In the Mouth of Madness

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A genialidade indescritível de um dos meus diretores favoritos, John Carpenter, é posta a prova neste subestimado filme. Difícil algo tão sensacional passar tão despercebido e não receber qualquer endeusamento cult, virar um clássico, haja vista que, em todos os sentidos, esta película funciona como um grande despejo formulaico de todas as coisas na ‘estética carpenteriana’ que dão certo. Seria quase como um grande manual para entender e apreciar o diretor mas, no entanto, acaba pouco lembrado sabe-se lá o porquê, enquanto muitas outras obras mais duvidosas do próprio diretor são apresentadas com mais importância que essa.

Fica difícil separar fragmentadamente os acertos da trama, de modo que a narrativa é constituída em uma unidade entre muitas coisas que Carpenter e só ele sabe produzir visualmente, assim como uma história extremamente bizarra (baseada em Lovercraft) que, inclusive, serve de aporte para muita da loucura visual inicial. De um modo geral e, talvez justamente por ser tão underground, tão barato, com poucos investimentos, a ideia original do filme seja explorada magicamente com a piração insana de Carpenter. Uma história que remete a um escritor maluco, escrevendo um suposto livro amaldiçoado e um investigador pronto para ir atrás do escritor e sacar os detalhes dessa história são um prato cheio, recheado de possibilidades para um filme assim brilhar como brilha. Não é nenhuma novidade a exploração metalinguística desse tipo de universo no terror, ‘a história que conta a história’ de escritores e, inclusive, no caso de In The Mouth of Madness, fica quase visível a referência à Stephen King (constituída claramente do universo lovercraftiano) entre tantos outros: isto é, por si só, o ponto de partida na estética visual brilhante, contrastando em dois momentos distintos entre comparativos da sanidade dentro da metrópole e da loucura absurda em uma cidade do interior; geralmente, claro, exploramos as ideias ao contrário, onde a metrópole é por si só caótica, enquanto o interior remete toda sorte de bucolismo mas, aqui, como início contextual – e dada a loucura da obra – é importante reconhecer este elemento que embasa um giro de 180 graus no espectador, saindo do mais óbvio gesto de conforto para encarar o contrário; afinal e, como também referência a escritores famosos do gênero, em especial King, sempre nostálgico, sempre bucólico, a desconstrução de sentimentos positivos sobre a imagem da “América rural” provoca um desenrolar surreal de eventos ocultos por trás de toda tentativa de obras anteriores em traduzir cidades pequenas com afeto e carinho quase maternal. Grande acerto de Carpenter que, aqui, já nos premia com sua mão pesada ao escolher mudar os rumos e retoques tradicionais em elementos tão comuns – o conforto está no caos urbano, enquanto a maluquice surge e se aprofunda com quando nos afastamos disso. Mas não para por aí.
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Talvez o momento mais simbólico do filme seja evidentemente visual, a imagem por trás de tudo: a tradução da loucura, para Carpenter, é literal; ele não ‘deixa a entender’ absolutamente nada, pelo contrário, joga tudo na cara da maneira mais intensa possível. E isto ajuda na construção de um estilo de filme que, se inicialmente talvez pareça um thriller ou um suspense policial meio genérico, com o passar dos minutos, aprofunda uma série de cenas extremamente grotescas e assustadoras, desenvolvendo um discurso no qual o diretor é craque: seus monstros, suas criaturas, figuras colocadas em diferentes pontos da narrativa, todos complementam a história exatamente por serem extremamente bizarros; não é como se eles estivessem lá para estruturar um apoio coadjuvante para o desenvolvimento do personagem principal e seu arco dramático, não, Carpenter ignora, inclusive em muitos momentos, a importância de um personagem principal. O discurso se constrói, em muitas cenas, em um diálogo visual muito forte com a imensidão de criaturas horrorosas e bizarras – com um lindíssimo efeito de maquiagem e robôs, diga-se de passagem, em uma época onde graças ao bom Pai ainda não existiam CGs tão pesados – no qual podemos intensificar a relação da loucura sentida pelo personagem principal: ela é palpável, ela é vista em carne e osso em vários momentos ao longo de tantos e tantos monstros naquilo que deveria ser uma pequena visita a uma cidade isolada e tranquila.
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É como se, ironicamente, o personagem principal servisse de apoio ao espectador: o grande toque especial da trama é, literalmente, explicitar a (talvez) loucura onde o investigador fica preso, de modo que, ao assistir ao filme, você não se sente como parte distante da mesma. É uma loucura quase ao seu lado, ela ESTÁ lá e o seu desconforto ao ver a película é, de fato, o mesmo do personagem dentro da história. Desse modo, não há ‘meios caminhos’ na direção de Carpenter, a força narrativa é garantida pela sua maneira nada sutil em jogar na cara tudo aquilo que o espectador pretende ao imaginar uma loucura viável: monstros, fantasmas, sangue, gente maluca, perseguições, uma cidade misteriosa, pessoas assustadoras, um vilão insano, tudo produz efeito na resolução de controlar a tensão do espectador de modo a administrar uma certa dose de pavor ao longo de toda obra, sem nenhum segundo de tranquilidade. Traduzindo na loucura, afinal, também nunca nos ‘sentimos em paz’ com os momentos apresentados em tela.
Grande parte desse sentimento claustrofóbico de Carpenter é, também, medido pela brilhante colorização da obra. Eu sou um grande fã de Giallo e adoro como Carpenter consegue exprimir em sua estética alguns dos elementos do cinema italiano, justamente ao criar um filme que é, em si, tão colorido, tão vívido, mas não para elementos pacíficos (onde normalmente esperamos o acúmulo de cores, como campos infindáveis e céus limpinhos e reconfortantes) e sim na criação de algo ainda mais doente ou psicótico: a super-saturação do filme tem como função básica ‘cegar’ a verdade de quem vê, construindo uma irrealidade palpável até no que se parece real, haja vista que no exagero dos tons todos momentos parecem sensitivamente meio falsos, meio ‘coloridos demais’. Isso ajuda a afunilar todo o processo de compreensão da loucura, inclusive em afirmar a confusão de momentos distintos: o que é real e o que não é, afinal? Dentro da história, pouco podemos dizer, senão pelos olhos do próprio protagonista…ironicamente encarcerado em um hospício.
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Um grande filme, um sensacional diretor, uma obra subestimada. Se você não viu, veja agora mesmo. Se já viu, reveja! Bom Dia e até a Próxima Sessão.

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