Sindicato de Ladrões

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Marlon Brando é reconhecidamente uma das caras mais famosas do cinema americano. Peculiar, explosivo, estranho e marcante, sua trajetória em vida se confunde com o que fez: tudo que o se esperava do ator dentro das telas era reflexo da personalidade longe delas. Antes de recusar seu segundo Oscar, no icônico papel de Don Corleone em O Poderoso Chefão, ele já havia ganhado uma estatueta, em Sindicato de Ladrões – dirigido por Elia Kazan. E este filme é, talvez, sua verdadeira obra-prima. Na época, muito polêmico pela sua história, foi fortemente criticado por toda sorte de movimento social, sindicatos e afins; não poderia ser por menos, haja vista que a história relata a trajetória de uma máfia infiltrada em um sindicato portuário com o intuito de perpetuar-se através de crimes e intimidação, alegadamente corrompendo todos a sua volta e fazendo valer do medo.
Claro que, como obra polêmica, primeiramente não poderíamos deixar de louvar seu diretor Kazan, numa escolha sensacional de momentos constrói um tipo de suspense enigmático envolto numa realidade possível e papável; não só ele, numa (mais uma vez) atuação memorável de Lee J. Cobb novamente como ‘vilão’, assim como a beleza inocente combinada com outro estonteante papel na pele de Eva Marie Saint, o projeto é, sim, uma soma de elementos extremamente bem conduzidos e profundamente trabalhada onde todos regulam naquilo que se espera; se o intuito de Elia era desdobrar uma obra de ficção numa ‘quase’ realidade, mostrando em tela uma trama imaginativa naquilo que possa ocorrer na vida de fato, seus atores e toda equipe foram essenciais nesta condução: o filme em nenhum momento deixa de parecer sempre possível, sempre versando diante do eterno ‘e se…’ como se tudo que é visto na obra tivesse ocorrido também fora dela. Com todas as críticas e reclamações, há de se considerar que, mesmo assim, a história e como ela se aborda dentro da narrativa do diretor são, sim, um mecanismo propenso de acontecer no objeto tratado – no caso, a violência de sindicatos corruptos. Não a toa o filme foi lançado em 1954 e até hoje é perfeitamente atual e atemporal, numa crítica que se diluí ao longo das décadas de forma tão explícita que fica difícil marcá-lo como algo datado. A proposta, no entanto, em não ser um ‘filme ideológico’ ou ‘político’ é também evidente: embora trate de um tema tão delicado, o roteiro não é montado como forma de transparecer algo do porte a se indicar um perfil político, mas sim em ‘contar histórias’, de pessoas, suas relações, boas ou ruins, num clássico conto de mocinho em dúvida consigo mesmo e vilões cruéis e sem escrúpulos; ainda que se faça a crítica ao sindicatos, ela não é a força motriz para a película, mas um resultado natural do desenrolar possível na trama. No fim, o que é visto é primordialmente a ideia em se mostrar algo comum – uma história de bem e mal – embasada em um contexto; este contexto, por sua vez, talvez nem Kazan percebesse ser tão atemporal.

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Mas, dentre toda estrutura montada, não poderíamos esquecer dele, o herói – ou anti-herói – Marlon Brando. É nesta atuação que, talvez, ele construa sua melhor personagem; como ele cria suas dúvidas, aqui, é justamente a marca que confunde ator e papel, a arte e a verdade. O que vemos, ao longo dos minutos, é o desenrolar de um caráter simples, um tempestuoso e explosivo jovem que, confrontado com a realidade, se mostra preparado para encarar os problemas com atos que, no caso, possam colocar o próprio indivíduo em risco. Tal qual fora do filme, Marlon é a execução que faz neste personagem: uma dúvida, uma incógnita – mas sempre explosivo. A brilhante execução dele neste filme, ao adquirir um caráter extremamente ‘pessoalista’ é, quem sabe, o motivo de fazer com tanta maestria; somos levados, enquanto espectadores, ao mesmo confronto que o personagem: primeiramente porque não nos identificamos com o tal, o cinismo e a distância do mesmo é algo que nos afasta, mas com o passar do tempo e das suas atitudes, fica impossível não criarmos uma afeição e, claro, a esperança de um resultado positivo. Marlon bando chama o espectador para a trama, incluindo-o exatamente como o que ele atua, na construção de uma visão complexa em algo supostamente simples, na vida e na ficção ele se traduz neste filme: uma pessoa difícil, sim, mas ao mesmo tempo extremamente afetuosa.
Nesta fusão entre diretor e atores, em especial Brando, o resultado é justamente não só um ‘filme crítico’, mas uma história complexa sobre pessoas; sobre vidas e a inclusão delas nas dificuldades urbanas, especialmente no que diz respeito ao contraste entre a união de setores e o medo de repressão por outras partes; nada disso seria possível se não fosse pela condução da narrativa mostrando todas as dúvidas existenciais por trás do papel principal – no caso, do próprio Brando – onde ele não representa apenas um singular, mas sim o todo, exatamente porque o sentimento do personagem condiz com aquilo que se espera ao retratar a expectativa: a dúvida, a confusão, as dificuldades, os medos e as trocas de argumento para, portanto, formar um caráter forte.
Uma obra muito bonita, vale a pena ser vista e revista que, com tantos anos, ainda assim, diz muito sobre todos nós enquanto sociedade. Boa Noite e até a Próxima Sessão!

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