Livide

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Achei este pequeno pedaço de sui-generis procurando por filmes no Netlifx; vez que outra a gente acerta numa busca aleatória e é brindado com isso. Eu não sei bem explicar em qual categoria eu deveria colocar esta obra, horror? Fantasia? O que é? Um conto francês envolvendo uma dose de sobrenatural mas e não tão somente um filme do gênero, há referências claras ao fantástico e uma certa dose de poesia, a estética do grotesco explorada de maneira bela fazendo valer pela imagem como elemento isolado do espetáculo: o filme conta a história de uma ajudante de assistente social que ouve uma conversa sobre um tesouro perdido na casa de uma senhora em coma – que era uma famosa professora de ballet – e, por isso, chama uns amigos pra tentar recuperar o objeto e ficar com o dinheiro. Daí em diante, a coisa se desenrola numa mistura de elementos tão louca e intensa que fica difícil descrever em uma sinopse provável…
Um detalhe interessante que eu pude notar logo de cara é a perspectiva bem peculiar do diretor em prestar homenagens; se o filme tenta ‘abraçar o mundo com as mãos’ – e consegue – é, justamente, por explorar todos universos possíveis, de certa forma cobrindo um anseio da própria direção em se fazer um grande especialista em ‘relembrar’ marcas do passado, significados de outras obras em temas bem característicos: o filme age de maneira nostálgica com toda sorte de grandes diretores ou películas do gênero, ora incluindo cenas, motivos na história, bem como se desenvolvendo na narrativa etc.
Quando escrevi a crônica de Mad Max, critiquei veementemente remakes prestando homenagens, porém, no caso de uma obra nova, como Livide, o projeto, se bem feito, consegue um resultado satisfatoriamente interessante – como este caso. O apanhado dos efeitos em afirmar uma nova linguagem justamente através de construí-la por outras linguagens já criadas e consolidadas produz um efeito bacana: ao ver Livide, não é como se você já não tivesse visto as cenas, ou narrativa, ou o que for outras vezes, mesmo sabendo que elas já foram exploradas em outros momentos; porém, fatiadas e aproveitadas num conjunto pinçando as suas particularidades, o significado obtido é extremamente benéfico. Nos deparamos com uma abordagem rica naquilo que pretende e, puramente francesa, preocupada com o ambiente, os espaços e como isto reflete na personalidade dos seus personagens, explicita ao lidar com seus motivos próprios; daí que a homenagem funciona porque nada é exatamente ‘igual’ ao original, porém novas visões sobre algo consolidado. Ou seja, mesmo que o diretor claramente se faça usar de ferramentas famosas em Argento (na história), Carpenter (no absurdo), ou nos Exploitation clássicos (nas cenas de violência), bem como a incursão de elementos do terror japonês (na execução ao não dar sustos diretos, mas ‘deixar a entender’ por outras maneiras que o terror é presente), ainda assim, por serem misturados – e com uma assinatura francesa clássica em seus cenários e na forma rude como apresenta a dureza de seus personagens – o objeto final é interessante, como se surgisse algo de novo na apropriação ou no acúmulo de retalhos.

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Eu também não gosto de me estender em elementos separados da narrativa se estes não cumprem um papel importante ao todo, mas o trabalho de fotografia/maquiagem no projeto é muito belo como um elemento a parte; retire toda a necessidade daquilo na narrativa e, ainda assim, a obra exibe uma estética que por si só é belíssima, num contraste de cores e na intensidade do brilho no qual aprofunda um efeito fantasioso muito funcional: nada parece real e, portanto, tudo é tão incrivelmente possível, haja vista que a imaginação não detém limites nas suas possibilidades; isto é também explorado para ‘retalhar’ diferentes momentos, no qual, a história se constrói de maneira tão cheia de detalhes e novas viradas que, no final, pouco se sabe do que realmente está acontecendo em uma narrativa da realidade, entendendo que a soma dos momentos é, em si, algo que não se explica realmente como aparente… ou, como se espera, um mundo de fantasia onde tudo existe ao mesmo tempo.
Livide é aquele caso clássico de obra subestimada, com um orçamento relativamente limitado – podemos ver isso em alguns momentos e principalmente no fato do filme ‘correr’ com seu roteiro, para se manter em um curto espaço de tempo – mas que produz um efeito sensacional. Vale a pena ser visto e revisto! Bom Dia e até a Próxima Sessão!

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