World of Tomorrow, de Don Hertzfeldt

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Este é mais um trabalho, outro curta de animação surreal do diretor Don Hertzfeldt. Como nos outros, mais um resultado sensacional em tão curto tempo que fica difícil tentar converter a experiência em palavras possíveis; ainda numa retórica existencialista, numa mistura de comédia e num futuro distópico ou pessimista, Don transcorre sublime não só nos aspectos narrativos diante da trama – afinal, em menos de 20 minutos uma história é montada, com personagens, arcos narrativos realmente complexos a julgar pelo tempo, num fundo compreensível para nos situar em interpretações e percepções possíveis que simplesmente não nos parece que tudo pode ser construído tão rapidamente – mas Don também acerta em não ser convencional na escolha das imagens: o artista não permite copiar um estilo, ou a escolha fácil do desenho aparentemente soft para agradar o cenário da crítica mainstream, ele monta sua identidade justamente ao dar uma cara sui-generis ao próprio traçado. Talvez simples, talvez demasiado minimalista, porém, ainda assim, uma retórica no qual ele mesmo transpassa as ideias, o ar cômico, no propósito montado em figuras extremamente ricas em emoções nos poucos detalhes em tela, confundindo-se em muitas vezes com as projeções ao fundo, em uma série de misturas coloridas em contraponto aos personagens quase sem cor e sem forma, são realmente estruturas estéticas, belas em si, não só figuras complementares e vazias aos olhos, como apoio à história enquanto recebemos informação imagética sem nem nos tocar pela beleza poética da visão em si.
O tom de humor seco dá um toque mágico, exatamente por ser realista mas ao mesmo tempo exagerado num futuro imaginativamente impossível (ou possível… será?), confabulando num universo fantasioso dentro de coisas que geralmente acreditamos poder acontecer mas contrapostos em extremos que não queremos que aconteçam, da mesma forma que a única personagem e principal argumento da trama, também duplicada em extremos contrapostos: juventude e velhice, inocência e fracasso etc., todos na experiência do zeitgeist do mundo de maneira que os elementos discutidos fluem com tanta naturalidade que fica difícil dizer se não são possibilidades vindouras a nós espectadores, não como o personagem do filme – uma ficção cômica – mas sim como futuro provável – a realidade aparente.
Don constrói algo que dificilmente diretores conseguem fazer em muitas horas, esboçando um tom tão pessoal… tão humano, com bonecos de palito e 20 minutos de roteiro, que as únicas palavras que podem expressar este filme é: o cara é um gênio.
Vejam este, vejam outros curtas dele e apreciem esta arte.

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