Johnny Guitar

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Existe uma séria discussão pessoal e, no que cabe a mim, um respeito em aceitar algumas verdades sobre o cinema que eu tenho, dentre elas o fato de que o Western é, sem dúvidas, o estilo de filme com a melhor narrativa para a sétima arte. A força de um bom Western em distribuir e enredar certos elementos cria um poder diante de determinadas obras que é algo incrível. Não a toa tantos foram os diretores consagrados no estilo, como John Ford, Sergio Leone, Samuel Fuller etc. – e, aqui, sem fazer distinção aos Spaghetti ou não, pois ambos são em suas diferenças grandiosos.
Tenho pra mim que o motivo por isso é uma mistura minimalista na ‘falta de’ possibilidades; com a limitação dos cenários em aspectos geográficos muito parecidos, a limitação de cores por causa da terra e do fundo sempre em tons avermelhados (quando colorizado), além de temas semelhantes em virtude da ideia de possibilitar poucos personagens encarando problemas similares etc., isso constituiu uma escola de diretores no qual a importância de um tema profundo, abrangente em lidar com vida de fato e dando poder à alma dos personagens, acabou construindo um gênero de cinema que, por si, necessita de uma compreensão dos elementos narrativos muito bem para compensar a ‘falta de’, descrita nos outros detalhes. Daí surge através disso estes grandes projetos: o Western é feito dos detalhes, da frieza milimétrica do diretor, sua equipe de fotografia, sua trilha, tudo em ‘contar histórias’ que não poderiam senão pela soma de pequenos elementos bem construídos, porque a chance de ficar ‘tudo com a mesma cara’ é grande.
Um destes casos clássicos é o filme aclamado – porém subestimado – de Nicholas Ray, conhecido como Johnny Guitar… é engraçado que, numa época onde o cinema é predominantemente machista, um conto de heróis e galãs cercado de diretores homens, mesmo no Western que predomina o papel do homem, surge um filme tão sensacional como Johnny Guitar fugindo à regra e incorporando o papel da mulher sem ser extremamente piegas ou ideológico, apenas posicionando a realidade de forma tão bela. Embora o nome carregue o papel do cancioneiro recém chegado, quem rouba a cena ao longo da obra são dois papéis femininos, tanto de Vienna como a mocinha como Emma numa cruel vilã. Mas e, tão somente aí se pareça uma peça tradicional de bons e maus lutando uns contra os outros, a película é muito maior do que isso.
Talvez um dos casos mais pungentes para especificar a grandeza narrativa dos Westerns, Johnny Guitar é justamente um exemplo de associação na simplicidade: os elementos que constituem a trama principal – entre bons e maus – apenas servem como guia de uma história no qual o grande deleite é a exploração na riqueza do pano de fundo para situações; no caso, a vida dos seus personagens – todos – muito bem construídos no drama da tristeza de um cotidiano conturbado no Oeste americano. No que tange ao desenvolvimento da obra, é digníssima – quase perfeita -, a exploração do diretor através do seu roteiro, a mostra dos personagens femininos ao enfrentar os problemas de lidar com uma vida no qual ambas – e, aqui, também a personagem má – demonstram suas fraquezas e forças em poder constituir bases suficientemente sólidas para ‘estar onde estão’ naquela sociedade, de forma a fazer valer como pessoas e não só como o sexo frágil apoiado no conto de homens vis: elas são protagonistas ao mesmo tempo que não deixam de ser vítimas do medo; porém, não só por elas, os homens ali também são desconstruídos, como figuras associativas entre problemas e momentos de indecisão, claro, ora heróis, ora bandidos, ora ambos, nenhum é essencialmente um caráter forte, ou fechado, mas uma pessoa com uma vida dura e por muitas vezes injusta, todas reverberando em seu papel diante da sociedade e, principalmente, do material escasso do cenário – o Oeste americano.
Johnny Guitar é maravilhoso exatamente nisso: mesmo no seu começo, quando pouco ou nada conhecemos enquanto espectadores os pormenores de seu panteão de personagens, ainda assim, já somos situados na tristeza ou na ‘falta de’ solidez no caráter linear de seus personagens, que muitas vezes não são o que aparentam, nem fortes, nem duros, nem bandidos… tudo é exatamente aquilo que precisa ser ao lidar com a realidade daquele ambiente, um constante e enorme mar de incertezas, uma sucessão de momentos no qual, por muitas vezes, o cinema não está acostumado a mostrar – porque, como arte, precisa do caráter performático, da mentira para se desenvolver. E, no caso deste filme, embora seja essencialmente performance, uma histórica fictícia, ainda assim, a beleza crua da realidade sobressai os seus elementos: ele é como se espera; a vida que imita a arte.

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Dentro disso, também é importante frisar a união do todo, tanto na maneira como o diretor coloca sua história, como filma e demonstra ela para nós, espectadores; Johnny Guitar é essencialmente um filme no qual o protagonista, no caso, Vienna, não é apenas um caráter sozinho interpretado discurssivamente em um monte de execuções de atos no qual afirmam ou negam ao personagem elementos possíveis, pelo contrário, é exatamente na grandeza de seus personagens secundários que a história brilha: todos são demonstrados em papéis atuantes e importantes à trama, em explorar diferentes respostas aos mesmos problemas, interpretadas em cada uma das visões de uma sociedade conturbada; por isso, fica difícil falar apenas de Vienna, embora sua importância, mas devemos levar em conta o como aquilo ocorre ao lidar com os seus particulares que, por eles, são a contextualização somada do todo, o universo em questão. É na maneira como nós vemos os caracteres em meandros e estruturas opostas porém complementares que sabemos se tratar de um filme de situação, ou ‘como aquela relação completa ocorreu?’ e não um filme de exploração, ou ‘como Vienna vê as coisas?’. De fato, pouco importaria Vienna sozinha, o drama no qual nos compadecemos com ela é instituído justamente porque somos apresentados ao resto, em outros elementos e outras visões e, a partir disso, encaramos com toda riqueza de detalhes em sobreviver aquilo do jeito que faz.
O fator contundente ao longo dos minutos comprova o valor da trama que, como tantos Westerns, mesmo um filme relativamente longo, como são apresentados tantos elementos de maneira tão bem distribuída pela narrativa e direção primorosa, pouco nos consome em cansaço; o ‘peso’ da tristeza ao rever uma ficção tão friamente cruel pela realidade é logo substituído pelo deleite em contemplar um filme tão grande. Johnny Guitar é uma daquelas obras que todos deveriam ver ao menos uma vez na vida. Vale a pena, não percam! Boa noite e até a Próxima Sessão!

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