um suprimirá o outro – no caso, o riso ganhará da seriedade – é um papel importante na construção narrativa no qual Kubrick coloca dois universos se sobrepondo: o lado sério do General maluco e seus soldados preocupados com a guerra, depois o lado cômico na disposição do presidente apaziguador e amigo dos russos e toda a sorte de militares sem saber como lidar com isso. Sellers, novamente, explode seu talento ao entender a proposta de Kubrick. Construindo seus personagens numa mistura de austeridade e humor, há uma fina graça resultando nos diálogos, no qual nunca sabemos exatamente se Sellers quer nos fazer rir, mas acabamos rindo igual diante do absurdo em sua totalidade. É quase como se nosso riso fosse arrancado a força, justamente pela atuação genial do ator em construir extremos tão grandes no qual o mais sério dos espectadores não pode deixar de passar despercebido: tudo o que ele fala, como ele fala, sua entonação, trejeitos, faces, expressões, pontuação, TUDO é, indiscutivelmente, um elemento do riso. Sellers é, em sua totalidade, um ser engraçado. Como ator, todos os segundos deixam evidentes a sua missão em ser isto. E, como era de se esperar, dirigido por Kubrick, o resultado não poderia ser outro senão a genialidade.
Deste ponto, não podemos ignorar os outros atores, também, de modo que ninguém é estritamente egoísta na trama – e isto contribuí para o processo. É evidente que o brilho está no seu ator principal, mas a escala dos arcos narrativos só ganha contornos exponenciais justamente porque todos os outros personagens são, também, muito bem elaborados dentro de suas atuações. Desde o General maluco até os outros militares, assim como os tripulantes do avião e os russos, todos são extremamente bem explorados de forma a criar uma dinâmica funcional à mensagem no qual Kubrick quer construir seu sentimento de graça. Nenhum dos papéis parece solto, ou discrepante, na medida em que todas atuações são colocadas essencialmente bem distribuídas com o perfil de cada ator, funcionando quase como se cada um não estivesse atuando de fato, mas fosse o seu papel em pessoa, bem experimentados dentro da narrativa e na dinâmica temporal ao longo do roteiro.

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Talvez esta realidade passada por Kubrick na escolha do elenco ajude, também, a construir um dos pontos principais do filme. Se, como forma crítica, a ideia era mostrar o lado quase pastelão dos fenômenos comportamentais diante de como os governos lidam com os problemas, tudo funciona, novamente, genialmente bem. Isso porque a seriedade dos papéis, como dito, ajuda a estabilizar uma narrativa no qual ‘as coisas são como são’, de modo que, embora vejamos muito humor, não parece como se, de fato, aqueles personagens quisessem ser ‘humorísticos’, por assim dizer. A exemplo, seria como se o Presidente americano REALMENTE se portasse assim em determinada situação, assim como todos outros personagens. É, por isso, a graça da realidade: nosso mundo é perfeitamente tão idiota e cômico que explorar uma das situações mais extremas da humanidade, a iminência de uma guerra que poria fim à Terra, é bem provável que, por trás da tensão, realmente haja uma construção completamente estapafúrdia de momentos no qual Kubrick tenta mostrar com humor. Por isso, o humor é a realidade, as vezes, tão absurda como a ficção. Ou como diz o ditado popular: é brincando que se dizem as verdades.
Um filme maravilhoso e extremamente engraçado; vale a pena ser visto e revisto a exaustão, para que nenhum de nós esqueça como a bomba foi evitada; talvez apenas na ficção, ou talvez na realidade. Boa Noite e até a Próxima Sessão!

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