Mad Max – Estrada da Fúria

 

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O novo Mad Max é algo extremamente curioso. Não pelo seu resultado, no qual achei ótimo em todos os sentidos, mas por sua ambição e da maneira que foi feito; geralmente, nessa nova leva de ‘remakes de clássicos antigos’ que tomou conta do cinema atual, vemos um diretor – que nada tem relacionado à obra original – fazendo uma espécie de releitura do clássico, de forma a incluir elementos contemporâneos na narrativa ao mesmo tempo que tenta prestar uma homenagem. E o resultado disso, logicamente, são colossais porcarias; na maioria dos casos, estes remakes modernos nunca atingem o original… nem sequer chegam perto, funcionando como uma tentativa horrorosa de algo que ele não pode ser: por ser ruim, também não funciona como homenagem daquilo que foi bom; disso, sobram-se apenas os milhões da produção gastos em todo tipo de efeito especial pra encher o tempo e enganar os fãs que, fiéis, vão lá assistir como uma espécie de nostalgia por lembrar do que já foi visto, tentando relacionar ao novo sem muito sucesso. Porém, o caso do novo Mad Max é peculiar justamente porque ele não é nem um nem outro, ao mesmo tempo em que é os dois e melhor, inclusive.

Digo isso porque, primeiramente, a película não caiu na mão de nenhum novato… o diretor é, sim, o mesmo da trilogia lá de 80 e poucos, o australiano George Miller; não só isso e, talvez por ser o autor da série, Miller foge do remake óbvio porque ele não precisa de auto-palmas. É evidente que há uma espécie de nostalgia embutida em reciclar o seu filme mais clássico de ação e também evidente que muitos fãs foram na expectativa de ver isso, porém, o diretor não recria um filme com cara de requentando para prestar homenagem a si mesmo; a essência está lá, mas é tudo com uma roupagem atualizada. O novo Mad Max é, em si, uma sequência (embutida numa nova franquia de personagens) dos outros… do mesmo jeito que idolatra a franquia original!

Talvez tenha sido bom para Miller esperar este tempo todo para fazer uma sequência, amadurecer a ideia e vivenciar outros gêneros no cinema (o diretor, por incrível que pareça, é o mesmo do maravilhoso Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade, por exemplo, um outro clássico subestimado) e carregar essa proposta quando ressurge um gosto por rever tudo aquilo que foi feito nos anos 80 e 90 com uma nova cara. Por essa espera, o diretor pode investir nos dois universos temporais sem parecer forçado; claro, toda sorte de lembrança nostálgica está lá, ele não tenta escapar da proposta de remeter aos clássicos daquela época e inclui tudo que os fãs esperavam: os carros, o deserto, o herói solitário em dúvida existencial, a trilha sonora pesada e o despejo de todo sentimento heteronormativo que a franquia teve para determinar certas características do ‘universo masculino’; se, no caso de Mad Max 1, porém, o filme era mais pessoal e menos estético – percorrendo a história de vingança de um homem num mundo caótico – a evolução dentre a própria trilogia original fecunda o sentimento do extremo: já em Mad Max 3 – a Cúpula do Trovão vemos a estética futurista e distópica, exagerada e quase caricata perdurar nos elementos mais marcantes do filme, desde seus carros até os personagens. Neste novo projeto, Miller segue o curso do rio quase ao natural, incluindo isto com uma visão mais adequada à época – visível até na absorção de personagens femininas mais ativas e uma colaboração entre personagens que distanciam, ao mesmo tempo que afirmam, o sentimento do protagonista solitário…

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Mad Max 4 – Estrada da Fúria é a única possibilidade entre aquilo que se segue adiante. Ignoremos aqui todos os clichês do roteiro e na abordagem da história, afinal, não é disso que se trata; o discurso sempre transcorreu em mostrar um grande filme de ação embasado na sua imagética diante dos elementos possíveis, de ver em tela aquele exagero fictício de algo no qual ninguém sabe sequer se aconteceria de fato (‘como seria o mundo se o mundo quase acabasse?’), em um vislumbre de Western moderno tunado por perseguições de carros e figuras estranhas e bombadas. Nisso, Miller mantém e cresce exponencialmente na lógica que deu certo: o novo filme é uma versão ainda mais explosiva e mais intensa que os seus antecessores e, ao mesmo tempo prestando homenagem, também consegue dar uma ‘nova cara’ às perseguições da época contemporânea nas obras de ação. Não soa brega e nem ultrapassado, porque quando funciona como nostalgia, claro, também é algo totalmente novo e inesperado. O esquematismo disso só é possível no brilhante conduzir do diretor ao lidar exaustivamente com todas as cenas do filme, diminuindo o diálogo inútil para situar histórias e condicionando a retórica por outra maneira, exacerbando a intensidade em uma mistura contrastante de silêncios incômodos contrabalanceados com a trilha-sonora pesada e efeitos sonoros agitando o emocional, da mesma maneira que faz isso com imagens, também, contrabalanceando os planos abertos estonteantes de lutas e ação com planos fechados formulando todo o lado sentimental entre um personagem e outro.

Grande parte disso está na confiança dos seus três personagens principais e ótimas escolhas de atuação: Max, Furiosa e Nux; a intensidade da trama passa em muito nos extremos construídos durante o que se mostra através deles, ora pelo ‘Garoto de Guerra’ criado para morrer que se descobre como um grande herói, ora pela motorista fiel que se torna revolucionária e, mesmo sendo mulher, consegue sobreviver de maneira sublime em um mundo machista e sanguinário, ora pelo conflituoso personagem principal que não sabe exatamente demonstrar aquilo que é (e, aqui, um adendo: a voz de Tom Hardy deve virar patrimônio histórico da humanidade, porque é sensacional demais; novamente destaque em outro filme, além de Bane em Batman; assim como a beleza mitológica de Charlize Theron, que é certamente a pessoa mais bonita do mundo); embora sejam o foco da história, é importante lembrar que todos criam um clima cooperativo interessante, dinamizando a narrativa entre diferentes versões sobre o mesmo prospecto, afunilando justamente pelo apoio mútuo o processo no qual culminará no final extremamente intenso – mais do que o resto do filme que já o é também, justamente por exponenciar todas as relações e ir aos poucos construindo estes caminhos possíveis.

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Mad Max 4 – Estrada da Fúria entende o mundo moderno, mas nasce de uma estreita relação ao homenagear um clássico. Por ser extremo, consegue preencher um branco naquilo que todos esperavam, mostrando um grande filme de ação com as características mais marcantes de antigamente, incluindo muitas novidades da atualidade em uma produção que não transparece nada vazio, em uma direção e fotografia brilhante e o uso metódico dos CGs apenas naquilo que precisava ser CG. E, se o medo – novamente – era que um ‘remake que não é remake’ pudesse afundar uma franquia tão boa, aqui não ocorre isso. Um resultado sensacional mostra que, as vezes, certas coisas podem ser mexidas e reviradas, sim, desde que com as mãos corretas; no caso de Mad Max, nada melhor que a direção de Miller para mostrar isso. Um filmaço e que já vai ser embalado por uma sequência logo adiante; esperemos uma outra trilogia como a original e com tudo que queremos ver: carros, ação, vilões, heróis e explosões, tudo isso ainda pode explorar grandes novidades. Testemunhem este filme, caros leitores, e até a Próxima Sessão!

 

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