Unfriended

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Dentro da construção narrativa de uma obra, espera-se que os elementos necessários sejam utilizados da melhor forma possível: um projeto audiovisual, como um filme é, afinal, não só uma história, um roteiro – fosse isso não teríamos as imagens – mas, também, sua construção estética, aquilo que vemos. Um bom equilíbrio, claro, é esperado para um bom resultado; com um roteiro fraco, não se salva um filme apenas com fotografia e com uma fotografia medíocre, não se salva um bom roteiro.
Nesta expectativa, quando vamos ao cinema, ou assistimos em casa, enfim, quando enquanto espectadores nos dispomos a ver o que seja do universo cinematográfico, é de se esperar que determinadas coisas já estejam lá como lei. Muito disso se dá justamente pelas fórmulas no qual as artes se expressam, numa tentativa de conciliar uma linguagem mais específica, em certos momentos, o uso de cânones – mesmo a ideia mais vaga que se possa ter dos mesmos – é algo recorrente na elaboração de um projeto. Por isso, quando vemos um filme…esperamos VER um filme.
Com a popularização da tecnologia e de certos tipos de espetáculos mais pessoais, tentando dar realidade às tramas, vimos, principalmente no gênero do terror, o surgimento de pilhas infindáveis de obras supostamente ‘handmade’ com o intuito de tornar tudo mais possível, mas real diante do espectador. Com a alavanca que já se formava no distante Cannibal Holocaust, mas ganhou forma de fato em Bruxa de Blair e viu o seu boom mais exponencial depois de Atividade Paranormal, um paradigma foi quebrado: a narrativa trazia, ali, um elemento novo, ao menos na forma como apresentado – em período integral do tempo da película – a ideia de que aquilo não era pra ser um filme, pelo contrário, mas uma filmagem sobre a vida. Nisso, o lado oculto das obras de terror estava sobreposto a ficção e, ainda que assim o fosse, ao menos em sensação, tornava-se mais possível: fantasmas, monstros, possessão… estas coisas existem?

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Porém, em determinados aspectos, nunca foi negado o espetáculo imagético; se a narrativa havia sido suprimida em virtude da realidade, ainda assim, sobrava um sentimento meio irreal…ficcional em filmagens ‘handmade’ justamente por condicionarem alguns aspectos necessários ao cinema: as coisas PRECISAVAM aparecer, este era o efeito por trás do discurso, dar realidade no roteiro mas, ainda assim, manter a irrealidade no que se via.
A gente espera que a arte quebre paradigmas sempre e, por isso, quando alguém surge com algo novo, é importante mesmo com os defeitos vangloriar os acertos, deixando que mais e mais pessoas se utilizem daquela inovação como método criativo. Por isso, ignoro aqui as atuações duvidosas e o roteiro bobinho de Unfriended, este não é o foco na genialidade dentro da ousadia do criador, mas sim a supressão total do cinema; se os filmes ‘handmade’ buscavam uma mescla, um realismo (história/roteiro) misturado com o que não-é realismo (filmagem), em Unfriended se dá um passo adiante. Na tentativa de se adequar ao mundo jovem e a comunicação atual, o diretor ousa e transgride uma das coisas mais óbvias em qualquer projeto audiovisual, exatamente porque o filme não é um filme.
A escolha de Unfriended ao se passar todo como um ‘grande bate papo’, ou uma tela de computador, sabe-se lá como explicar, é extremamente ousada e ao mesmo tempo interessante, porque através desse conceito suprime-se qualquer ideia estética tradicional no cinema justamente para afirmar uma estética de negação: a imagem, assim como o roteiro não importam pela beleza, pela produção construida em relação ao projeto; Undfriended NEGA o cinema ao cinema, construindo um estranho filme onde o todo é essencialmente tão real que, por fim, não existe dentro da tela, apenas fora dela. A surrealidade ao filmar, focar e condicionar um roteiro de forma a este ser executado e só fazer sentido ‘se não for filmado’ é algo que supera todos os problemas que a obra pode ter. Unfriended é algo desconfortável exatamente por confundir: a primeira coisa que eu achei quando coloquei o filme, ao ver em casa, é que havia dado problema e eu estava ‘vendo a tela do meu computador’; logo depois, claro, me dei conta do que se tratava e nesta experiência vaguei num misto de desconforto e perplexidade com o que me deparava. A película, afinal, havia ‘pulado’ a distância da tela e ELA MESMA era a tela, experenciando como se fosse uma pessoa – no caso, o espectador – utilizando o computador para averiguar sabe-se lá o que.
Ao sentir a negação do muro entre ficção e real, vemos se abrir um leque bizarro de possibilidades que não param apenas nessa conceituação, mas também na ideia por trás da derrubada do cinema: pode um filme ser anti-filme? Pode o cinema ser anti-estético, ignorar a imagem?
Se alguém duvida, trate de ver Unfriended agora. Ignore todos os problemas possíveis e apenas aproveite o experimentalismo estranho do diretor. O resultado é, no mínimo, curioso…

Boa noite e até a Próxima Sessão!

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